O Beco das Ilusões Perdidas, de William Lindsay Gresham, e suas adaptações de 1947 e 2021

abril 28, 2022


Como já comentei algumas vezes, sou muito curiosa. Quando descobri que o novo filme do Del Toro era um remake e era baseado em um livro clássico norte-americano, eu fiquei muito interessada. Eu não costumo ter a regra de só assistir aos filmes adaptados de livros depois de ler o original, mas queria fazer isso com esse. Então soube que a Planeta estava lançando a obra aqui, intitulada O Beco das Ilusões Perdidas, com tradução de Flávia Souto Maior, e resolvi investir nessa leitura — além do fato de que a capa da edição é de ninguém menos que Amanda Miranda, de quem sou assumidamente fã e já até escrevi sobre aqui no blog

Pois bem, hoje trago a resenha do livro, e de quebra dos dois filmes adaptados da obra de William Lindsay Gresham, o da década de 1940 e o recente, do Del Toro. É um pouco difícil dizer o que quero sobre o livro sem entrar em spoilers, mas se você assistiu a alguma das adaptações está tudo bem, e não terão grandes surpresas. Caso não tenha assistido nem lido, eu deixo o aviso de que, a seguir, teremos muitos detalhes da trama. Faço algumas considerações finais no último bloco deste texto. Se você não quiser saber dos spoilers do livro, pode pular para os filmes ou para as considerações.

Sobre a história

Dizem que todos os dias de manhã, um otário e um malandro saem de casa. Stanton Carlisle era o malandro, até o dia em que ele passou a ser o otário. 

Começamos o livro de Gresham conhecendo um pouco mais sobre a vida do show de variedades a partir da figura do selvagem. O selvagem, assim como o homem forte, a mulher barbada, o anão, ou a mulher mística que lê o futuro, é um dos grandes arquétipos desses tipos de shows. Desde o final do século XIX até meados da metade do século XX, os shows de variedade faziam muito sucesso nos Estados Unidos. Um parente próximo dos circos itinerantes e dos parques de diversões — alguns locais até reuniam todas essas atrações, inclusive —, os shows de variedades continham seres humanos curiosos, "aberrações", chamavam a atenção para aquilo que existia de "mais estranho" na humanidade, como em um zoológico. Nem todos os shows de variedades eram considerados "freak shows", mas os "freak shows" entram na categoria show de variedades.

No caso de O Beco das Ilusões Perdidas, começamos com o selvagem. O selvagem, como conta nosso narrador do livro, era um homem alcoólatra, que faria qualquer coisa para conseguir mais um pouco de bebida. Vendido aos espectadores como um homem recuperado de algum recanto distante da civilização, o selvagem, na verdade, era só um homem viciado com uma peruca (e esse detalhe será importante mais adiante no livro).

Voltando ao nosso malandro-feito-de-trouxa, Stan Carlisle inicia sua trajetória no livro como o rapaz que faz truques de mágica entre os grandes números das apresentações. Mas desde muito cedo a gente percebe algo de podre na personalidade de Stan, só não sabemos exatamente o que aconteceu com ele, e isso só será revelado a nós mais adiante. De início, ele é um jovem ambicioso, mas ainda com um pouco de moral. 

Stan acaba se interessando por números maiores. Um deles é o de Zeena, da adivinhação, que contava com alguns truques na manga mas, acima de tudo, sabia ler uma pessoa facilmente. Em sua atração, Zeena pedia a todos que escrevessem perguntas a ela em pedaços de papel. Esses papéis eram recolhidos e levados até atrás do palanque de Zeena, onde seu marido ficava, substituía os papéis por outros, devolvia os papéis falsos a Zeena que os incinerava. Então, seu marido escolhia algumas perguntas e, aos pés de Zeena, em um fundo falso, mostrava as perguntas reais a ela. De resto, a mulher se virava com as respostas, através de sua observação nas roupas e trejeitos dos participantes. Stan queria mais, e acabou se envolvendo com Zeena, conquistando os antigos códigos que ela tinha com seu esposo e, após um acidente que levou a morte do homem, Stan acabou se afastando do show com Molly, a garota da cadeira elétrica, construindo um número com o que havia aprendido com Zeena, com os códigos roubados e indo para a cidade grande.

O show de variedades em que Stan trabalhava, comandado por Hoately, dá um cenário interessante desse tipo de atração. Além de Zeena e Molly, temos Bruno, o homem forte; Kenneth, o "homem mosquito"; Joe Plasky, o "acrobata incompleto", que não tinha o funcionamento das duas pernas e se movia com os braços; Francis Xavier Martin, o homem tatuado (uma atração muito utilizada em antigos circos e shows desse tipo, em que alguns homens eram exibidos completamente tatuados); e outras figuras que aparecem aqui e acolá. 

Mas o livro, no geral, é focado em Stan e sua busca por ser "o maior". Ele quer enganar os ricos e conquistar o máximo de dinheiro que puder na lábia. Para ele, todos os humanos são imundos e há um beco que nos persegue: um pesadelo recorrente em que ele foge até um beco, e esse beco seria uma metáfora para nossa vida: um beco escuro e sem saída. 

"Era o beco escuro mais uma vez. Com uma luz em seu fim. Desde criança, Stan tinha aquele sonho. Estava correndo por um beco escuro, com prédios vazios e ameaçadores de ambos os lados. Lá no fim, uma luz ardia; mas havia algo atrás dele, bem atrás, chegando mais perto, até que ele acordava tremendo e nunca alcançava a luz. Eles também têm... um beco do pesadelo. O norte não tem fim. A luz apenas vai para mais longe. E o medo vai chegando mais perto."

Toda essa ambientação do show é um pouco arrastada e lenta, mas é necessária para o que vem a seguir. É através desse cenário e desses primeiros passos de Stan (ou como o conhecemos) que dará o tom da ascensão e queda do personagem. É a partir desses traços iniciais que vamos ver até onde ele pode chegar, e como vai começar a decair. 

E a ascensão de Stan acontece de forma acelerada. Golpes atrás de golpes, Stan consegue conquistar pessoas ricas e influentes. Depois dos shows de mágica e adivinhação, Stan percebe que é através da religião espírita que ele vai conseguir colocar as mãos na riqueza que deseja. Stan se torna Reverendo Stan, se passa por médium, e com tudo que aprendeu ao longo de sua vida no show de variedades, ele lê as pessoas, seus objetivos, pesquisa suas vidas, descobre de quem essas pessoas sentem saudade e usa isso a seu favor.

Molly permanece com ele. E, nesse momento, abro um parêntese para falar de Molly. Logo de início descobrimos que Molly é uma garota órfã, que era muito apegada a seu pai, um apostador de cavalos. Bruno, o homem forte, era apaixonada por ela, mas ela havia aprendido com seu pai que não deveria "se entregar" a qualquer um. Até o dia que Stan a seduziu, Molly manteve a promessa. Ela achava que Stan era um cara bacana, que cuidaria dela, que eles se casariam, seriam uma família "normal", teriam uma casa e filhos. Mas Molly foi mais uma das trapaças de Stan. Quando não precisou mais dela, ele não se interessava mais, mas a manteve por perto. 

Então, ambos seguem fazendo esses golpes armados por Stan, até o momento que o reverendo resolve fazer seus golpes sozinho. Mas Stan tem algo muito ruim dentro dele que precisa sair. Ele está, a essa altura, com problemas nos nervos, com dificuldades para dormir, quase entrando em surto quando, magicamente, ele conhece a Dra. Lilith Ritter. E é aqui que as coisas começam a ficar loucas mesmo.

Lilith é ainda melhor que Stan na "leitura a frio". Ela é psicóloga, logo entra na mente de Stan e ambos começam um caso. Lilith retira todos os segredos de Stan com facilidade, como por adivinhação, mas não há nada de mágica no que Lilith faz, e ela nunca quis dar a entender que havia: ela só compreende o gênio humano. 

Junto de Lilith, Stan arma o grande golpe: ele quer um cara rico de quem possa tirar todo o dinheiro. Fingindo ainda ser um médium, ele vai atrás de um homem chamado Grindle, que perdeu uma namorada ainda muito jovem, após fazer um aborto. Grindle nunca se perdoou, e quer reencontrar a jovem, mesmo que em espírito. Desde o início Stan sabe que o homem não quer somente pedir o perdão da moça, mas também dormir com ela uma última vez. Seu plano é fazer Molly se passar pela jovem Dorrie e, assim que o homem tiver dormido com ela, Stan ganhará uma bolada. 

