A Mulher de Preto, de Susan Hill

agosto 02, 2022


Gosto muito de ler antes de dormir. Eu passo o dia inteiro lendo e escrevendo, e pensando sobre leituras e escritas (com exceção dos momentos em que estou na ginástica, em que meu único pensamento é sobreviver aos exercícios). Ler antes de dormir me ajuda a me afastar do dia que passou (sim, um paradoxo). Então eu deixo meu celular de lado, pego o livro do momento, e leio ali uma horinha toda noite.

Despretensiosamente, certa noite, eu tinha acabado de ler Carrie (sim, essa semana passada), eu estava sem ideia nenhuma do que ler em seguida, e me lembrei que queria ler A Mulher de Preto, da Susan Hill (trad. Flávia Souto Maior, pela Editora Record). Há anos, desde que comecei a pesquisar autoras de terror, eu coloco e tiro esse livro do meu kindle unlimited. Tenho certeza que assisti ao filme mas não me lembro de uma vírgula do que acontece nele. Mas a Susan Hill é uma autora muito renomada no terror (apesar de algumas opiniões controversas, que eu já nem me lembro quais eram, mas lembro que existiram). 

Pois bem. Resolvi que era hora de encarar esse fantasma de anos que me persegue. 

Em A Mulher de Preto, Arthur Kipps começa nos contando sua história no tempo presente (dele, no caso, já que o livro é ambientado no século XIX). Semana do Natal, várias comemorações, mas conforme Kipps vai nos contando sobre sua vida, percebemos que há algo de assustador pairando sobre seu passado, principalmente quando ele menciona ser viúvo. Essa primeira parte não deixa claro o que houve, mas logo descobrimos o que o perturba.

Na noite de Natal, seus enteados começam a contar histórias de fantasmas, conforme uma antiga tradição. Kipps não se sente confortável com a situação, e logo passa a ficar incomodado, até o momento em que os jovens o pedem para contar uma história, e ele sai da sala transtornado.

Kipps afirma que não tem condições de contar essa história para outras pessoas, mas que pretende escrevê-la, para que consiga retirar o peso de seus ombros. Então, ele passa a nos dizer, a seus leitores, o que aconteceu.


Susan Hill nasceu em fevereiro de 1942, mas seu interesse remonta às histórias de fantasmas do século XIX. Apesar de menos conhecida aqui no Brasil, Hill é um nome bastante citado quando a questão são esses tipos de história, suspenses e terrores da era vitoriana. Então, é fácil perceber essa influência em A Mulher de Preto. Essa ideia de uma pessoa contar em retrospectiva o que aconteceu a ela, em forma de carta ou em forma de diário, ou mesmo ao redor de uma fogueira, é um recurso muito utilizado nesse tipo de história. Pode-se dizer que seja uma característica muito forte.

Quando jovem, Kipps era um advogado que tinha algumas responsabilidades no escritório onde trabalhava e sonhava em ascender no local. Quando conseguisse um aumento, planejava se casar com Stella. Certo dia, seu chefe pediu que Kipps viajasse até uma cidadezinha distante, próximo de brejos e do mar, para verificar os documentos e o espólio de uma cliente que acabara de falecer, a sra. Drablow. Kipps fica contente de se encaminhar até lá, tanto pela responsabilidade recém adquirida quanto por poder se livrar da neblina intensa que cobria Londres naquela época. Mas seu chefe havia o informado que Drablow era uma mulher solitária e excêntrica. Arthur pensou que não fosse nada demais.

Mas, chegando lá, apesar de toda a hospitalidade recebida pela população, algo pairava no ar quando Kipps informava que era representante de Drablow. Parecia haver um grande segredo entre a população.

"Mas gradualmente descobri por mim mesmo a verdade na máxima que diz que um homem não consegue permanecer indefinidamente em um estado de terror efetivo. Ou a emoção diminui até que, com a sucessão de mais e mais acontecimentos assustadores e temores, ele é dominado de tal forma pelas circunstâncias que foge ou enlouquece; ou então, pouco a pouco, ele começará a ficar menos agitado e recobrará o autocontrole."

Quando chega à casa de Drablow, Kipps percebe que o lugar realmente é estranho, para dizer o mínimo. E logo suas experiência passam a demonstrar que sua fama, cheia de silêncio e de terror indizível, fazem jus a ele.

Kipps vai nos contando sobre seus dias no vilarejo e sobre suas desventuras com a casa, com seus fantasmas (sim, fantasmas), e todo o mistério que envolve o local. Logo Kipps vai juntando as peças e montando um quebra-cabeça terrível do que aconteceu ali, e qual a tragédia que marcou tantas vidas de uma vez. Chegando ao final, ele nos conta suas próprias tragédias.

Eu fiquei bastante... não sei que palavra usar aqui. Assustada? Emocionada? Tive momentos de medo de verdade. Na noite que terminei o livro eu deixei a TV ligada até pegar no sono. Não sei. Eu tenho minha suspensão da descrença muito em dia. Se estou lendo ou assistindo alguma coisa, eu gosto de estar nela de cabeça. Então eu sempre sinto bastante com esses momentos.

Algo na narrativa de Hill, na forma como ela escolheu contar essa história, no clima e em sua ambientação, me causaram um profundo terror. E tudo isso foi antes mesmo de descobrirmos qual foram as tragédias do vilarejo e do próprio Kipps. Foi antes, nos momentos em Kipps é assombrado na casa de Drablow eu também fui.

O que mais gostei, acho, foi como Hill consegue explicar em palavras o absoluto terror pelo qual Kipps está passando. Eu me senti bastante representada, porque é como me sentiria em situação parecida.

"Um homem pode ser acusado de covardia por fugir de todos os gêneros de ameaças físicas, mas quando coisas sobrenaturais, imateriais e inexplicáveis põem em risco não apenas sua segurança e seu bem-estar, mas também sua sanidade, sua própria alma, recuar não é sinal de fraqueza, mas o curso mais prudente a se seguir."

Eu realmente fui sugada pela leitura, e gostei muito de acompanhar esses terrores de Arthur Kipps. Estou pensando seriamente em rever o filme, já que, como comentei, não me lembro de absolutamente nada. Talvez até leia outros livros de horror de Susan Hill. 

Hill teve poucas outras obras lançadas em português. Uma delas foi Sra. Winter, uma continuação de Rebecca, de Daphne Du Maurier. A crítica pegou pesado com o livro, mas pretendo lê-lo em algum momento mesmo assim, porque a crítica nunca me deteve (às vezes penso que infelizmente).

O livro pode ser comprado em edição física ou ebook na Amazon, ou mesmo pode ser emprestado através do kindle unlimited. Também não deve ser difícil de ser encontrado em sebos por aí.

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

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