Revival, Stephen King


Novamente falando sobre um livro do Stephen King. Esse é o segundo em menos de dois meses, algo bem pouco comum por aqui. Já comentei algumas vezes de como King é, para mim, uma leitura de conforto. Mas não sei exatamente o que houve, que eu precisava tanto de conforto, que acabei lendo Love (com resenha aqui), e pouco depois li Revival, e também assisti umas três adaptações de seus livros na última semana. Aliás, se você tem interesse em acompanhar o que ando assistindo, pode me seguir no letterboxd: capirojesca.

Enfim, mas hoje vou falar um pouco sobre meus sentimentos com Revival (trad. de Michel Teixeira), lançado originalmente em 2014, o que faz desse um livro do King bastante recente.

Devo começar dizendo que esse foi um dos livros do King mais recomendados pra mim. Um número acima do comum me disse para lê-lo, e eu resolvi comprá-lo, mas deixei ele me esperando na estante. Eu faço isso as vezes. Em algum momento lerei os livros, mas eu preciso do momento certo. Esse me pareceu o momento certo.

Já comentei também algumas vezes como gosto da forma como King descreve as coisas. Grande parte desse gosto se deve aos tradutores, é claro. Mas há algo na escrita do King, na fórmula dele, na forma que ele escolhe como apresentar os personagens e como apresentar as situações que me prende bastante. Com Revival não foi diferente. O livro me deixou completamente presa e ainda me deixou com uma ressaca literária violenta depois, da qual até agora não consegui me livrar exatamente (mas estou no caminho, ainda bem). 

No livro, acompanhamos as lembranças de Jamie Morton, um homem já com seus mais de 50 anos que escreve sobre sua vida e sobre seus encontros esparsos com uma figura que ele chama de "quinto personagem" ou "agente de mudança". King explica, através de Morton, que esse agente de mudança, comparando a vida a um roteiro de cinema, não é um personagem coadjuvante, figurante nem nada do tipo, mas sim "o palhaço de mola que pula da caixinha vez por outra ao longo dos anos, não raro nos momentos de crise". 

"Mas e o roteiro da nossa vida? Quem escreve? O destino ou o acaso? Quero acreditar que seja o último. Quero mesmo."

Desde que tinha pouca idade, Jamie se encontrou com seu quinto personagem, seu agente de mudança. Seu nome era Charles Jacobs e ele era o novo reverendo da pequena região onde Jamie morava. Todos gostavam do reverendo Jacobs, apesar da obsessão que ele tinha com a eletricidade, até que sua esposa faleceu. O reverendo perdeu a sua fé (mais ou menos como acontece em Sinais ou em Todo Mundo em Pânico 3), mas antes de abandonar o altar, resolveu fazer um último sermão. E o sermão ficou conhecido como o pior sermão de todos os tempos, algo que todos preferiam ignorar ao passar dos anos. Basicamente, Jacobs disse que o céu, o inferno, e todas as bases da religião cristã eram uma balela sem tamanho (aliviando muito seu discurso). 

Depois do sermão, Jacobs foi embora e Jamie achou que nunca mais o veria. Começou a tocar em bandas, a aproveitar o velho lema das drogas e rock'n'roll, se tornou viciado primeiro em drogas leves, depois nas mais pesadas, caiu na estrada, até chegar em um ponto que tudo ficou insustentável: Jamie foi abandonado por sua banda, com um bilhete muito educado que dizia que, se ele continuasse naquela vida, dentro de um ano estaria morto ou na cadeia. 

Naquela noite Jamie se encontrou novamente com Jacobs, que agora fazia pequenas apresentações em feiras itinerantes, de cidade em cidade. Ainda fascinado pela eletricidade, Jacobs havia avançado em seus estudos. Quando viu a situação de Jamie, o antigo reverendo disse que poderia curar seu vício em heroína com a ajuda de um tipo de "eletricidade secreta". E realmente funcionou. Depois de se separarem, Jacobs conseguiu um emprego para Jamie, do qual se manteve estável por anos.

E poderia ter sido um final feliz para a vida de Jamie Morton, mas aí seria algum outro livro de superação, e não um livro de Stephen King.


Morton encontra com Jacobs algumas outras vezes depois disso, e a cada encontro as coisas pioram. Jacobs está cada vez mais obcecado em encontrar essa energia especial e secreta do universo, e cada vez mais faz testes em pessoas, utilizando-as como cobaias para atingir seus objetivos. 

Não quero entrar nos detalhes dos encontros e dos testes de Jacobs. Vou só me ater ao final, sem dar spoilers. O final de Revival é um final AMARGO. Há um gosto ruim na boca, algo como aquela sensação que fica depois do vômito. Você fica feliz por ter acabado, mas sente que vai demorar um pouco pra se recuperar. E é claro que esse sentimento vem principalmente pelo tempo que fiquei atracada com o livro e com a força que me mantive presa a ele, mas foi um sentimento extremamente desconfortável. 

Não é um final triste. Sabemos que Jamie está vivo pois ele conta a história. Mas qual o custo dessa sobrevivência? O que ele deixou pelo caminho? O que ele viu? Como ele vai viver dali pra frente? É algo a se ter em mente quando a gente chega no final do livro: o que custou chegar ali? Rever a vida de Jamie, junto com ele, é uma jornada que nos deixa um certo tipo de sensação horrível e nos faz questionar muitos pontos do nosso próprio caminho. 

Há um detalhe do livro que me incomodou profundamente, que é o relacionamento de Jamie com as mulheres, principalmente um relacionamento que teve com uma mulher mais nova. Acho que King errou bastante o tom. Adoraria que alguém tivesse avisado "querido, reveja", mas não aconteceu. Seguimos.

Queria dedicar um minutinho para comentar a lista de nomes a quem o livro é dedicado. Eu imagino que a lista também abra o livro em inglês, e no livro em português ela vem logo depois da folha de rosto. Os nomes citados são, em ordem: Mary Shelley, Bram Stoker, H.P. Lovecraft, Clark Ashton Smith, Donald Wandrei, Fritz Leiber, August Derleth, Shirley Jackson, Robert Bloch, Peter Straub e, por último, ele escreve "e Arthur Machen, autor do conto 'O Grande Deus Pã', que me assombrou a vida toda". Entre autores de horror e das primeiras ondas da weird fiction, King já coloca o leitor onde precisa que ele esteja, citando suas maiores referências e avisando que, o que vem por aí, é um amalgama de todas elas. 

Eu achei excelente essa forma de situar o leitor, e acho que instiga de uma forma muito interessante a procurar elementos de cada um desses autores. Tenho pra mim que, Mary Shelley e o próprio Machen sejam os grandes líderes na criação desse universo de King, mas sem deixar de dar atenção aos outros. 

King costuma mesmo fazer isso: deixar pequenas pistas e detalhes, as vezes até marcações explícitas, sobre o futuro de seus personagens. Com essas referências, sabemos que algo muito terrível espreita esse livro. 

Foi, afinal de contas, uma excelente leitura, que me manteve presa e me deu o conforto (e o desconforto) que eu precisava.

O livro seria adaptado para o cinema pelas mãos de Mike Flanagan, mas pelo visto o projeto foi descartado (fonte: Collider). Uma pena. Seria interessante ver o que Flanagan seria capaz.  

Compre o livro


Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram