Vita Nostra Brevis Est: Vita Nostra, de Marina e Sergey Dyachenko


Nunca me incomodei de ler a mesma história contada várias vezes, desde que seja por pessoas diferentes. Romeu e Julieta ou Macbeth dificilmente seriam os mesmo se Stephen King ou Octavia Butler os escrevessem. O que me interessa, quando uma história é contada mais de uma vez, são os elementos que os autores novos trazem. O que eles fizeram de diferente aqui?

E isso se liga em outro ponto: o final, muitas vezes, nem é minha maior expectativa em um livro. A jornada é muito mais importante para mim, como já comentei anteriormente. Mas, às vezes, um livro traz tantos detalhes inusitados, tantos momentos inéditos para mim, que eu preciso chegar logo ao final: eu preciso vê-lo. Eu preciso compreender o que está acontecendo. O que esses personagens farão a seguir? O que pode alterar os rumos dessa história?

Meio que me senti assim com Vita Nostra, em ambos os casos. 

Abaixo, fiz uma resenha com três blocos: sobre o livro, com spoilers e de pensamentos gerais. Se você não leu o livro e quer ler a resenha mesmo assim, pule os spoilers e vá direto ao final. :)

Sobre o livro

Vita Nostra foi escrito por Marina e Sergey Dyachenko, casal de autores ucranianos que escreveram mais de 70 obras juntos, e foi traduzido por Heci Regina Candiani. Foi lançado em 2007 na Rússia, e publicado aqui no Brasil este ano pela Editora Morro Branco.

No livro, Alexandra Samokhina, Sasha, viajava tranquilamente nas férias de verão com sua mãe. As coisas pareciam bem, apesar do pouco espaço e do pouco dinheiro. Até que Sasha foi abordada por um homem estranho, de óculos escuros, que pediu para que ela realizasse uma missão todos os dias: acordasse de madrugada, nadasse nua até a boia da praia, e retornasse. O homem prometeu nunca pedir nada impossível à jovem. Entretanto, no único dia que Sasha se atrasou, um acidente com um conhecido fez Sasha passar a temer por sua vida e a de seus familiares: deu-se a entender que a culpa foi do homem misterioso.

Ao concluir essa primeira tarefa e retornar para casa, Sasha pensou estar livre das missões, mas se enganou. No novo encontro com o homem, que depois descobrimos se chamar Farit, ela deveria correr às 5h da manhã todos os dias, menos quando estivesse menstruada. Sasha o fez, temendo sempre que o episódio da praia pudesse se repetir — ainda pior que antes.


Ao final dessas missões, Sasha é aceita em uma Universidade (que não tinha se inscrito), chamada Instituto de Tecnologias Especiais, em Torpa, e se muda para lá — meio a contragosto de sua mãe e seu novo padrasto. Até mesmo a jovem se preocupa com a situação e o que encontraria a seguir. 

Com o passar do tempo, Sasha descobre que o Instituto é um lugar muito mais sinistro e estranho do que ela havia imaginado de princípio. Entre tramas assustadoras e matérias que Sasha não compreende por completo (e nem nós), acompanhamos sua jornada e a história que se desenvolve a partir daí.

A minha leitura de Vita Nostra fluiu de forma mágica, mais ou menos como a sequência de acontecimentos da vida de Sasha — apesar que, devo dizer, bem menos aterrorizante para mim do que para ela. Eu me senti obrigada a continuar até compreender a história, e preciso dizer que ainda agora não tenho certeza se digeri o livro o suficiente.  

Com spoilers

Sasha, aos poucos, descobre o que é o Instituto — mesmo que seja uma descoberta meio nebulosa. Faz amigos e desafetos, encontra o que seria seu grande amor — mas acaba deixando ele escapar por aí. Descobre, também, o peso que as palavras têm. Ao longo do livro, descobrimos que o Instituto é mesmo pessoal, e procura por pessoas tão especiais quanto eles.

Na realidade de Vita Nostra — e, se levarmos a existência a um sentido poético — as pessoas são palavras. Algumas são verbos, outras pronomes, outras substantivos. Todos são palavras. E cabe aos professores do Instituto guiarem as descobertas de seus alunos, até que eles deixem a concepção de que são somente humanos para trás e se tornem conceitos, descubram dimensões e mundos novos.

Sasha é a melhor aluna da sala, mas sua mente é muito mais complexa do que isso. Ela é, por um lado, um tipo de A Escolhida, como as grandes jornadas de heróis e heroínas por aí, mas suas falhas e tropeços fazem com que ela se revele um problema muito maior para seus professores. Até mesmo seu final demonstra que é Sasha quem está no controle — que sempre quis estar e que nunca ligou para as regras, independentemente de qual chamado ela receba. Aliás, é através dos vários chamados que recebe — todos, menos os do Instituto —, que ela entra nas mais várias complicações em sua vida acadêmica.

