Mandíbula, de Mónica Ojeda

maio 05, 2022


Ah, a juventude. Época de descobertas, de novas experiências, de muitos primeiros passos rumo à vida adulta e como sua personalidade será nos anos seguinte. 

Pode ser um período muito bom ou muito ruim. Pode, ao mesmo tempo, ser um período muito bom para quem o está passando, e péssimo para quem tem que conviver com essa pessoa. E vice-versa. O terror (e as obras que flertam com ele) é um gênero muito interessante para abordar esse período. 

No episódio 4 da segunda temporada de History of Horror, do Eli Roth, sobre bruxaria, Megan Fox, estrela de um dos clássicos do terror adolescente, Garota Infernal, comenta algo interessante. Ela diz que o terror é um excelente gênero para lidar com essas questões da puberdade e adolescência, porque você pode tornar físico algo que diversas garotas estão sentindo internamente o tempo todo. E, acrescento, às vezes nem precisamos tornar físico. Mas o terror tem essa dimensão, essa possibilidade, de mostrar sentimentos conflituosos e aterrorizantes — que é, afinal, como muitos jovens se sentem.

Nessa última semana eu recebi Mandíbula, de Mónica Ojeda, com tradução de Silvia Massimini Felix, da Autêntica Contemporânea, novo selo da Editora Autêntica. Mandíbula é um lançamento importante no Brasil, pois Mónica Ojeda é um nome forte da literatura latino-americana e até então, não tinha tradução para o português (em janeiro de 2021 a Editora Jabuticaba lançou um de seus livros de poema, História do Leite, mas sua ficção permanecia sem tradução).

Mónica Ojeda nasceu em Guayaquil, a maior cidade do Equador. Mais adiante, se mudou para Barcelona. Em 2017 foi incluída na lista Bogotá39, uma lista que mapeia e celebra os 39 autores mais promissores da América Latina abaixo dos 40 anos. 

A primeira vez que ouvi falar em Ojeda foi enquanto pesquisava sobre o gótico e o terror latino-americano para o texto que escrevi para a Revista Quatro Cinco Um. Meu interesse por essa literatura, àquela altura, já era imenso. Mas eu queria mapear outros nomes, conhecer mais, saber de outras autoras. Para mim, há algo na literatura latino-americana que me fascina: há uma crueza, uma poesia, um sentimento muito próximo e muito próprio. Não é pertencimento, mas é proximidade. É uma violência palpável, uma parte da história, um sentimento que assopra um ar gelado e seco na sua nuca. Próximo.

Então, eu tinha acabado de terminar uma leitura no dia anterior ao que Mandíbula chegou, e não havia dúvidas que iria começar o livro imediatamente. Desde aquele momento, assisti aos acontecimentos do livro entorpecida e chocada, confesso, mas fascinada também, diante do trabalho narrativo primoroso de Ojeda.

Sobre o livro


Certo dia, Fernanda abre os olhos e se encontra em um local estranho. Ao despertar, percebe que está presa a uma cadeira, e que sua professora, Miss Clara, está com ela. Algo parece errado, e a jovem se dá conta de que Miss Clara a sequestrou.

Narrado por vários narradores diferentes ao longo dos capítulos, passeamos pelo íntimo de Fernanda, de Miss Clara e, aos poucos, vamos entendendo como as duas personagens chegaram até ali. E mais: vamos entendendo todo o contexto das vidas de ambas e porque, no final das contas, esse livro é tão trágico, amargo e cru.

Fernanda inicia a história como uma jovem intragável. Filha de duas figuras públicas importantes de Guayaquil, onde se passa a história, é rica, e faz parte de um grupo privilegiado e desordeiro do Colégio Bilíngue Delta, High-School-for-Girls. Junto de Natália, Fiorella, Analía, Ximena e sua melhor amiga Annelise, Fernanda assumiu não somente o controle da sala, mas sob tudo a sua volta. Sua mãe teme a garota, por um episódio acontecido quando era criança (e pouco explicado desde então, quando Fernanda viu seu irmãozinho mais novo se afogar ou, o que muitos acreditam, que ela mesma o matou). Seu pai, ausente, apesar de carinhoso quando está por dentro, demonstra fraqueza diante da mãe.

Ao longo dos dias no colégio, o 5ºB, ou esse grupo em particular, corre sem disciplina, até que encontram um prédio abandonado certo dia, e começam a pôr para fora todo o tipo de selvageria e situações perigosas, impulsos de morte causados por uma educação regrada ou pela simples curiosidade de conhecer o mundo. O grupo inteiro participa, mas Fernanda e Annelise são as abelhas rainhas da colmeia. Annelise até inventa um certo tipo de divindade complexa chamada Deus Branco para os rituais do prédio. Mas as coisas vão longe demais.

Estar assustada faz com que você se sinta muito viva e muito frágil, como se você fosse um caco de vidro e pudesse se quebras a qualquer momento. Pode ser feio sim, mas também te desperta e te preenche de uma emoção enorme.

