Coração das Trevas, de Joseph Conrad


Algumas disciplinas na faculdade foram extremamente importantes para os caminhos que eu escolhi na minha vida depois da graduação, e me entristece pensar que, na época, eu talvez não tenha pensado nelas da forma como deveria — não as aproveitei da melhor maneira, não as levei tão a sério quanto elas mereciam. Discussões sobre o pensamento moderno, leituras que eu deveria ter feito e não fiz, que eu deveria ter me concentrado e não me concentrei. 

Considero que foram os melhores anos da minha vida, mas às vezes tinha tanta coisa acontecendo que o principal, o primordial, eu acabei deixando escapar por entre as mãos.

Mas, por sorte, enquanto algumas coisas que li e aprendi nesses quatro anos fugiram para bem longe. algumas outras ficaram comigo. Dentre elas, uma aula da qual eu era monitora, que tratava de colonização, narrativa e literatura. Não me lembro exatamente o nome, eram Tópicos Especiais em algo. Era uma aula que minha professora orientadora de monografia iria aplicar em um determinado semestre, e me convidou para assistir — e como o cérebro do universitário funciona basicamente somando e calculando horas, sejam elas horas extras, seja a quantidade de sono que poderemos ter em uma semana bastante complicada, aproveitei para me matricular como monitora. Como monitora eu não faria as provas, e algumas leituras acabaram passando, como Coração das Trevas, de Joseph Conrad.

Aproveitei o recente lançamento de Coração das Trevas pela DarkSide, com tradução de Paulo Raviere, e como recebi o livro em parceria com a editora, resolvi passá-lo na frente dos outros.

Coração das Trevas é uma obra importante e citada exaustivamente como um dos grandes clássicos da história da literatura. Por vezes é citada, inclusive, entre as grandes obras de terror. Isso não se deve somente ao tema ou a forma como foi escrito, mas principalmente por seu contexto e por seu autor. Publicado originalmente em 1899, Conrad utilizou seu próprio conhecimento como viajante, que foi ao Congo em determinado período de sua vida, para escrever sobre a exploração na África. 

O contexto é uma das partes mais importantes em Coração das Trevas. É como se Conrad houvesse pego uma notícia de jornal sobre uma situação recorrente terrível e escrevesse uma obra inteira sobre ela, com a diferença que ele esteve lá, ele viu. Eu sou fruto da História, e isso se reflete na minha escrita e na forma como analiso as coisas, então tenho sempre em mente o contexto em que determinadas histórias aparecem, e por qual processo elas estão passando. Coração das Trevas é a síntese mais clara dessa ideia de que determinadas obras, escritas em determinados períodos, são uma fonte inesgotável de informações sobre seus acontecimentos. E vem acompanhada do delicioso detalhe: são fontes escritas através do ponto de vista de uma pessoa, que está claramente se apresentando a nós, seja ela contrária ou a favor desses possíveis acontecimentos.


Por sorte, e pensando nisso de forma muito acertada, a edição da DarkSide traz alguns textos de apoio que são importantes para a compreensão de Coração das Trevas. Um prefácio, escrito pelo tradutor Paulo Raviere; um texto sobre Joseph Conrad, de Virginia Woolf; um texto de Carlos da Silva Jr, que é mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia e que possui um doutorado pelo Wilbeforce Institute for the Study of Slavery and Emancipation, da University of Hull. A edição também tem o Diário do Congo, escrito por Conrad enquanto esteve por lá, e ilustrações do ilustrador Braziliano. 

O texto de Carlos da Silva Jr. é um prato cheio para entendermos o que estava havendo naquele momento. No geral, sabemos que a exploração da África trouxe consequências devastadoras para o povo negro, o tráfico de pessoas para serem escravizadas atingiu marcas absurdas e número tão altos que ainda hoje se tenta ter uma noção da imensidão do problema. Nas ilhas caribenhas, as coisas não estavam melhores. E tão horríveis quanto foram as tentativas civilizatórias, que geraram massacres tão aterrorizantes quanto o número de pessoas traficadas. 

A Bélgica, nas mãos de Leopoldo I e Leopoldo II, tinham um interesse acima do comum de "civilizar" o Congo. Suas intenções, é claro, residiam nos recursos naturais do local. Leopoldo II moveu céus e terras para conseguir suas excursões que tinham como missão carregar tudo que poderiam dalí, principalmente marfim. É sobre uma dessas missões, um desses gerentes de exploração, e sobre uma dessas excursões, que Coração das Trevas é escrito.

