O Ano das Bruxas, de Alexis Henderson

dezembro 03, 2021


Quando terminei Nossa Parte da Noite fiquei um pouco preocupada de que poderia me afundar em algum tipo de ressaca literária e não conseguir ler mais nada durante meses — e mesmo assim fiz um calendário muito otimista de leituras para o blog. Mas, não foi o que aconteceu. Assim que terminei de ler Nossa Parte da Noite eu estava tão empolgada para ler O Ano das Bruxas que comecei direto, e logo terminei de lê-lo.

Sobre o livro

Primeiro livro de Alexis Henderson, O Ano das Bruxas foi lançado recentemente pela DarkSide Books, com tradução de Dandara Palankof. No livro, Immanuelle é uma jovem que sempre viveu na cidadela de Betel, um lugar em que tudo acontece com a permissão do Profeta e sob os comandos das Escrituras Sagradas. 

Betel é um local com uma história bastante pitoresca: de acordo com o que se conta, o primeiro Profeta, David Ford, havia banido as quatro primeiras bruxas, Lilith, Delilah, Jael e Mercy para a Mata Sombria, uma floresta que percorre toda a extensão da cidade e abriga terrores inimagináveis — ninguém que entre lá de noite retorna sã e salvo para casa. As Quatro Profanas, como eram chamadas, estavam a serviço da Mãe das Trevas, a Deusa dos infernos. De acordo com as escrituras de Betel, "Enquanto o Bom Pai tinha forjado o mundo com luz e chamas, soprando a vida no pó, a Mãe invocara Seus males das sombras, parindo legiões de feras e demônios, criaturas deformadas e seres rastejantes à espreita no supurado meio-mundo entre o mundo dos vivos e dos mortos".

Em Betel, as pessoas estão divididas entre as Clareiras e as Cercanias. De acordo com as descrições no livro, essas separações vão além de classe social: as pessoas que moram nas Clareiras são brancas, e as que moram nas Cercanias são negras. Além disso, em Betel, os homens se casam com várias esposas. O Profeta, por exemplo, escolhe quantas Noivas quiser, e as Noivas do Profeta têm algumas regalias: acomodações, castigos menores caso façam algo considerado pecado, etc. O Profeta também tem seus Apóstolos, que recebem um local de destaque na sociedade. Além disso, mulheres consideradas bruxas são atiradas ao fogo — no estilo inquisitorial que conhecemos bem.


Immanuelle vive com um estigma. Ela é filha de Miriam, uma mulher de Betel, filha de um Apóstolo do Profeta, Abram, e de uma mulher com um dom, a Parteira das Clareiras, Martha. Mas Miriam, que estava prometida ao Profeta, se apaixonou por um homem das Cercanias, Daniel Ward. Daniel foi condenado à pira, enquanto Miriam foi enviada ao Retiro, viver com o Profeta, e tentou assassiná-lo, partindo para viver na Mata Sombria. Lá, ela viveu por meses, até aparecer na porta da casa de sua família pedindo ajuda para conceber sua filha. Após a tentativa de assassinato do Profeta e da morte de Miriam, Abram perdeu seu poder como Apóstolo, fazendo com que a família decaísse na classe social. 

É nessa sociedade que Immanuelle passa a se desenvolver e a sofrer calada a maioria dos olhares de escárnio de todas a sua volta. Para as Clareiras, Immanuelle é uma jovem amaldiçoada. Sua "condição" como filha de uma possível bruxa que desgraçou a família a fez sofrer por anos. Mas, Immanuelle passa por uma série de situações que a mudam em seu íntimo, fazendo questionar tudo que aprendeu até então: sua melhor amiga é escolhida como Noiva do Profeta, ela finalmente tem sua primeira menstruação, e várias maldições caem sob a cidade após a jovem ouvir o chamado da Mata Sombria. 

A partir disso, Immanuelle terá que fazer o possível para salvar a si mesma e aos seus amigos das maldições que estão no horizonte de Betel.

Com spoilers

Immanuelle se sente presa às Escrituras Sagradas tendo sido criada dentro desses ideais, mas não se sente pertencente. Sempre tratada com desgosto, com olhares tortos, Immanuelle é uma jovem que teve muitas responsabilidades deixadas em seus ombros: por causa de sua mãe a família caiu em desgraça, por causa de sua mãe todos olham com desdém para a família. Quando as maldições recaem em Betel, Immanuelle tem certeza que é por sua culpa. 

E, na verdade, ela está correta. Sua mãe realmente atrelou uma maldição em seu nascimento, capaz de destruir Betel — mas um pouco diferente do que Immanuelle concebe de início. Entretanto, é graças a essa maldição que Immanuelle começa a perceber as hipocrisias de Betel. O Profeta é um homem que carrega vários pecados, tendo se deitado com uma jovem, a amiga de Immanuelle, antes mesmo que ela tivesse idade para isso. Sua forma de conduzir a sociedade de Betel é um erro. Immanuelle não quer que a cidade seja destruída, porque acredita que ainda tenham pessoas boas morando ali, mas não consegue parar de pensar que todos estão errados em apoiar essa forma de governo. Para ela, o correto não é que todos morram — muito menos que o Profeta morra —, ela quer que as coisas sejam justas. 

"Esta era a grande vergonha de Betel: complacência e cumplicidade responsáveis pelas mortes de gerações de garotas. Era a doença que dava primazia ao orgulho dos homens em vez dos inocentes que haviam jurado proteger. Era a estrutura que explorava os mais fracos em benefício daqueles nascidos para o poder."

Mesmo tendo crescido com todos os horrores que suportou, Immanuelle chega ao grande confronto não querendo vingança. Ela busca uma sociedade mais justa para ela, para os seus, para os inocentes. Ela procura, acima de tudo, vencer as maldições, encerrar de uma vez por toda o domínio das Quatro Profanas na cidade, à espreita. Mas também quer encerrar de uma vez a ideia de sociedade regida por um Profeta criminoso. 

O que achei

O Ano das Bruxas é uma leitura muito interessante. Em uma mistura de fantasia e horror, Alexis Henderson nos narra uma história de poder, hipocrisia e tirania, com uma personagem protagonista heroica que não queria lá o papel que foi designado a ela. Immanuelle quer salvar a todos, mas não era o papel que ela teria escolhido para si mesma. Só que, vendo que não tinha outra escolha, acabou aceitando e fazendo o melhor que podia com o que tinha em mãos. 

Além de Immanuelle, outras personagens me chamaram muito a atenção. A própria Miriam é uma personagem muito interessante, que eu gostaria de ter lido mais sobre ela. A outra avó de Immanuelle, por parte de pai, Vera Ward, que recebeu o selo de bruxa e fugiu de Betel antes de ser pega, é outra que eu adoraria saber mais da história. Ezra, jovem que se torna amigo de Immanuelle e é filho do Profeta, tem um papel importante na trama, mas não rouba o protagonismo de Immanuelle, algo que achei muito bom.


A construção de Betel também é intrigante, e muitas vezes temos um lampejo de reconhecimento. Uma sociedade pautada em regras desleais em que muitas das normas de condutas são retiradas de um livro antigo? Uma reconstrução histórica que nem sempre bate com a realidade? Fanatismo religioso? Tem tudo isso no livro. E nem podemos dizer que Henderson utiliza da licença poética — não dá para dizer que existe um real exagero ali. Às vezes, a realidade pode ser bem pior que a ficção. 

O livro acaba sendo alegórico e metafórico em diversos momentos, mas sabemos bem do que Henderson está falando. Gostei muito das escolhas da autora, apesar de me pegar várias vezes torcendo para que a Immanuelle só arrebentasse com a boca do balão. Mas é compreensível o caminho que Henderson tomou ao contar a história de Immanuelle, e eu até queria uma continuação quando o livro acabou.

Foi uma experiência muito proveitosa, e gostei muito da leitura. Recomendo muito para quem gosta de histórias de bruxaria, com protagonistas interessantes e diversos antagonistas espalhados pelas páginas.

* O livro foi recebido como cortesia da Editora DarkSide Books. 

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