Como um coração exausto: Nossa Parte da Noite, de Mariana Enriquez


Mariana Enriquez foi meu primeiro contato com a literatura contemporânea da América Latina. Lembro do furor causado quando As Coisas que Perdemos no Fogo foi lançado aqui, em 2017. Acabei lendo só no ano seguinte, e desde então fiquei mais atenta a esses lançamentos — foi um período muito importante pra mim, quando estava começando a compreender que tipo de terror eu estava buscando, que tipos de leituras eu queria fazer, e descobrindo um enorme e vasto campo onde a literatura escrita por mulheres é extremamente fértil: o insólito.

Nascida na Argentina, Enriquez já teve três livros publicados no Brasil: As Coisas que Perdemos no Fogo, Este é o Mar e, recentemente, Nossa Parte da Noite. De todos, o que parece chamar menos a atenção do público é Este é o Mar, e apesar de querer que ele fosse mais longo, é um livro que gosto muito, também. Mas depois da experiência que foi ler Nossa Parte da Noite, talvez eu pegue os outros dois para reler — infelizmente minha leitura em espanhol não funciona de forma alguma, então vou me contentar com o que temos em português (e, caso não apareçam mais traduções por um tempo, quem sabe, mais adiante, em inglês).

É um livro denso e com muitas informações então, caso você não tenha lido e não queira saber o que acontece em detalhes, pule o subtítulo "com spoilers" e siga adiante.

Sobre o livro

Nossa Parte da Noite, de Mariana Enriquez, foi publicado no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de Elisa Menezes. No livro, conhecemos uma série de personagens complexos, que possuem um tipo de atração estranha, uma fascinação que você simplesmente não consegue desviar os olhos, por maiores que sejam suas falhas — e eles têm muitas, e isso torna tudo ainda mais fascinante.

Começamos o livro conhecendo Juan e seu filho Gaspar, que estão viajando de carro pela Argentina durante a Ditadura no país, nos anos 1970. A esposa de Juan, Rosario, faleceu há pouco tempo em um acidente com um ônibus, e Juan sente na pele os desafios de continuar vivendo sem a mulher. Além de tudo, Juan carrega algo obscuro e aterrorizante consigo, além de estar muito doente. Durante essa viagem, eles fazem o possível para não chamar a atenção dos militares nas estradas, tentando chegar a casa de seu sogro. Rosario era de uma família muito rica (e exploradora) que cultivava mate. 

O grande detalhe da vida de Juan, Rosario, Gaspar e todos os personagens do livro, é que há uma grande seita de ocultismo que rege suas vidas, que cultuam a Escuridão, chamada A Ordem. Rosario é filha de uma das famílias mais importantes da seita, Juan é o médium atual e seus poderes são imenso, e o filho deles tem um futuro planejado pela organização.

"(...) e ele disse você tem algo meu, deixei algo meu em você, espero que não seja amaldiçoado, não sei se posso te deixar algo que não esteja sujo, que não seja escuro, nossa parte da noite."

O livro é separado em seis partes, divididas a partir de períodos distintos e embaralhados, e cada uma delas acompanha principalmente um personagem. Os capítulos de Juan e Gaspar que, vez ou outra, contam com outro ponto de vista, são a partir de uma narrativa em terceira pessoa onisciente; já os outros capítulos (de Rosario, Dr. Bradford, que encontrou e operou Juan, e de uma jornalista chamada Olga), são relatos em primeira pessoa. Aos poucos nós vamos recebendo pistas sobre o que está acontecendo na história, até formarmos um mural completo com todos os detalhes. Às vezes, algo mencionado rapidamente em um dos capítulos, será explicado ao longo do capítulo seguinte ou próximo. Esses detalhes são importantes e, no final, o quadro está completo e é arrasador.