Molly aceita a contragosto, acreditando que, depois desse golpe, Stan ficará com ela. Mas Stan já tem planos para largá-la e ficar com Lilith. Molly se deita uma vez com o homem, em um cenário armado por Stan, mas quando ele investe novamente contra ela, ela começa a gritar e põe o plano a perder. Stan bate em Molly, depois em Grindle, e foge com o dinheiro. Molly se recupera mais rápido e foge do local, temendo encontrar Stan. Já Grindle permanece inconsciente por um tempo. 

Depois de todo esse problema, Molly consegue fugir das garras do Stan. Em um dos capítulos finais, descobrimos que Molly encontrou um homem e se casou com ele, e agora é uma dona de casa (quase) normal, com um filhinho. Mas as coisas se complicaram demais para Stan.


Apesar de Stan conseguir fugir do homem, ele o sente em seu encalço. Depois de todo o truque ter dado errado e de ter levado um golpe ainda pior de Lilith, que o enganou e ficou com seu dinheiro, Stan se volta para a bebida. 

É nesse momento que Stan se volta para os truques de adivinhação e vendas de mapas astrais, como fazia de início no show de variedades. Stan passa a fugir, bebendo cada vez mais, até perceber que ele não consegue ficar mais sem a bebida, e todas as contas que faz dos centavos que consegue são de quantas doses ele vai conseguir consumir com o dinheiro ganho. Stan até consegue uma segunda chance, ao se reencontrar com Zeena, mas a deixa escapar, novamente tentando dar um passo maior que a perna. 

As coisas ficam tão baixas para Stan que nesse momento sua única opção é recorrer ao trabalho de Selvagem, como mostrado no início do livro. Tudo por uma dose.

Talvez um dos pontos mais importantes do livro, que conecta Stan com o selvagem do começo e do final, é o fato de que Stan é um homem que, de início, se mantém afastado do álcool. É Lilith quem o seduz a beber, e é a partir da primeira vez que bebe que Stan se transforma em alcoólatra, sempre recorrendo à bebida em seus momentos difíceis. É um dos elos principais entre o início e o fim do livro, que os filmes não conseguiram atingir de forma satisfatória, na minha opinião.

O filme de 1947


Dirigido por Edmund Goulding, a adaptação de 1947 se inicia bastante semelhante ao livro. Conhecemos um Stan que já trabalha no parque e tem sonhos de ascensão, conhecemos Molly e Zeena e Bruno. Logo de início, assim como no livro, Stan pergunta sobre o selvagem. 

O filme retira algumas partes importantes sobre a vida de Stan, que dão ao personagem o caráter que ele possui. Os momentos que Stan fala sobre seu pai e sua mãe são praticamente apagados, e ele menciona ser órfão. O final, também, difere bastante com o do livro, com Stan se reencontrando com Molly e tendo uma segunda chance. Ao fugir de Lilith, depois que ela o roubou, ele acaba entregando todo o dinheiro para a jovem, que retorna ao show de variedades. Lá, quase se tornando o selvagem, ele é salvo pela jovem.

Mas o filme de 1947 nos dá uma boa pista de onde surgiram algumas das partes mais importantes da adaptação dirigida por Del Toro em 2021. Alguns elementos usados por Goulding também são utilizados pelo cineasta. 

O filme de 2021


O que me fez querer ler o livro, para início de conversa, foi essa nova adaptação do Guillermo del Toro. Gosto muito do cineasta, e gosto muito da temática, e pensei "caraca, isso vai ficar de primeira". Como filme, se ignorarmos que houve um livro antes dele, é realmente um longa muito bonito, muito bem feito. Mas como adaptação eu não gostei tanto assim. 

Eu não sou dada a preciosismos. Sou uma pessoa bastante aberta à adaptações que fogem um pouco da história original. Mas assim que terminei a leitura de O Beco das Ilusões Perdidas eu fiquei mastigando a leitura por um tempo, pensando na ironia, pensando no quanto Stan Carlisle era um cretino. Por horas fiquei remoendo "mas qual a motivação do Stan? Por que ele é assim? O que eu deixei passar?" quando, na verdade, o personagem era assim porque era assim. Não deixei passar nada: Stan era um canalha, e ele queria se dar bem às custas dos outros com trabalhos em que pudesse sair por cima sem fazer muito esforço, através da adivinhação e do prestígio. 

O livro começa com um Stan de 21 anos conhecendo o selvagem, e ele já tem em mente o que quer. Ele é quem vai atrás de Zeena, e ele que a seduz. Não que Zeena seja uma inocente, não, mas são os planos de Stan que movem o livro. No filme, parece que é uma questão de acaso. É Zeena quem dá em cima de Stan. 

