Entrevista com o Vampiro, Anne Rice


A primeira vez que li Anne Rice, assim como a maioria das pessoas, foi na adolescência. Entre uma aula e outra do conservatório na cidadezinha em que eu morava, eu conversava com um grupo de amigos que começou a me recomendar história. Entre elas, Anne Rice. Também devo um pouco dessas recomendações a outro grupo de amigos, mais velhos, que jogavam RPG e tinham vivido a juventude deles uns anos antes da minha. 

Nosso tempos eram diferentes, e quando li Entrevista com o Vampiro e iniciei a leitura de O Vampiro Lestat, eles não falaram muito comigo. O filme de Entrevista, com Brad Pitt e Tom Cruise, também não dialogava com o que eu procurava no período. Eu estava mais interessada em Anjos da Noite e em Crepúsculo. Então, Anne Rice habitou pouquíssimo tempo e espaço na minha mente. Nunca foi uma favorita, nunca fingi dizendo que amava seus vampiros, nunca me interessei em reler, até recentemente.

Vampiros sempre me chamaram muito a atenção, e sempre protagonizaram entre minhas criaturas favoritas. Apesar da volta que dei, e da minha intenção original de trabalhar com Frankenstein na monografia, parecia natural que, em algum momento, eu acabasse com Drácula como companheiro. Mas sempre quando falava sobre o assunto (que já saturou um pouco pra mim), me perguntavam "Mas Jéssica, e Anne Rice?" e na minha cabeça eu respondia "espero que esteja feliz onde quer que estiver". 

Foi em março e abril de 2019 que me debrucei de novo em Entrevista com o Vampiro, para escrever uma resenha e também para gravar um podcast para o site Leitor Cabuloso. Achei horrendo. Uma leitura vagarosa, chata, personagens que não me importava, tudo parecia brega e espalhafatoso e terrível, tanto no livro quanto filme. Odiei a leitura. Estava, novamente, em outro momento. E mais uma vez acreditei que Anne Rice não era para mim. 

Mas no final do ano passado, Michelle e eu resolvemos fazer um clube de leitura de A Hora das Bruxas, já que nosso canal leva o nome do livro, eu nunca tinha lido, e já estava pronta pra odiar (desculpa, Mi). Mas, pelo contrário, eu não odiei. Eu fiquei completamente transtornada, é verdade, ainda hoje tenho calafrios de pensar naquele livro, mas ele não saiu da minha cabeça desde então. Sempre, quando eu estava sem pensando sobre minhas leituras, minha mente voltava a pensar em A Hora das Bruxas. Não com ódio, mas com perplexidade. Porque tudo ali é tão absurdo e grotesco que alugou um triplex na minha cabeça.

Dei toda essa volta da minha história com a Anne Rice para dizer que sim, eu reli Entrevista com o Vampiro — em uma edição de 1996, com tradução de Clarice Lispector. Se você me acompanha no twitter, no instagram, e agora até na newsletter, vai saber que estou com esse projeto insano de ler todas as Crônicas Vampirescas em ordem cronológica (mesmo que não em sequência). E isso se deu porque eu tenho uma curiosidade muito maior que meu assombro por essa criação enlouquecida da Rice.


Para quem não conhece a história, o título explica muito bem a ponta do iceberg do livro: um vampiro, Louis, se encontra com um jornalista e resolve contar toda a sua vida até ali. Abaixo da superfície, entretanto, rola uma história de tensão sexual, disputa territorial, dois vampiros alfas se atracando, uma criança vampiro sinistra e chatíssima, um teatro em Paris em que vampiros fingem que são humanos que fingem que são vampiros, e o Antonio Banderas — porque eu não conseguia ver o Armand de outra forma. 

Eu realmente aproveitei muito mais a leitura dessa vez. Acho que, de certa forma, consegui me conectar mais com o Louis e com as questões que ele levantou durante sua entrevista. Eu passei até mesmo a gostar mais do Lestat, chegando a ficar muito curiosa sobre os livros seguintes (já até li as primeiras páginas de Vampiro Lestat, vejam só). Gosto da forma como Louis pensa a imortalidade, a disputa entre sua visão e a de Lestat, e conforme Louis amadurece, ele compreende os pontos que Lestat levantava para ele. É uma dupla interessante que, se antes eu não reconhecia sua beleza, hoje reconheço.

Outro ponto que prestei mais atenção foi como o próprio Armand argumenta, Louis é a personificação do século XIX. A forma como os anos (e séculos) vão passando e os vampiros vão se perdendo, se conecta perfeitamente com a forma como Armand fala sobre a morte dos vampiros: não por doenças, mas por se perderem nas mudanças. Tudo muda, exceto eles mesmos. E acompanhar essas mudanças pode ser demais, pode ser um sentimento muito pesado. Gosto especialmente desses questionamentos no livro: o que é a imortalidade, o que é ser um vampiro, em pontos de vista diferentes. 

