Filme Noturno, de Marisha Pessl


Eu tinha acabado de me curar de uma ressaca literária com mais um livro de Agatha Christie quando resolve me empenhar na leitura de Filme Noturno, da Marisha Pessl, com tradução de Alexandre Martins. Começou como uma brincadeira do tipo "ah, eu não estou conseguindo ler nada, vou me aventurar nesse livro de 800 páginas". Quando percebi, já estava de cabeça na história, me apegando a personagens, completamente fascinada e curiosa para onde Pessl e seu grupo, guiado por Steve McGrath, estariam me levando.

Em Filme Noturno, Scott McGrath é um jornalista que caiu em desgraça após tentar revelar os segredos de um famoso diretor de filmes de terror e suspense chamado Stanislas Cordova, que vive isolado e do qual ninguém poderia nem reconhecer o rosto — os que o viram e trabalharam com ele, não falam sobre o assunto. Após seguir uma pista falsa, anos antes, McGrath acabou fazendo acusações contra o homem que não tinha como provar. Depois de perder alguns empregos e sofrer um afastamento terrível de sua família, McGrath é avisado da morte da filha de Cordova, Ashley, que tinha 24 anos e supostamente cometeu suicídio. É aí que ele começa novamente a investigar Cordova — e Ashley — com a ajuda do misterioso Hopper e da excêntrica Nora. 

Eu preciso começar admitindo que comprei esse livro por acaso. Vi a Ana, do Literatura Policial, anunciando em uma dessas promoções que a amazon costuma fazer, e me interessei pela sinopse: um diretor de filmes de terror, um jornalista, mistérios e muita tramoia, é o tipo de coisa que me faria feliz de ler. 

O universo criado por Pessl é incrível. Ela mescla nomes de pessoas e obras reais e fictícias, o que ainda aumenta a percepção de que vivemos no mesmo universo de Scott, de quem em algum lugar de Manhattan há um jornalista procurando um diretor de filmes de terror recluso e assustador. Parece que poderemos trombar a qualquer momento com algum dos filmes proibidos de Cordova, ou com alguma matéria de Scott.


Scott é o típico jornalista clássico: chegou em um ponto de sua vida em que perseguir aquela matéria é mais importante que todo o resto. Sua esposa o abandonou, sua filha é um pouco distante, trabalha sozinho, evita ajudantes, e se ressente pelo passado todos os dias, após seguir uma pista falsa, criada para que ele não importunasse Cordova. Scott, sozinho, não é dos personagens mais carismáticos. Nos primeiros capítulos você pode até se questionar sobre a escolha de Pessl de narrar toda a história em primeira pessoa tendo Scott como narrador. Mas, ao longo dos capítulos, descobrimos que não havia outra forma de se contar essa história. Scott é seu protagonista, é para ele que essa história é importante e é ele quem sofrerá as maiores mudanças ao longo de sua narrativa.

Cordova é uma criatura instigante. Ele paira sobre o romance durante todas as páginas, é a ele quem Scott busca. Ashley foi só um atalho. Scott quer conhecer mais sobre Cordova, descobrir o que há de errado com o homem, ou com a entidade, o que causa tanta repulsa e fascínio em seus fãs, os Cordovitas. 

"Quão esquiva era, como mudava de forma, parecendo ser composta de tantas criaturas antagônicas quanto sua tatuagem. Cabeça de dragão, corpo de cervo. Tendências de feiticeira."
Apesar de Ashley ser um tipo de atalho para Scott, ela não deixa de ser uma personagem importante para a trama. Ela não tem diálogos, e tudo que sabemos dela vem de outras pessoas; e acho que é isso que faz tudo mais interessante: não temos certeza sobre nada do que é dito sobre ela. Alguns a veem como uma figura benéfica, outros como uma figura maligna e vingativa. Reconstruir esses pedaços de personalidade pode criar os mais magníficos e assustadores mosaicos — Ashley é quase como um quebra-cabeça onde uma peça se encaixa em diversos lugares diferentes, e dependendo onde você escolher encaixar aquele pedaço, uma paisagem completamente nova pode se formar. 

Todo o mistério do livro é muito bem amarrado e interessante de ser acompanhado. Você quer — e precisa — descobrir para onde a investigação vai levar, conhecer mais a respeito de Ashley, de sua vida, e claro, de seu pai.

Os personagens coadjuvantes são tão bons — ou melhores, até — que o Scott. Hopper é um rapaz que anda meio desencontrado com a vida, que não tem muitos precedentes bons e que sua família, em si, é um pouco problemática. Nora, minha personagem favorita do livro, é uma alma gentil e interessante, que fiquei fascinada e diversas vezes gostaria que ela narrasse a história. Mas entendo a intenção de Pessl a escolher Scott como narrador. Todos os outros personagens compõe um leque de criaturas excêntricas e duvidosas: não sabemos quem está falando a verdade, todos dão testemunhos controversos.

O final do livro, para mim, foi o único final possível. Fiquei fascinada durante toda a leitura, e quando cheguei no final fiquei completamente atordoada. Ficaria lendo mais 800 páginas sem problemas — tamanha a narrativa de Pessl que é empolgante e interessante.

O livro se tornou um dos meus favoritos. Recomendo a quem gosta de leituras que criam e mesclam o universo real e imaginários, quem gosta do universo dos bastidores de filmes de terror — mesmo os que não existem —, e aqueles que procuram algo diferente e emocionante para ler.

Compre o livro

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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