Noite Polar, de Michelle Paver


Mesmo pesquisando toda semana sobre autoras de terror, alguns nomes ainda aparecem de repente em listas que não tinha vasculhado ainda. O que costumo fazer é pegar uma dessas listas, jogar o nome da autora na amazon ou no google, e descobrir se há algo dela traduzido. Eu faço isso como hobby, me diverte conhecer mais autoras, saber o que mais tem sido feito e, às vezes, passa despercebido por nós.

Dito isso, em uma dessas andanças, encontrei uma autora de livros infantis e infanto-juvenis chamada Michelle Paver. Ela teve alguns de seus livros traduzidos para o Brasil e, entre eles, estava Noite Polar (com tradução de Ryta Vinagre), que vinha acompanhado do subtítulo "uma história de fantasmas". O livro foi publicado originalmente em 2010 na Grã-Bretanha e em 2012 aqui no Brasil, pela Rocco Digital, um selo com publicações unicamente em ebooks. Achei interessante e resolvi dar uma chance. Como comentei em textos anteriores, tenho lido bastante antes de dormir — o que tem sido excelente pro meu sono. 

A história acompanha um grupo de estudantes que parte em uma expedição para pesquisa meteorológica no Ártico. Escrito em primeira pessoa, através do diário de um desses jovens, o lugar escolhido é chamado Gruhuken (lugar fictício), em Spitsbergen (lugar real). Lá, a ideia é que eles montem um casebre e passem um ano, com as noites sem raiar do Sol comuns no Ártico e aquele frio aterrorizante e opressor.


Quem escreve o diário é Jack, um jovem com uma classe social mais baixa que o restante de seus colegas. Conseguiu o emprego e queria sumir da Inglaterra, acreditando que o Ártico seria um bom lugar para se esconder de seu passado. Jack é um cara sem muita perspectiva, sem muitos anseios, e acredita que tudo está perdido para ele. Seu diário é amargurado e triste, e é compreensível. Jack parece não gostar muito de ninguém da expedição, com exceção de Gus, o líder, por quem desenvolve respeito, carinho e, mais adiante, amor. Jack está ansioso para ter algo para si, e acredita que a expedição é sua chance.

Mas há algo de perturbador em Gruhuken, do qual ninguém quer falar abertamente. Após uma série de acidentes, Jack acaba ficando sozinho no acampamento da expedição, e permanece lá para provar que é confiável e que pode levar adiante esse projeto. 

O frio, a falta de Sol, o medo e a ansiedade fazem com que Jack comece a ficar desesperado. Nada aplaca seu terror, e, unido a tudo isso, Jack também percebe uma presença estranha rondando o acampamento. Isso o leva a uma espiral de paranoia que, bem, tem grandes chances de dar tudo errado.


O livro é interessante. O formato de diário ajuda a manter capítulos curtos, o que eu sempre considero uma coisa boa. Jack não é um dos protagonistas mais amáveis dos livros que já li, mas a curiosidade em descobrir o que está havendo e qual a história de Gruhuken superam qualquer sentimento de aversão a ele — que, na verdade, é só um cara complicado, e nem merece essa birra que me pegou. E, consequentemente, vamos acompanhando Jack amadurecer conforme se sente mais sozinho, ao mesmo tempo que o acompanhamos ficar cada vez mais paranoico também. 

Foi uma leitura gostosa. O livro não é comprido, o mistério é bem conduzido, tem um ótimo final que, mesmo que não dê todas as respostas, ajuda a nos manter interessados pela história por um tempo. Paver conduziu a narrativa de forma muito honesta e entregou uma história de fantasmas de arrepiar. Recomendo para quem não se importa com algumas pontas soltas e principalmente para quem tem interesse em histórias de pessoas em situação de isolamento.

Compre o livro:




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Acabei de ler nesse instante por indicação sua. Amei! Estranhíssimo que passei boa parte do livro achando que tava lendo algo antigo, escrito ali pelas épocas em que se passa mesmo, anos 40-50. Fiquei surpresa quando vi que era de 2010. Tive exatamente a mesma impressão que você a respeito de Jack, um cara insuportável que depois você fica mais no "ô, migo... se apruma" hahah E doido como o livro é muito construído na ação viril, máscula, tóxica, desde a motivação de Jack pra ir na expedição, ficar sozinho em Gruhuken, nas impressões dele sobre Artie, até na história do fantasma, a "permissão" violenta, tudo muito girando ali no campo da virilidade. Inclusive achei que deixou ainda mais interessante o amadurecimento de Jack e a forma como o fantasma era encarado por todo mundo da região, uma espécie de vergonha e culpa, para além do medo. Pode ser uma interpretação viajosa também, mas gostei demais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não achei viajosa, eu adorei e achei que é super isso mesmo! É um livro que parece que muda de tom, conforme a gente lê e descobre mais, né? Chegamos no epílogo e ficamos com o coração na mão com o que rolou com o Jack. Eu achei demais. E fico extremamente feliz que tenha lido por indicação minha <3 e ainda mais feliz que tenha gostado! É um livro bem interessante mesmo.

      Excluir

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram