Dark Tales, de Shirley Jackson


Shirley Jackson é, talvez, minha autora favorita hoje. Já escrevi um bocado sobre suas obras aqui: Assombração da Casa da Colina, Sempre Vivemos no Castelo, sobre a adaptação de Sempre Vivemos no Castelo, sobre a biografia com toques ficcionais que foi Shirley, e sobre seu conto "A Loteria". E, claro, escrevi também sobre as duas séries The Haunting Of, cuja a primeira temporada, A Maldição da Residência Hill, é baseado em Assombração da Casa da Colina. 

Sempre comento aqui sobre o descaso que a autora sofre em solo brasileiro e me entristece profundamente que seja assim. Recentemente a editora Alfaguara anunciou o lançamento de O Homem da Forca para em breve, e é claro que devo escrever algo sobre ele assim que lê-lo. Também comprei recentemente a biografia Shirley Jackson: A Rather Haunted Life, de Ruth Franklin, então haverão muitos textos de Shirley Jackson esse ano aqui no blog. Além de me dar alegria ler as coisas que a Jackson escreveu, me dá um prazer enorme escrever sobre ela também. 

Como pouquíssimas foram as coisas publicadas da Shirley Jackson em solo brasileiro, acabei comprando a antologia Dark Tales em inglês, na edição da Penguin Classics, com 17 contos da autora, dos mais diversos assuntos, mas sempre mantendo o ponto principal da escrita dela: aquela ironia que escorre pelas páginas do livro e chega até as nossas mãos, que atravessa nossos nervos e nos faz dar risadinhas nervosas. 

Há algo que sempre me atrai nas histórias da Shirley Jackson. Em diversas histórias, há algo de inocente nas personagens de Jackson que me deixam inquieta. Situações que, sabemos, irão para lugares muito desagradáveis, mas que começam como uma jornada tranquila para as suas protagonistas. E essas protagonistas, por si mesmas, são diversas vezes bem desagradáveis.

Em um dos meus contos favoritos, e também o que abre o livro, "The Possibility of Evil", Jackson nos conta a história de uma senhora fofoqueira em uma pequena cidadezinha que insiste estar fazendo um bem danado para a população. Afinal, se não ela, quem irá apontar as falhas dos seus vizinhos? Mas quando o feitiço se volta contra o feiticeiro, Miss Adela Strangeworth vai perceber que nem sempre é bom ter seus defeitos expostos. 

É nessa exposição de segredos e fraquezas que mora um dos grandes triunfos de Jackson como autora de terror: o mal é humano. Aterrorizante e preocupante, mas humano. Pode ser seu vizinho, seu marido, sua esposa, até mesmo seu filho, mas não há nada de errado com ele — a não ser uma grave falha de caráter, que pode levar a consequências desastrosas.


Aliás, são poucos os contos em Dark Tales que utilizam de algum elemento sobrenatural. E, mesmo quando são usados, não são eles os nossos focos de atenção. Eles estão ali como resultados, nunca como os causadores do mal. Em um desses contos, intitulados "Home", uma mulher que acabou de se mudar com o marido para o interior, acaba descobrindo que há um fantasma em sua propriedade. Mas, mesmo assustada, ela não se sente acuada pelos espíritos; ela quer contar vantagem de que os viu por ali. E é nesse momento que os resultados — o sobrenatural — agem sobre ela. Por sua própria arrogância e soberba.

Dos 17 contos no livro, não posso apontar algum que eu não tenha gostado. Todos eles tem seu charme, sua intriga, sua ironia deliciosa que combina tão bem com o tipo de história que a Jackson conta pra gente.

Na introdução de Dark Tales, escrita por Ottessa Moshfegh, a autora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento fala sobre como os protagonistas de Jackson são pessoas sãs, não são psicopatas ou coisa que o valha. São sempre observadores, com suas lógicas e racionalidades. Mesmo em Sempre Vivemos no Castelo, se formos parar para analisar bem Merricat carrega essa ideia de razão. Ao mesmo tempo que o livro também é, assim como os contos de Dark Tales, uma narrativa com personagens "inocentes", carregada de ironias e um humor macabro.  

Moshfegh compreende bem o tema das histórias de Jackson e se coloca em seu lugar ao nos perguntar se nós, leitores, temos certeza que não perdemos nossa cabeça ainda.

"And so Jackson asks: Dear reader, have you, too, lost your mind? Can you ever be sure you had one to lose in first place? Have you ever mistaken the mew of a cat in heat for someone being murdered? Have you ever thought you saw your own self waiting at the crosswalk as you drive past in yout car? Do you trust your own perceptions? And how far will you walk down a road at night before the wind at your back feels like the hands of a madman pushing your forward? Will you run? How Fast? And whose door will you knock on? Everything looks perfectly normal as you rush up the front steps, and maybe you've just been spooked, maybe you're just being silly. In Jackson's World, the safe house is a trap. Enter it, and you might get lost in the dark.

Ler Jackson é realmente tudo isso. É se questionar o que você faria no lugar de cada um dos protagonistas, mesmo aqueles que se dão muito mal, ou muito bem. É adentrar um lugar de escuridão da mente humana. Shirley Jackson escreve o terror a partir do cotidiano: seu dia a dia pode te matar. Pode ter algo virando a esquina que vai mudar sua vida. Pode haver alguém pronto para acabar com você no próximo minuto, te prender em um mundo de confusão, armar para sua segurança e para a sua sanidade. Ninguém está seguro vivendo no mundo dos humanos.

Lendo Shirley Jackson, é com o banal que você precisa se preocupar. 

Compre os livros

Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

* tradução: "E assim Jackson pergunta: Caro leitor, você também perdeu o juízo? Você pode ter certeza de que tem algum a perder em primeiro lugar? Você já confundiu o miado de um gato no cio com alguém sendo assassinado? Você já pensou que viu a si mesmo esperando na faixa de pedestres enquanto você dirige seu carro? Você confia em suas próprias percepções? E até onde você vai caminhar pela estrada à noite antes que o vento nas suas costas pareça as mãos de um louco empurrando você para a frente? Você vai correr? Quão rápido? E a porta de quem você vai bater? Tudo parece perfeitamente normal quando você sobe correndo os degraus da frente, e talvez você só esteja assustado, talvez esteja apenas sendo bobo. No mundo de Jackson, a casa segura é uma armadilha. Entre nele e você pode se perder no escuro."
Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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