Miss Clara entra nessa história como professora do Colégio Bilíngue Delta. Uma mulher jovem mas alquebrada, cuidou da mãe no período de sua doença, mas desde cedo foi afetada por um tipo de amor impulsivo (e repugnante para todos que olhassem) por sua mãe. Clara adotou a mesma profissão da mãe, e passou a adotar suas roupas, seus trejeitos e até seus pensamentos. Desde cedo, também, era dominada por ataques de pânico e ansiedade, poucos compreendidos pela mulher que a deu à luz. 

Além de todos esses pequenos detalhes sobre a personalidade de Miss Clara, há também o fato de que algum tempo antes dela entrar no Colégio Bilíngue Delta, duas de suas alunas da escola anterior em que ela dava aula entraram em sua casa para roubar as provas que seriam aplicadas. 

Os detalhes dessa invasão, assim como os detalhes das personalidades dessas jovens do 5ºB do Colégio Delta, são expostos de forma desordenada, e isso é interessante porque, apesar de sabermos como é uma sala desagradável, é somente lá pelo capítulo XX em que Clara conta, com todas as letras, como o lugar é insuportável.


Há um vai e vem de ideias, um fluxo bagunçado de pensamentos, que se misturam com sessões do analista de Fernanda, memórias de Clara, até mesmo outros contatos entre as jovens. Essa multiplicidade de vozes dá forma ao livro: em alguns capítulos, mais longos, temos parágrafos mais compridos; em outros, mais curtos, temos questões lançadas em uma formatação à direita da página, por exemplo. 

Essas ideias jogadas, esse fluxo de pensamentos, ajuda a conhecer mais a fundo esses personagens, sem um filtro. Sabemos o que eles pensam, e isso nos traz questionamentos interessantes sobre papéis de gênero e questões sociais, de choques culturais, de choques de educações diferentes. Mas algo que permeia toda a história e que dá o tom em todos os conflitos é essa disputa entre mãe x filhas, alunas x professoras. 

Essa disputa por lugar é palpável durante todo o livro. Mães e filhas que não se entendem, mulheres que avançam sobre outras mulheres, a família como um lugar de disputa. A literatura latino-americana tem esse poder, algo que acompanhei em muitos livros e muitas autoras, que é de colocar a família como algo que está ruindo, algo que se mantém sobre alicerces muito frágeis, e algo que dialoga diretamente com o sentimento de milhares de pessoas que compartilham desse local. Nossa noção de família é diferente, afinal, de outros lugares. Não quero transformar a vivência latino-americana em uma generalização, mas é importante termos em mente esse contexto, é importante sabermos como essa experiência se dá. Esse é, neste livro, um dos pontos principais. 

A disputa entre juventude e amadurecimento também está presente no livro, através de Miss Clara que, apesar de professora, tem certo receio de se aproximar de suas alunas. Para ela, as alunas exercem um papel semelhante ao de filhas: o de engolir suas mãe (neste caso, professoras). Desde o acontecimento com as outras jovens, da escola anterior, Clara tem problemas de se aproximar das jovens do Colégio Delta.

Preciso abrir um parêntese para dizer o quão inteligente e interessante foi o trabalho de Ojeda ao incorporar os elementos de terror e cultura pop ao longo do livro. Fernanda é uma jovem apaixonada por filmes de terror, e Annelise é uma grande escritora de creepypastas. Miss Clara, aliás, é uma grande conhecedora de obras clássicas do gótico e do terror. Isso é importante para o livro porque, em determinado momento, Annelise desempenha um papel chave na narrativa e escreve um ensaio imenso sobre o que ela chama de "horror branco". Nele, ela fala sobre a experiência do medo na adolescência e como essa idade poderia ser conhecida como idade branca. É um texto excelente, que expõe as ideias da personagem, que é tão importante para o desenrolar do livro e que não precisa de mais que algumas páginas para a conhecermos.

Um dos pontos altos de Mandíbula é seu formato, as ideias equivocadas que temos até compreendemos o que se deu realmente na história, toda a crueza de sentimentos que essas jovens expõe ao longo do livro que é conduzido de forma magistral por Ojeda. Personagens que poderiam ser figuras reais, que, de certa forma, traduzem sentimentos reais.

 Se você gostou...


Se você gostou de Yellowjackets e de Mate-me Por Favor — o filme de 2015 de Anita Rocha da Silveira — você provavelmente vai gostar desse livro. Yellowjackets porque há, nesse grupo de garotas perdidas na floresta, um segredo gigantesco e algo sobrenatural (ou algo das mentes delas) que lembra um pouco esse grupo do 5ºB de Mandíbula. Eu diria até que se houvesse um encontro entre esses dois grupos provavelmente o resultado seria a morte de alguém.

Mate-me Por Favor tem esse impulso de morte que tem em Mandíbula. É um retrato tão simples da juventude, mas tão próximo, tão cru, que ambas as obras dialogam de forma muito próxima, mesmo sendo tão diferentes.

Compre o livro:

*Livro recebido para resenha pela Editora Autêntica
**Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

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1 comments

  1. A editora me mandou esse livro recentemente e depois da sua resenha acho que vou colocar no topo da lista. 😅

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