O maior ponto positivo para mim foi como Molly reage, de certa forma, a Stan, sem aguentar mais as tramóias que esse safado apronta. Mas, ainda sim, Molly cede no último momento, e faz a trapaça contra Grindle. Eu gostaria que o filme mostrasse que Stan foi até o final. No livro, Grindle chega a ir para cama com Molly a mando de Stan, e se por um lado eu entendo a mudança de Del Toro, por outro eu gostaria que ele tivesse deixado mais claro que Stan não moveria um músculo para salvar Molly (algo que também foi alterado no filme de 1947), mas sim para salvar seu dinheiro e conseguir fugir. 

Outra coisa que gostaria de ter visto mais eram as barbaridades que Stan fazia para que as pessoas acreditassem que ele era um médium. Stan usa muito do que aprendeu no circo, truques de eletricidade, sons, imagens desconexas, coisas interessantíssimas que eu gostaria de ver com as mãos do Del Toro, que é um cara excelente nos efeitos especiais (vide Colina Escarlate), mas tudo fica muito apressado no que precisava ser mostrado, e se demora no que não precisava. 

Leio Stan como um personagem baixo, cruel, um ser humano da pior espécie, que jamais foi vítima das circunstâncias. Ele não teve um destino trágico. Ele tem ódio das pessoas, homens e mulheres, porque ele as vê como seres imprevisíveis e ridículos. No livro, Stan viu sua mãe fazendo sexo com o amante dela, que logo a levaria embora e o deixaria sozinho com seu pai. No filme, sabemos pouco sobre a relação dessa família destruída. No filme, pouco compreendemos o que é o nightmare alley, a que o título se refere.

O nightmare alley, o beco do pesadelo, ou das ilusões perdidas, é onde Stan se encontra no final, quando retorna ao início de sua história, ele mesmo como selvagem, aquele personagem que ele conheceu quando decidiu iniciar a carreira no circo. O nightmare alley é o lugar de onde todos corremos em nossa vida, o que está prestes a nos pegar, aquilo que temos medo: pobreza, solidão, amargura, é aquele pesadelo recorrente do qual corremos sem parar tentando fugir do destino que está chegando a nós. No período pós-guerra, em um momento assustador de desolação do espírito humano, depois de tantas tragédias e tantos terrores, o beco do pesadelo se mostra ainda mais presente. Mas pouco disso é visto no filme. 

No filme, a ironia está lá. Stan ainda se encontra com seu início, mas não entendemos o peso que isso tem pro personagem. É péssimo, claro, todos odiariam ser o selvagem. Mas por que isso é tão pior para o Stan? Por que ele se encontra nesse caminho? Faltam momentos em que ele esteve com Lilith e a ligação entre eles se tornou mais forte. No livro, Grindle e Lilith se casam, completando o tormento de Stan. 

Esses detalhes, para mim, prejudicaram um pouco o filme. Sei que uma adaptação não precisa ter tudo que há no livro. Como mencionei, adoro adaptações, mesmo que elas fiquem diferentes das obras originais. Mas, nesse caso, acho que manter a essência do personagem era essencial. 

Considerações Finais


Quero deixar aqui um detalhe muito legal: todos os capítulos do livro são de cartas do tarô, começando pela carta O Louco e terminando com O Enforcado. Para quem assistiu alguma das versões sabe que é um detalhe bem importante dos filmes.

Foi uma leitura difícil de engrenar, não vou mentir. A parte inicial demorou muito pra me pegar, demorei muito pra tomar gosto pela leitura. Mas depois, assim que Stan sai do parque com a Molly, as coisas começaram a fluir melhor para mim.


O livro foi publicado em 1946, no ano seguinte à segunda guerra mundial. De acordo com Gresham, a escrita do livro se deu depois de algumas conversas com um antigo membro de um parque de variedades, enquanto ambos lutaram na Guerra Civil Espanhola. É necessário ter em mente o momento em que o livro foi escrito antes de começar a lê-lo.

Não morri de amores pela leitura, mas fiquei bastante entretida em boa parte dela. Me interessei pelo que exatamente Stan faria a seguir, e isso foi o suficiente para me levar até o final. 

Então, considero a leitura interessante para quem se interessa por essas espirais de decadência que levam um homem já não muito decente a cometer algumas atrocidades. Os filmes também são interessantes, e também acho que ambos valem a pena serem vistos, mesmo com as alterações.

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