A escrita de Coração das Trevas é bem parecida com alguns clássicos que já conhecemos, como O Médico e o Monstro e Frankenstein: um homem narrando o que outro homem narrou a ele. No caso, um homem narra uma história que Marlow contou certo dia no convés de uma embarcação. O nome deste narrador não é sequer importante, é sobre Marlow e sua viagem ao Congo que estamos prestando atenção pelas 120 páginas em que se desenvolvem a história. Marlow só é interrompido por pequenos comentários do narrador, vezes para demonstrar como o assunto parece sombrio (não que houvesse necessidade, mas são paradas bem vindas para podermos respirar), vezes para demonstrar como Marlow é, ele mesmo, um homem sombrio. 

Não é uma leitura agradável. O tema é difícil e a escrita de Conrad é extremamente vívida sobre os acontecimentos que ele pretende narrar. Mas é um texto importante, principalmente para os que gostam de história mundial ou para os que gostam de romances de exploração. Diferente de outros livros sobre o assunto, entretanto, Coração das Trevas é, assim como seu protagonista, sombrio. 

Marlow se encontrava meio perdido quando decidiu ser um navegador de águas doces. Conseguiu um trabalho em uma embarcação que subiria o rio do Congo até o último posto de comando. Durante essa viagem, nada de sobrenatural acontece, mas o que Marlow encontra altera para sempre sua percepção sobre a vida e sobre os seres humanos. Fome, desespero, dor, uma população inteira subjugada para servir aos propósitos da colonização e da avareza de pessoas brancas. A história também narra sobre o encontro de Marlow com um homem chamado Kurtz, figura que passa a ser importante para Marlow e que exerce enorme fascínio e impressão sobre ele.

Algumas afirmativas de Kurtz, hoje, podem parecer extremamente absurdas para nós. Afirmar que os habitantes do Congo "não eram inumanos" e que "eu olhava para eles como vocês olhariam para qualquer ser humano" podem parecer afirmativas absurdas hoje em dia, em que o preconceito é amplamente discutido, mas o contexto transforma um pouco esse ponto. Todos os acontecimentos do Congo e do processo civilizatório de Leopoldo II aconteceram entre o final do século XIX e começo do século XX, mesmo período que Conrad escreve. Utilizar o contexto para explicar a questão da obra não é, nesse caso, "passar pano" para o autor. É uma forma de compreender o lugar em que ele está inserido.

Coração das Trevas acaba sendo um título bastante discutido por teóricos e intelectuais exatamente por isso. Enquanto alguns acreditam que Conrad foi condescendente ao escrever o livro e a forma como narrou seus conhecimentos pelo Congo, muitas vezes deixando de fora pontos importantes sobre a sociedade que vivia ali; outros preferem acreditar que Conrad deu uma certa visão sobre os terrores que aconteciam no lugar, e que isso serviu para abrir os olhos de partes da população fora do Congo.

Essa questão de quem está contando a história e como decide contar certos acontecimentos sempre me chamou a atenção. É uma outra coisa que ficou para mim, da época da faculdade. Na mesma disciplina tínhamos que ler alguns textos teóricos sobre a questão da colonização e o imperialismo, de como a sociedade branca ocidental enxergava o outro no século XIX. Desses textos, uma passagem de Cultura e Imperialismo, de Edward Saïd (Trad. Denise Bottman), acabou me marcando bastante:

"Os leitores deste livro logo perceberão que a narrativa é crucial para minha argumentação, sendo minha tese básica a de que as histórias estão no cerne daquilo que dizem os exploradores e os romancistas acerca das regiões estranhas do mundo; elas também se tornam o método usado pelos povos colonizados para afirmar sua identidade e a existência de uma história própria deles. O principal objeto de disputa no imperialismo é, evidentemente, a terra; mas quando se tratava de quem possuía a terra, quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar, quem a explorava, quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro — essas questões foram pensadas, discutidas e até, por um tempo, decididas na narrativa. Como sugeriu um crítico, as próprias nações são narrativas. O poder de narrar, ou de impedir que se formem e surgem outras narrativas é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui uma das principais conexões entre ambos."
 A narrativa, estando no centro da disputa territorial e cultural dos povos, para Saïd, é uma arma extremamente poderosa. Descobrimos todos os dias alguém que foi varrido para baixo do tapete da história no meio dessa guerra de quem comanda o que se sabe. Coração das Trevas é um desses frutos, de um momento extremamente complicado e terrível. Discussões de títulos como esse, ao lado de outros igualmente importantes (sempre que possível, escritos por pessoas ligadas a questão como, por exemplo, neste caso, teóricos negros, como Carlos da Silva Jr. menciona Chinua Achebe em seu texto) são importantes para conhecermos um pouco mais sobre a história mundial e, sobretudo, desconfiarmos de políticas que buscam "civilizar" grupos.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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