Resenha: A Loteria, Shirley Jackson



Publicado recentemente na coletânea "Contos Clássicos de Terror", pela Companhia das Letras, temos finalmente mais uma obra de Shirley Jackson traduzida para o português. "A Loteria", conto publicado originalmente em 1948, e traduzido nesta edição por Débora Landsberg, é mais um dos escritos de Jackson que faz com que tenhamos certeza de que foi, e ainda deve ser, considerada uma grande autora de terror.

O texto a seguir pode conter spoilers leves.


Quando pensamos em uma loteria, imaginamos que o sorteado receberá algo bom. Ficará milionário, viajará para um lugar bonito e permanecerá anônimo por sua própria segurança.
Mas, se você conhece minimamente as obras da Shirley Jackson, pode ter certeza de algumas coisas: 1) não vai acabar bem; 2) a história não é sobre aquilo que você está esperando.

O conto é sobre uma pequena cidadezinha, de 300 habitantes, que se reúne anualmente para tirar a sorte em uma loteria. O que o sorteado recebe é a grande surpresa, plot twist, elemento de horror, motivo pelo qual pessoas enviaram cartas horrorizadas para o The New Yorker no ano em que o conto foi lançado no jornal. É somente ao final que se consegue compreender como a Jackson compreende seu terror, porque esse conto poderia ser considerado um conto de horror.

A construção da narrativa de "A Loteria" é interessante. Elementos minúsculos como as brincadeiras das crianças no início do conto são levados em consideração ao decorrer dos acontecimentos. A narrativa de Jackson é, como sempre, surpreendente. Em "A Loteria" podemos perceber como a escritora influenciou tantas gerações após seu sucesso, inclusive influência em Stephen King, que também está presente na coletânea.

O que mais fascina em "A Loteria", assim como nos outros trabalhos de Jackson, é como as revelações fazem com que o pior do ser humano seja mostrado. Em meio a exclamações de que "as pessoas não são mais como eram antigamente", de que a tradição da Loteria deveria continuar, de que locais que não participassem mais da Loteria não poderiam funcionar de forma correta, que os jovens estragavam tudo e que, ficar sem a Loteria, seria um ato igual a regredir ao período das cavernas, descobrimos que o ser humano tem uma sede pelo pior e normaliza atos de barbárie (aqui, o spoiler é de que não, você não ganha nada de bom quando é sorteado nessa Loteria) para se sentir melhor, achando que está em seu direito, em nome de suas tradições.

Como afirmado nesta notícia, esse conto de Jackson é um dos grandes exemplos de horror social, ou como eu mencionei em outro texto, o terror socialmente consciente; aquele do qual algumas pessoas insistem em renunciar, dizendo que o terror não precisa ser político, dizendo que política nada tem a ver com o horror. Mas, para surpresa de ninguém, são opiniões equivocadas.

A notícia mencionada ainda afirma que existe uma adaptação para o cinema de "A Loteria" em desenvolvimento, e torcemos que tenha mais visibilidade do que a adaptação de Sempre Vivemos no Castelo, que foi apresentada em festivais no final do ano passado e desde então não se tem mais notícias.

Apesar da coletânea "Contos Clássicos de Terror" possuírem somente dois nomes femininas, sendo eles o da Shirley Jackson e o de Lygia Fagundes Telles, com o conto "Venha ver o pôr do sol", é um livro interessante. Claro, poderíamos ter uma série de outros nomes femininas, mas já é bastante feliz que dois grandes nomes, um nacional e um internacional, tenham sido colocados no livro.

Outas resenhas que escrevi sobre os trabalhos da Shirley Jackson:
Sempre Vivemos no Castelo
A Assombração da Casa da Colina

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Esse é mais um dos livros resenhados sobre Escritoras de Terror que tiveram seus livros publicados no Brasil. Clicando no link AQUI, você pode conhecer outras autoras, além de conferir quais resenhas já foram feitas. Clicando AQUI, você vai diretamente para a planilha de Escritoras de Terror Brasileiras.
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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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