Com spoilers

Esse pequeno resumo é só a primeira ponta de um iceberg imenso e cruel que se desenvolve de maneira incrível com a escrita potente e poética de Mariana Enriquez. Juan, o médium, após a morte de Rosario, se torna cada vez mais cansado, mais sombrio. Rosario era como uma âncora para ele. E isso pode soar romântico para alguns, mas no capítulo de Rosario percebemos como esse relacionamento era custoso a ela, como eles se amavam, mas as coisas não eram, de forma alguma, um mar de rosas. Juan, desde o início, tem um temperamento explosivo que só piora com o tempo. No capítulo de Gaspar descobrimos como o homem é irascível com o filho, com episódios fortes de violência contra o garoto. Mais adiante compreendemos a força que Juan teve que ter para manter Gaspar seguro, mas os episódios de raiva e descontrole tornam a relação de Juan com todos a sua volta extremamente agridoce. O que, de certa forma, é compreensível. Juan foi vendido a uma família rica para que utilizassem seu corpo como médium para a Ordem, mas ele teve poucas escolhas — uma das coisas mais impressionantes do livro é a dificuldade de odiar ou amar completamente seus personagens.

Gaspar, por sua vez, teme ter que abandonar o pai. Desde que se conhece por gente, Gaspar sabe que seu pai está muito doente, mas não entende exatamente o motivo. Isso porque ao perceber que Gaspar possui alguns de seus dons, Juan fez o que pode para escondê-lo da Ordem. Não queria que o filho tivesse o mesmo destino do pai. Ao longo do livro, percebemos que Juan foi o primeiro a proteger Gaspar contra os desígnios da Ordem, inclusive quando a própria mãe do garoto teve dúvidas. O relacionamento entre os dois é, afinal de contas, uma coisa tortuosa e distorcida, como um espelho quebrado.

"O monstro está sempre à espreita no labirinto, e aquele que nele ingressa sabe que, se não está na primeira curva, estará na seguinte. Alguns sabem como esticar um fio e escapar. Quem chega longe demais, chega sabendo o preço."

A Ordem acaba sendo outro personagem nessa narrativa complexa. Eles cultuam um tipo de deus sombrio, da Escuridão, e o sofrimento é uma das formas de chamarem essa entidade — apesar de haverem discordâncias dentro da própria Ordem: alguns membros acreditam que essas técnicas de provocar sofrimento a outras pessoas, gera somente um falso deus. Me lembrou muito a busca aterrorizante de Mártires, o filme de 2008 do Pascal Laugier. Nessa tentativa de gerar sofrimento, a Ordem sequestrava crianças e as mantinha em cativeiro, além de utilizar sequestrados políticos do período da Ditadura para darem de alimento à Escuridão. 

Outros personagens interessantes são Tali, meia irmã de Rosario, que eu gostaria de ter visto mais; Stephen, amante de Juan e primo de Rosario, a quem conhecemos melhor no capítulo dela própria; os amigos de Gaspar: Vicky, Pablo e Adela, a quem a Escuridão também tocou — a Escuridão mutila a todos que toca. O livro tem uma gama muito fascinante de personagens e personalidades, ligações que vão se completando conforme os capítulos vão passando. Personagens que conhecemos no primeiro capítulo, como o fotógrafo Andrés, retorna no último capítulos, completando as peças do quebra-cabeças que é Nossa Parte da Noite.

Contexto

A Argentina sofreu com seis golpes de estado ao longo do século XX. Nossa Parte da Noite se passa durante o último deles, de 1976, que aconteceu em 24 de março e se manteve até dezembro de 1983. O golpe derrubou Isabel Perón, a 39.º Presidente da Argentina de 1974 a 1976, primeira mulher no cargo e terceira esposa de Juan Domingo Perón, de quem foi vice-presidente em seu período como presidente do país. 

Perseguições e terrores que conhecemos bem em ditaduras tomaram conta do país naqueles anos. A junta militar instaurou estado de sítio e lei marcial logo no primeiro dia, e diversos foram os sindicalistas, trabalhadores e estudantes presos. Com o tempo, pessoas passaram a desaparecer — ativistas dos direitos humanos acreditam que cerca de 30 mil pessoas foram sequestradas. O regime ditatorial do período ficou conhecido como Guerra Suja

Assim como na ditadura brasileira, muitos são os jovens, filhos, pais, parentes, que não foram identificados. Um dos movimentos que surgiu da revolta dessa falta de justiça por tantos desaparecidos é a Mães da Praça de Maio, associação argentina de mães que tiveram seus filhos assassinados ou desaparecidos durante o terrorismo de Estado da ditadura militar. Em 1977 a Mães da Praça de Maio começaram a fazer passeatas para notícias de seus filhos em frente a Casa Rosada, em Buenos Aires. 

Mariana Enriquez utiliza o contexto político da Argentina nos anos 1970 e 1980 e o incorpora em sua narrativa, de forma bastante consciente e interessante. Ao colocar alguns dos desaparecidos como vítimas dos militares e entregues à Ordem, ela expõe uma aliança entre a elite e o governo do período, de forma bastante clara, inclusive na própria permissividade dos membros das famílias em contato com o Regime. Aqueles que iam contra, seja com a Ordem ou com o Regime Ditatorial, sofriam um destino horrendo. 

Outros contextos que estão inseridos no livro são os anos 1960 em Londres e os vários casos de aids que se espalharam entre a comunidade homossexual nos anos 1980, além dos vários protestos estudantis do período. Os anos 1960 são abordados no capítulo de Rosario, que passou um período estudando na Inglaterra, e traz um panorama muito interessante sobre o interesse no místico e o uso de substâncias, os conhecimentos secretos, o despertar do interesse pelo obscuro. E, a questão da aids é retratada no último capítulo, com o Gaspar e seus amigos já crescidos. Foram contextualizações interessantes, uma forma muito clara de ambientação que funcionou perfeitamente para o livro.

O que achei do livro

Há uma potência no horror social, quando este se une às histórias reais, que eu acho magnífica. Falei um pouco sobre a consciência social em obras como Casamento Sangrento e Satanic Panic no texto "Destrua os Ricos e o Patriarcado", e se aplica muito bem em Nossa Parte da Noite: A Ordem, todos os seus membros, e o regime ditatorial do período em que o livro se passa, são mantenedores de uma posição social privilegiada. A Ordem entra em contato com a Escuridão principalmente para manter seu status social, para continuar a enriquecer, para continuar a serem famílias poderosas e ricas. "Herdeiros milionários", como Stephen os chama, algo que a própria Rosario aproveita muito bem, mesmo que com críticas, e que não quer perder essa posição. O Regime Ditatorial do período perseguia continuamente sindicalistas e jovens que se revoltavam contra a situação, e em grande parte minorias sociais.


Em determinado momento, Stephen explica para Rosario que, para ele, os médiuns aparecem no olho do furacão de períodos sombrios. O sofrimento do qual a Escuridão se alimenta vem principalmente dessas pessoas. Juan surge de uma família pobre, no regime da ditadura anterior ao que está em percurso durante os acontecimentos do livro. E é Juan que quer dar um basta nisso: por tudo que perdeu, e por tudo que poderia ainda perder. 

Gostei muito de todos os detalhes e referências que Enriquez usa. Gaspar, por exemplo, lê Drácula em determinado momento, e a frase "the dead travel fast" permanece com ele durante muitos anos. David Bowie é citado algumas vezes, como um conhecido de Rosario. Christopher Lee e Vincent Price também são citados. Vários nomes de poetas e lugares e detalhes. Além, claro, de toda a ambientação que citei acima. Tudo isso torna tudo muito interessante, muito próximo, são elementos e contextos que conhecemos.

As partes que tratam do ocultismo e dos rituais também ficaram ótimos, e se conectam perfeitamente ao resto da história. São citados vários tipos de ocultismo e feitiçaria, principalmente as típicas da América Latina, como a brujeria e o São Morte. Também são citados elementos e práticas de outros locais, como a Mão da Glória, um objeto mágico já bastante conhecido — a mão de um enforcado, que garante proteção e sorte para quem a tem —, além dos vários outros detalhes que são descritos, por exemplo, no capítulo de Rosario, em Londres.

Nossa Parte da Noite é um livro desconfortável, e é para ser assim. Fala de passagens reais e situações que aconteceram, mas utiliza de metáforas e figuras para nos contar algo que acontece nas sombras, um abuso de poder dentro de famílias, abuso entre classes, e o medo age de diversas formas ao longo da narrativa de Enriquez. Senti raiva, tristeza, compaixão e dor por muitos dos personagens, ao mesmo tempo que não concordava com muitas de suas ações. 

Não foi um livro fácil, mas é um livro excelente. É uma leitura fascinante, uma aula de causar terror, em seus mais variados sentidos e de suas mais diferentes formas, em um único parágrafo. A escrita de Mariana Enriquez é arrebatadora, e Nossa Parte da Noite te prende e te destrói um pouco em cada página. 

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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