[Crônicas Vampirescas] A Rainha dos Condenados, de Anne Rice

janeiro 26, 2022


Cheguei ao terceiro livro das Crônicas Vampirescas. Ano passado eu resolvi tirar uma parte do meu tempo para ler todos os livros que compõem as Crônicas e a história das Bruxas Mayfair, ou que façam conexões com as duas sagas. A decisão veio antes do triste e trágico falecimento da Anne Rice, e a notícia me pegou em cheio. Mas, de certa forma, me deu ainda mais ímpeto de continuar nessa viagem. Já escrevi sobre Entrevista com o Vampiro e sobre O Vampiro Lestat

Estou lendo mais ou menos um dos livros por mês, então dezembro foi a vez de A Rainha dos Condenados, terceiro livro da série As Crônicas Vampirescas. Li na antiga edição da Rocco, de 2000, com tradução de Eliana Sabino. O livro, originalmente, foi publicado em 1988. 

Sobre o livro

O livro é uma continuação direta de O Vampiro Lestat, e se inicia exatamente no ponto em que o livro anterior termina: Lestat fez o seu show, mas algo deu errado e vampiros começaram a entrar em combustão instantânea, sem que ninguém soubesse muito bem o que estava acontecendo. Descobrimos, claro, que Akasha tem algo a ver com a situação. Então, logo no início de A Rainha dos Condenados, o próprio Lestat fala com seus leitores e avisa que algo horrível aconteceu, mas que ele e alguns outros vampiros sobreviveram. Ele nos informa também que, diferente dos outros dois livros — sendo Entrevista narrado em tom de entrevista e O Vampiro sendo narrado por ele mesmo em primeira pessoa —, esse livro conta com um narrador onisciente (o Lestat, certo, mas em terceira pessoa) e intercala seus focos narrativos (temos alguns personagens novos e importantes para a trama para conhecer). 

É dividido, então, em sete partes: a introdução de Lestat; um proêmio, que conta ao leitor um pouco do que vampiros acharam do livro de Lestat e suas músicas; o caminho até o encontro com Lestat (que seria antes do show, e como essas pessoas conheciam Lestat); o momento do show, e o que acontece com alguns dos personagens mais importantes durante o acontecimento; quando Lestat é levado por Akasha, que como os sobreviventes do evento estão se organizando; o encontro dos sobreviventes com Akasha e, por fim, o pós.


Akasha, como é fácil de nos lembrarmos, é a mãe de todos os vampiros. No final de O Vampiro Lestat nós sabemos que Akasha sentiu o canto de Lestat e que vai até ele, e é ela essa força destrutiva que está acabando com todos os vampiros. Sendo a primeira vampira, descobrimos que ela detém alguns poderes sob sua prole. Em A Rainha dos Condenados nós nos aprofundamos ainda mais na mitologia que envolve os vampiros e sua criação. Até certo ponto, o que Lestat contou em seu livro anterior estava correto, mas ainda havia muito mais a ser descoberto. 

Descobrimos mais sobre o caráter de Akasha e suas ideias, sobre seu passado, sobre suas intenções. Akasha, na verdade, foi vítima de um acidente de percurso depois de acabar com a vida de duas bruxas do deserto, Maharet e Mekare, envolvendo várias vidas no processo. Contamos também com a presença de Daniel, o jovem repórter a quem Louis contou sua história no primeiro livro das Crônicas, que agora está com Armand; Khayman, que é filho da primeira geração de Akasha, o segundo a receber a maldição da própria Rainha; Jess, descendente de Maharet, que tem papel fundamental no livro aos nos apresentar melhor o que é a Talamasca (uma das minhas criações favoritas da Anne Rice). Esses personagens nos contam aos poucos, através dessa cronologia de divisão de capítulos, sobre suas histórias e a história dos próprios vampiros. 

A história (com spoilers)

Esse mosaico que se forma com cada personagem se encaixa completamente lá pela parte III do livro. Os personagens, afinal, se reúnem, tentando compreender o que pode acontecer a seguir. Desde o livro anterior nós sabemos que Akasha tem um sentimento grande por Lestat e, depois de fugir da fortaleza de Marius, ela vai até ele e o sequestra. Nenhum dos outros vampiros consegue impedir. A maioria dos vampiros, jovens ou velhos, passa a ter estranhos sonhos com duas gêmeas. É quando eles se reúnem que sabemos os motivos e descobrimos sobre a origem dos vampiros: Maharet e Mekare eram duas jovens quando seus caminhos se cruzaram com Akasha e Enkil, ainda humanos e reis do Egito. Elas conversavam com espíritos e, após Akasha dar um castigo brutal às duas irmãs (ambas foram violentadas em frente a uma plateia por Khayman), um dos espíritos resolveu se vingar, adentrando o corpo de Akasha e finalmente dando origem à sede de sangue insaciável. Akasha salva Enkil, dando poder a ele, e depois faz com que Khayman traga novamente as gêmeas até ela, para que elas façam com que isso pare. 

