Confissões, Kanae Minato


Nem sempre conseguimos encontrar personagens agradáveis nos livros que estamos lendo. Às vezes, inclusive, a intenção do escritor é causar um desconforto tão grande que não há, de forma alguma, um lugar para se apoiar. Não há um alívio cômico, não há leveza. Essas leituras exigem um certo tipo de esforço mental que nem sempre estamos querendo dispor, mas que quando dispomos, entramos em uma jornada de reflexão e questionamentos fortes demais, em uma digestão de texto que pode levar dias. 

Quando li Penitência, da Kanae Minato (com tradução de Elisa Nazarian), fiquei fascinada. A história de um crime brutal que repercute na vida de quatro garotas, inclusive e principalmente na vida da mãe da jovem que foi assassinada, é uma narrativa densa e terrível. Como o nome do livro diz, nós acompanhamos as penitências dessas jovens — que, se não foram exatamente responsáveis pelo crime, de certa forma se sentiram culpadas, e para a mãe da garota morta realmente foram culpadas, pela forma como tudo aconteceu. Escrevi uma resenha sobre ele, que pode ser lida aqui

Naquele momento fiquei muito interessada em ler mais coisas de Minato, e Confissões se tornou um livro constante na wishlist. Só depois de um ano que eu havia lido Penitência eu iria conseguir ler Confissões (com tradução de Rogério Bettoni) — e descobri que recentemente outro livro da autora foi lançado, intitulado Entrelaçadas, já estou muito curiosa pela leitura. 

Pois bem, eu resolvi também escrever um pouco sobre essa experiência de leitura, sem entrar em muitos detalhes da história, porque mesmo depois de alguns dias que li o livro, ainda tenho pensado muito sobre ele. Então, para mim, faz sentido colocar um pouco para fora. O texto a seguir não tem spoilers.

Sobre o livro


A professora Moriguchi resolveu parar de dar aulas. Desde o incidente da morte de sua filha, ela achou melhor se retirar. Então, no último dia de aula, Moriguchi-sensei para diante da turma e faz um longo monólogo que, de início, fala um pouco sobre ela e sobre sua escolha. Ao longo do monólogo, entretanto, vamos percebendo que tem algo errado. Conforme ela avança em sua narrativa, uma coisa fica clara: a filha de Moriguchi, que tinha quatro anos, foi assassinada. E as duas pessoas que assassinaram sua filha, estão diante dela, são dois de seus alunos.

Isso tudo é contado no primeiro capítulo do livro. Moriguchi não dá nomes, mas vai amarrando as pontas de sua história até que tenhamos um quadro mais ou menos claro do que aconteceu. Os detalhes, porém, só aparecem ao longo dos capítulos seguintes.

Todos os capítulos são narrados em primeira pessoa, por personagens diferentes. Os alunos responsáveis pela morte da filha de Moriguchi, Naoki e Shuya, tem seus nomes revelados no segundo capítulo, narrado por outra das alunas, que escreve uma carta para a professora a fim de contar como tem sido os dias desde que ela fez aquela declaração do assassinato — e, por consequência, iniciou sua vingança quase silenciosa. O terceiro capítulo é narrado pela irmã de Naoki, o quarto pelo próprio Naoki, o quinto por Shuya e o sexta, encerrando o livro, é um retorno de Moriguchi, colocando alguns pingos nos is.

Os nomes dos capítulos, inclusive, são um tipo de pista sobre o que vamos encontrar em seguida: Santidade, Martírio, Complacência, A Busca, Credulidade, Sacerdócio. 

Uma das coisas que mais admiro na escrita de Kanae Minato é exatamente esse "depois". Os crimes que geralmente iniciam seus livros (pelo menos os dois que li até agora) não são nem de longe os mais importantes. O mais importante, enquanto lemos Penitência ou Confissões, é o que vem a seguir. Como as pessoas que tiveram as vidas afetadas por aquele crimes se comportam diante deles. Como funciona a mente de um criminoso? E de uma vítima — mesmo que seja uma vítima apenas das circunstâncias? 

Kanae Minato delineia muito bem as questões que quer que o leitor se concentre, e dá um festival de personagens com uma personalidade complicada, uma moral completamente perturbada, uma visão de mundo terrível se vista pelas arestas dos olhos de outra pessoa, mas que no nosso íntimo nós mesmos temos vez ou outra. É muito fácil julgar os personagens de Minato imaginando que nunca faríamos algo do tipo — e será que não faríamos? 



Não há nenhum personagem a se apegar, nenhum alívio cômico para aguardar e não há como torcer pelo melhor. Em Confissões, a gente enfrenta toda a turbulência de um avião desgovernado. 

Confissões foi o livro que escolhemos para ler em conjunto, Michelle e eu, na pausa de temporada do The Witching Hour, nosso canal do youtube. Queríamos falar mais de diretoras asiáticas, mas como estávamos com dificuldade de encontrar os filmes para download, pensamos em ler um livro de uma autora. A discussão foi dia 17 de julho, e o vídeo já está no nosso canal (que pode ser acessado aqui, mas o vídeo tem spoilers da história, então cuidado).

Filme 

Há uma adaptação cinematográfica de Confissões, que segue o mesmo nome do livro. O filme foi dirigido por Tetsuya Nakashima, que também assina o roteiro. Ainda não tive a oportunidade de assistir, mas estou extremamente curiosa pois amigos já disseram que é um filme extremamente desconfortável. 

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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