"A grande aventura de nossas vidas. Qual o significado da morte quando se pode viver até o fim do mundo? E o que é 'o fim do mundo', além de uma frase, pois quem sabe, ao menos, o que é o mundo? Já vivi dois séculos, vi as ilusões de um serem transferidas para o outro, sendo eternamente jovem e eternamente velho, sem possuir ilusões, vivendo cada momento de um modo que me fazia pensar num relógio de prata tiquetaqueando no vazio: o painel pintado, os ponteiros delicadamente esculpidos por mãos jamais vistas por alguém, sem olhar para ninguém, iluminado por uma luz que não era luz, como aquela sob a qual Deus fez o mundo antes de criar a luz. Funcionando, funcionando, funcionando, com a precisão de um relógio, em uma sala tão vasta quanto o universo."
Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre o resto. Acho, ainda, a questão da Claudia um enorme problema. Eu compreendo a ideia de Anne Rice, que é uma mulher que colocou de tudo em seus livros (de tudo mesmo, ouço as garras de A Hora das Bruxas arranhando a lousa da minha mente nesse momento), e entendo o choque que ela tentou causar a colocar uma criança vampiro em Entrevista — em um momento que crianças demoníacas estavam em alta, como podemos observar pelos filmes do período (o livro foi lançado em 1976); reunir a inocência e a crueldade em Claudia nunca foi o problema, o problema é o resto, essa fixação em uma sensualidade de vampiros que não condiz com a situação de Claudia, e torna tudo meio grotesco e me sinto meio enojada.

Não gosto muito do desenvolvimento inteiro de Louis e Claudia em Paris. Acho o Teatro dos Vampiros terrível, Louis e Armand também me dá uma preguiça danada, os ciúmes, esse desejo que nunca é consumido, o próprio Armand empurrando Louis até um local que não tem volta e o pedindo que voltasse. Compreendo as escolhas de Rice para essa terceira parte do livro, mas não concordo, e permanece sendo a parte que menos gosto.

Entretanto, gosto muito da parte IV. Gosto de Louis naquele momento, com o mortal que o entrevista. Gosto do final do livro, como se tudo que Louis tivesse dito fosse apenas uma reclamação de infelicidade. 

Mesmo com esses problemas, dessa vez a leitura se mostrou mais fácil e interessante. Realmente acho que estava mais receptiva a conhecer mais sobre o universo criado pela Anne Rice e estou muito curiosa em ler os próximos livros, saber até onde isso vai. Estou até com vontade de rever o filme, dublado, com Brad Pitt entregando toda aquela tristeza e reflexão de um vampiro infeliz pela eternidade.

Inclusive: A AMC adquiriu os direitos de Entrevista com o Vampiro para uma série. Já temos dois atores escalados: Lestat será vivido por Sam Reid, e Louis será vivido por Jacob Anderson. Vamos aguardar para ver como a série vai se desenrolar. Estou curiosa.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

7 comentários:

  1. Uma coisa que me incomoda nos livros da Rice é que assim: TUDO entre os vampiros tem um tesão, uma tensão sexual lascada entre eles. Mas eles NÃO TRANSAM! Lembro de uma cena de Pandora em que ela tinha acabado de ser transformada e pediu que o vampiro a penetrasse. E ele diz pra ela que isso não importa mais. Então quer dizer, além de viver pra sempre eles ficam broxas! 😂

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    1. Realmente os vampiros dela são muito sexuais e ela descreve o ato de beber o sangue de uma forma erótica, mas eu gosto desse tom... Gosto dessa sensualidade que o vampiro da Rice tem, amo os vampiros dela! Apesar de não amar todos kkkk... Tem uns que dá vontade matar... Igual aos livros, alguns incríveis outros terríveis...

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    2. Eu até gosto dessa sensualidade, mas me sinto uma senhorinha lendo hahahahahahah fico pensando "meus amigos procurem um quarto, o que é isso!!!". ela elevou aquela coisa de vampiros sensuais a outro nível mesmo.

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  2. Acho que o filme foi meu primeiro contato com histórias de vampiros, e a gente desconsiderar a Turma do Penadinho. E por isso mesmo tem aquele carinho de "essa história me apresentou esse mundo". Mas concordo total com a questão da Cláudia. Uma criança eterna poderia gerar discussões e situações bem interessantes, mas o jeito que ela fez só ficou incômodo.

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    1. É, pois é, eu não sei se é a tradução ou se é a forma como a Anne Rice fez mesmo. Eu tendo a acreditar que é coisa da própria Anne Rice, pensando nos outros trabalhos dela. Me incomodou demais.

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  3. O que me deixou intrigada foi essa tradução da Clarice Lispector, que coisa mais curiosa e improvável! Eu nunca li Anne Rice ~ acho que nunca tive uma fase vampiresca ~ mas me lembro de ler o Drácula de Bram Stoker bem novinha e de ter achado incrível. Preciso reler agora, mais velha. :)

    Não Me Mande Flores

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    1. Curioso mesmo, né? E é a tradução utilizada até hoje. Acho que a reedição recente também tem a mesma tradução. É um detalhe divertido, mas a linguagem fica meio rebuscada, tenho a sensação. Drácula é um fenômeno, né, eu sou suspeita pra falar, porque adoro vampiros.

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