Rebelde, destemida, indomável e absoluta, Sasha é mesmo imperativa — ou, ao que se acreditava, um verbo imperativo —: ela inicia sua jornada com medo, mas se recusa a ceder a ele mesmo no momento de maior assombro, que a consumiu durante todos os dias em que esteve no Instituto. Ao recusar completar o seu Teste de Nivelamento, um dos grandes desafios para os alunos, Sasha demonstra que sua compreensão é muito maior do que todos achavam que seria. Ela detém seu destino, e não se importa que todos tenham planos grandiosos para ela. 

Por várias vezes eu tive vontade de chacoalhar Sasha e conversar com ela, uma conversa sincera mesmo, daquelas que a gente tem com nossas amigas. Sasha, afinal, se tornou uma personagem que acompanhei com os olhos vidrados: seu desenvolvimento, seus passos. Eu faria tudo diferente, mas é aí que eu encontrei algo que queria muito: ela é extremamente ela mesma, e eu fico feliz que ela não tenha tomado os caminhos que eu imaginei que eu tomaria, ou que a aconselharia a tomar. 

Atualmente, percebo que muitas pessoas criticam personagens a partir de suas falhas propositais, mas gosto das falhas da Sasha. A imprevisibilidade, as explosões, a impossibilidade. No final, descobrimos que Sasha não é somente um verbo imperativo: ela é uma palavra-chave; e, pelo que pude entender do final do livro, ela poderia transformar para sempre o significado de sua palavra-chave.

Sasha se tornou uma figura excêntrica de se acompanhar, mas fiquei extremamente feliz com todos os níveis de desenvolvimento dessa leitura. Por mais estranhos e tortuosos que os caminhos de Vita Nostra, Sasha, o Instituto, Farit e Torpa sejam, foram caminhos que eu gostei muito de seguir, conhecer, desbravar. 

Meus sentimentos gerais

 Eu comecei a ler o livro sem saber muito o que esperar. Sabia que tinha uma escola, sabia que tinha uma protagonista, e sabia que muitas pessoas tinham achado o livro uma loucura. Recomendo a leitura também dos textos das amigas Sybylla e Michelle, que foram importantíssimas na minha escolha de ler esse título agora, e não deixar para depois — meus planos, na verdade, eram outros; mas eu queria ver com meus próprios olhos.


Tendo acabado de sair de O Vampiro Lestat, que foi um livro denso e difícil de ler (mesmo que ambos só tenham umas 40 págjnas de diferença em tamanho), esse fluiu de forma extraordinária. Uma leitura muito ágil, agitada, surpreendente. Sonhei umas duas vezes com a leitura. Fiquei inquieta até que conseguisse terminar de lê-lo — e se demorei duas semanas para ler O Vampiro Lestat, esse demorei apenas quatro dias; não que um seja melhor que outro, mas a densidade e a fluidez do texto ajudaram muito. 

Alguns acontecimentos me deixaram um pouco esquisita, e entrei em contradição comigo mesma. Escolhas dos autores no que diz respeito a forma como eles lidaram com certas questões me incomodaram um pouco, mas ao mesmo tempo eu não sei dizer até onde foi incomodo e eu só não queria que acontecesse daquela forma. Mas, ainda sim, eu compreendo essas escolhas, e não foi nada que tenha me feito desgostar do livro.

Vita Nostra é um livro estranho, complexo, fascinante e que gera uma leve obsessão. Independente do resultado final que você tenha com ele, ele vai te consumir por todos os minutos que for sua companhia. É uma leitura que recomendo fortemente caso você goste de histórias com a personagem escolhida, livros que se passem em escolas, ou se você estiver procurando uma leitura excêntrica.

* O livro foi recebido como cortesia da Editora Morro Branco

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

4 comentários:

  1. Esse livro deixa a gente muito abablublé das ideias, não é? Eu ainda não sei exatamente o que foi que eu li! 😄

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    1. Então??? Eu adorei, fiquei completamente coisada. Chegou um momento que eu nem conseguia parar de ler hahahaha

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  2. Eu surtei com Vita Nostra e fiquei sedenta por mais. Mais de tudo, de todos. Uma coisa que me deixou muito pensativa é o pedido de Farit para Lisa, me incomodou muito e fiquei esperando um momento em que se explicasse porque, porque, porque????? E esse momento nunca chegou. Quero saber sobre os outros livros, parece que foi lançado um que é continuação da história da Sasha. Eu li mais de quinhentos páginas, mas parece que só arranhei a superfície desse universo. Terminei pensando, agora não, preciso de mais 😅😅😅

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    1. Eu li por aí que era pra ser uma trilogia, né? Mas não tenho certeza, e não sabia que tinha lançado outro já.

      Esse rolê da Lisa foi um que eu fiquei muito reflexiva. O principal do personagem do Farit é que ele tem uma ética e uma moral complexas, né, e ele sempre diz que "não vai pedir o impossível". Eu também esperava que falassem melhor sobre isso.

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