O terror não precisa inventar a roda


Gosto (em partes) de acompanhar as opiniões das pessoas sobre o que tem sido lançado no terror. Isso foi algo que criei de hábito desde que comecei a trabalhar com o tema. Gosto de saber dos lançamentos, mesmo que eu demore meses para assisti-los (até hoje não assisti Saind Maud, por exemplo), quero saber o que os estúdios têm feito, quais as tendências atuais. Aliás, analisar tendências é meu projeto pessoal desde que comecei: é ver como o terror age e se comporta ao longo das décadas. Tenho uma ideia muito firme de que essas tendências dizem muito sobre seus períodos. 

O texto a seguir é um texto de opinião, como todos os textos desse blog. Então, caso você discorde, tá tudo bem.

Meu trabalho com o terror me levou por muitos caminhos, e ainda tem muitos outros que eu preciso conhecer. Mas, algumas coisas não mudaram em todos esses anos: fãs comentando que "esses filmes atuais não dão medo", tema sobre o qual eu não sei quantas vezes já escrevi e que, honestamente, não aguento mais; e: "esses filmes têm muitos clichês, não tem inovação no terror atual"

É sobre esse último ponto que eu queria comentar um pouco. De certa forma, também está ligado a minha visão sobre tendências.

Veja bem: o terror passa por constantes mudanças. Ele é um gênero livre para crescer para todos os lados, e é facilmente adaptado junto de outros gêneros. Terror e drama, terror e comédia, terror e suspense, terror e tudo quanto é tipo de filme. Dá pra colocar o terror em tudo, e isso é magnífico. Eu acredito profundamente que não existem limites quando falamos de terror: ele pode estar em pequenos detalhes, em roteiros inteiros, em qualquer lugar. 

Isso foi uma das coisas que mais me fez gostar do gênero: as possibilidades. O terror está além de uma faca de dois gumes, ele é um canivete suíço pronto para abrir um vinho ou cortar seus dedos fora. E isso é a magia do tema para mim, é poder ser o que quiser: com lágrimas, com risadas, com arrepios.

Falando rapidamente sobre as tendências do terror, elas são aqueles assuntos e temas recorrentes dentro do gênero. Aquele tipo de filmagem, de abordagem, de subgênero e/ou de característica geral que se repete de forma constante.

Quando a gente resolve ver a história do horror pelo ponto de vista das tendências (que é uma das interpretações possíveis), algumas coisas começam a fazer sentido, como um longo processo. Não evolução, mas processo. Nenhuma tendência é superior à outra, mas elas são resultados de escolhas e de situações sociais e culturais (e políticas, vejam só), que acabam gerando uma série de filmes que ficam muito famosos e importantes naquele período. E nenhuma é superior à outra porque, muitas vezes, elas se complementam. Elas se constroem juntas.

O terror está além de uma faca de dois gumes, ele é um canivete suíço pronto para abrir um vinho ou cortar seus dedos fora. 

Numa rápida visão da história do horror, distinguimos muito bem o que fez sucesso em certas décadas e o que não fez. Os anos 1950, por exemplo, foram marcados por monstros gigantes e acidentes químicos ou nucleares; os anos 1980 foram marcados por assassinos que invadiam as casas da "gente do bem" e destruíam famílias inteiras (o subúrbio nunca mais foi o mesmo). 

Por sorte, não é quando uma tendência acaba e outra começa que os filmes dos anos anteriores são colocados em uma fogueira e destruídos para sempre, já que na maioria das vezes essa delimitação é muito fluida. Ou que os filmes de tendências anteriores devem parar de ser feitos.

Aliás, nem podemos dizer que as tendências anteriores morreram. Que sorte! Estamos passando por um revival do slasher que é uma das maiores apostas para os próximos anos, o que eu pretendo comentar em outro texto.

O que me chama a atenção e me fez começar o texto falando sobre tendências é que atualmente estamos em um momento de muitas produções de variados tipos, mas o que prevaleceu, nessa última década, por exemplo, foi um terror um pouco mais intimista. Não que antes não tivéssemos filmes de terror intimistas, com temas profundos etc etc etc — porque essa é outra coisa que reparei quando comecei a trabalhar com terror: quando notamos que algo tem feito sucesso, e resolvemos apontar o assunto, surgem quinze sabichões para dizer que não é a primeira vez que aquilo tem sido feito; muito que bem —, mas houve um aumento desse tipo de produções. Esse aumento se dá, principalmente, pelo momento que estávamos passando como sociedade, mudanças culturais e afins.

Mas, houve outra coisa que me chamou a atenção: ao mesmo tempo que temos um grupo que não gosta de reconhecer que o terror mais intimista tem ganhado mais foco e força, que prefere o bom e velho sangue e tripas, temos um grupo que insiste em querer que o horror se reinvente em todos os seus filmes, que só os filmes de terror dos mais autorais que nunca foram feitos, que são extremamente novos com um conceito UAU é que merecem ser vistos e feitos, que todos os filmes sejam inovadores com temas e olhares nunca antes vistos. É um cabo de guerra que, afinal de contas, não leva ninguém a lugar nenhum, e gera discussões preguiçosas e sem atenção.

Agora, o tema real do texto: o terror não precisa inventar a roda.