As jovens não tinham culpa de nada, mas são castigadas novamente: Maharet perde os olhos, e Mekare perde a língua. Antes disso, Mekare jura que irá ser pelas mãos dela que A Rainha dos Condenados seria condenada. Khayman, que tinha uma forte ligação com as gêmeas (e havia sido pai da filha de Maharet, fruto da violência), as transforma em vampiras para sobreviverem. 

Os anos se passam e Mekare desaparece quando as irmãs são separadas. Maharet segue cuidando de sua família, montando uma árvore genealógica, sempre cuidando dos seus, até Jess. As descendentes de Maharet tinham poderes extra-sensoriais, assim como Jess, que podia ver fantasmas e afins, e vai trabalhar na Talamasca — uma organização especial que cuida de projeções e visões sobrenaturais, não se envolvendo, apenas observando. Mas, em um infeliz acidente no show de Lestat, Jess tem seu crânio rompido e Maharet é forçada a transformá-la em vampira (muito poderosa, recebendo sangue diretamente de uma das primeiras gerações — quanto mais velho o vampiro, maiores são seus poderes, e quem bebe seu sangue recebe parte desses dons).

Já Armand acaba iniciando um relacionamento confuso com Daniel, que ficou fascinado por vampiros desde a entrevista com Louis. Armand faz o possível para não transformar o jornalista, mas quando ele fica a beira da morte acaba recebendo o sangue do vampiro. Eu imagino que Daniel ainda tenha um papel mais importante mais adiante, já que foi um dos únicos vampiros a sobreviverem depois dos ataques de Akasha.


No final, Akasha confronta os sobreviventes que estão reunidos com Maharet, e Mekare retorna para destruir Akasha. Os únicos vampiros que sobrevivem são os que estão nesse confronto. Mekare se torna a nova Rainha dos Condenados. 

Os vampiros de Anne Rice

Como já venho falando desde o primeiro livro das Crônicas, eu fico muito impressionada sobre o controle que Anne Rice tem de sua obra. Seus vampiros são criaturas fascinantes, até mesmo o pior deles. Nós queremos saber mais sobre eles, quem eles são. Além disso, ela usa diversas convenções sobre as histórias de vampiros e as transforma e subverte e muda radicalmente vários pontos interessantes.

Eu gosto muito da ideia de vampiros serem vampiros pela possessão de um espírito maligno antigo, que age por conta própria. Gosto dessa lenda sobrevivente, que passou por gerações e conseguiu ficar escondida, com Lestat sendo o Lestat e chamando a atenção para a espécie — afinal de contas, se formos levar em consideração o lore dos livros, muitos acreditam que o retorno dos vampiros no começo do século XIX foi culpa do próprio Lestat. 

Anne Rice construiu um mundo que se desdobra a cada página. Os pontos explorados por ela dão margem a uma série de ramificações incríveis que poderiam se tornar vários outros livros e contos. Ela construiu um mundo bastante palpável ao colocar uma série de fatos e histórias e mitos reais em seus obras. Não é, de forma alguma, exagero dizer que os vampiros hoje, que conhecemos, devem muito mais a ela do que ao próprio Drácula. Quando se trata de obras pós anos 1990, é em Anne Rice que devemos pensar quando pensamos em vampiros, e isso fica cada vez mais claro para mim. 

Fica mais claro também que cada livro que passa eu gosto mais do Lestat. Apesar de sua participação ser menor nesse livro, ele ainda é a figura central. É sobre ele que todos falam, e é sobre ele que se interessam, e é por causa dele que as coisas acontecem. 

Ao construir Akasha, também, Anne Rice teve muita consciência: Akasha é complexa, tem uma infinidade de erros, uma postura terrível diante de sua prole e, conforme os anos passam, a rainha fica cada vez pior. Mas ela é uma protagonista, não somente uma vilã. E ela é aterradora. Sua visão de destruição dos homens para segurança das mulheres e diminuição de guerras e violência — que é chocante, extremamente binária e discutida dentro do próprio livro —, sua intenção de divindade acima dos mortais, sua vontade de viver de forma diferente daquela que passou os últimos milênios... todos esses elementos transformam Akasha em uma mulher perigosa e, ao mesmo tempo, poderosa e amedrontadora. E as tensões construídas sobre essas características através dos personagens que orbitam Akasha e Lestat são fascinantes de acompanhar. 

Como sempre, foi uma leitura surpreendente. Estou ansiosa para ler o próprio volume das Crônicas. Em fevereiro devo ler A História do Ladrão de Corpos e mal posso esperar.

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Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

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