Nós vivemos um dos melhores momentos do terror atualmente. Além de conseguirmos acessar esses filmes, novos e antigos, com uma facilidade muito maior, ainda entramos em contato com um número absurdo de produções que são feitas diariamente, em diversos lugares do mundo. 

O terror ainda não é amplamente aceito como queríamos (muitas vezes, nem por seus fãs), mas é indubitável que houve um crescimento tremendo de produções — pelo menos de produções que conseguimos acessar — nos últimos anos. Festivais e exibições online, lançamentos simultâneos de canais de streaming, entre outros. 

E, nesse meio, temos as produções autorais. Nós, Corra!, A Bruxa, Hereditário, Midsommar, Mandy, O Mistério da Ilha (pouco comentado, deveria receber mais atenção), entre tantos outros lançados nos últimos dez ou doze anos. Esses filmes são inovadores e trazem visões que fazia tempo que não víamos no terror. Olhares interessantes sobre temas em discussão. E isso é incrível. Mas elas também, na maioria das vezes, prestam homenagem e referência a muitos filmes mais antigos e clássicos.

Temos também produções que ou são adaptações de livros, ou são remakes, ou são filmes mais genéricos, talvez menos inovadores? Mas, ao mesmo tempo, talvez investimentos mais seguros. 

Isso quer dizer que todos os filmes precisam ser iguais? Precisamos ficar vendo filmes genéricos e nada inovadores? 

Não, isso só significa que a indústria do cinema de terror ainda é uma indústria. Que diretores acabam ganhando famas e que seus trabalhos tendem a ficar mais semelhantes com eles mesmos, com suas visões de mundo, e/ou com o que eles aceitam e precisam trabalhar. E isso quer dizer também que o terror não precisa ficar encontrando pelo em ovo para ser bom. Ele precisa ter consciência de seu público, e de onde ele quer atingir. Precisa ser honesto consigo mesmo.

Vou utilizar como exemplo Rua do Medo, que dividiu algumas opiniões (já viram nosso programa no The Witching Hour? Falamos sobre ele lá). O filme é uma adaptação do universo criado por R.L. Stine para sua série de livros de mesmo nome. Stine ficou amplamente conhecido por Goosebumps, mas escreveu diversos outros livros. A intenção do filme ou de sua diretora, Leigh Janiak, claramente, não é reestruturar todo o gênero e criar tudo do zero. Janiak trabalhou com um tema já pré-determinado e subverteu uma série de conceitos simples, mas utilizou temas que já conhecemos de outros carnavais: acampamentos, assassinos mascarados, perseguições a bruxas, uma cidade amaldiçoada a centenas de anos. No geral, Rua do Medo pode parecer genérico para um olhar mais desatento. Prestando mais atenção, é um trabalho conciso e extremamente consciente, que pretende: 01) atingir tanto novos fãs de horror, que ficarão tentados a conhecer os filmes que foram homenageados e referenciados na trilogia, e 2) os fãs mais velhos, que vão reconhecer essas homenagens e essas referências. 

Precisamos soltar um pouco as rédeas e ter em mente que o terror não precisa ser inovador e novo o tempo todo. Ele é construído através de tendências, de reciclagens, de momentos e de processos. Ele pode ser divertido, e pode ser desconfortável, e pode ser tantas outras coisas, e é exatamente para isso que existem tantos subgêneros por aí: encontre o que você mais gosta e se divirta. 

As mesmas histórias podem e devem ser contadas várias vezes, principalmente quando estão sob visões diferentes. Temos uma absurda quantidade de filmes adaptados do Drácula, e que bom. Clichês existem em boa parte porque funcionam (apesar de alguns serem extremamente ultrapassados), e a possibilidade de utilizá-los ou subvertê-los vai de cada criador, e não é somente isso que vai fazer um filme ser bom ou ruim. Não deixem que uma mesma história ou uma mesma técnica se ponha entre vocês e um filme. Compreendam qual a intenção daquele filme, percebam para qual público ele está sendo vendido antes de apontar que é um péssimo filme — e apontar um "péssimo filme" como se fosse detentor da verdade absoluta e suprema do que faz um bom filme de terror.

Isso não significa que filmes não devem ser criticados. O ponto é outro aqui — e eu espero, sinceramente, que tenha ficado claro.

Estamos em um momento excelente para o terror, seja o autoral ou seja o adaptado. Compreender as propostas e públicos desses filmes nos torna fãs melhores e, para quem trabalha com o tema, nos torna profissionais melhores. Quanto mais pessoas atingidas pelo gênero, melhor. Que bom que temos filmes para todos os gostos. 
Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Oh, tem trezentos filmes genéricos dentro de todos os gêneros, mas eu não vejo o povo que gosta de ação ou de comédia romântica, sei lá, reclamando no mesmo nível de quem "curte" terror. Não tem como todo filme ser incrível e inovador, em qualquer gênero vai ter uma maioria esmagadora de filmes medianos e/ou repetitivos (especialmente após algum sucesso que todos os outros estúdios tentam repetir etc). Povo gosta é de reclamar. Excelente texto! Uma visão honesta sobre o mercado e nossas expectativas. Tem um vídeo no EntrePlanos sobre terror que me lembrou a discussão deste texto.

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