O vasto campo da literatura: de que valem os mesmos clássicos repetidos?

Retrato de Madame François Buron, de Jacques Louis David - 1769

Estava passando meus stories do instagram esses dias e me deparei com o Querido Clássico, um blog que admiro imensamente, questionando a falta de algumas autoras importantes e clássicas traduzidas para o Brasil. Na hora me lembrei da árdua tarefa que me meti e abandonei de tentar resgatar, mesmo que aos poucos, o trabalho de algumas dessas mulheres. No início do blog ainda tem alguns desses textos, como aconteceu com O Beijo do Deus Sombrio, de C.L. Moore, O Destino de Madame Cabanel, de Eliza Lynn Linton, O Mistério de Campagna, de Anne Crawford e The Were-Wolf, de Clemence Housman

Um dos trabalhos que mais me influenciou nessa pesquisa desde sempre foi o da Sybylla, com o Momentum Saga, e seus esforços incríveis de encontrar títulos sumidos e dar atenção a tantos outros que não estão na esfera do hype do momento. Então, minha intenção sempre foi ir atrás desses livros, dessas autoras (e autores também). O que de terror e mistério foi publicado no Brasil? Eu sei que essas autoras existem, então onde estão elas? Há quanto tempo elas foram publicadas e estão sem uma nova edição? Há interesse, então por que vemos tão pouco desses livros? 

Eu expandi minha busca, e expandi meus locais de procura, não focando mais somente no clássico, mas sim em nomes que não encontram lares aqui no Brasil. Depois de perceber que o terror não existe somente dentro da caixa convencional que muitos acreditam que ele esteja encaixado, comecei também a procurar o terror em outros lugares, outros nomes, outros títulos. É um mundo vasto para desbravar, e tem sido uma trajetória com muitas compensações. Descambei para a literatura latino-americana, espanhola e asiática, que é onde me encontro agora, e tem sido interessante encontrar alguns nomes — que ainda aparecerão por aqui nesse blog, e que já me deram oportunidade de fazer um ou dois trabalhos bem legais (aguardem, vem aí). 

Foi assim também que conheci o trabalho de muitas mulheres que tiveram seus nomes ignorados no terror no audiovisual, e me volto a elas com frequência (e acabaram me colocando como referência na wikipedia br com meu texto sobre a Milicent Patrick, uma das coisas que mais acho divertido de contar). 

Nos últimos anos tenho lido e recolhido nomes de mulheres autoras que não tiveram tanta chance quanto o cânone e gosto de pensar que meu trabalho fez alguns desses títulos encontrarem novos leitores. Vivemos de recomendações, e saber que alguém confia no seu gosto para ler algo que você indicou, é um sentimento bom de repassar o que você conhece.

Pesquisar é uma das coisas que faço de melhor. É o que gosto de fazer por hobby, e é uma parte importante do meu trabalho. Mas me surge uma questão: Precisamos mesmo ir tão fundo para saber mais sobre autoras importantes? É necessário esse trabalho e esforço tremendo, quando esses dados deveriam ser fáceis de encontrar?

Nos stories do Querido Clássico uma pergunta me saltou aos olhos:

De que adianta republicação dos mesmos clássicos ano após ano se há escritoras que continuam inacessíveis aos leitores?

Houve um processo muito bem organizado de apagamento histórico de certos nomes, e isso desde muito cedo. Cito de cabeça a Margaret Cavendish que foi ignorada exaustivamente por seus companheiros de estudos e pensadores do século XVII, Mary Wollstonecraft e Mary Shelley também tiveram seus momentos de sumiço, a própria Shirley Jackson, um dos nomes mais importantes para o terror é pouco conhecido no Brasil. Nomes brasileiros também passaram por isso, como Emília de Freitas, Maria Firmina dos Reis e Ana Luísa de Azevedo e Castro (a última sem nenhum livro recente publicado). Isso para citar algumas, que me lembro de imediato. 

Estando tão próxima do meio editorial, tendo muitos conhecidos que fazem parte da indústria, que trabalham diretamente com livros, sei que isso vem de vários fatores. Apostar em livros conhecidos e que estão sendo falados garante uma vendagem melhor e maior, livros clássicos e que estão no cerne do cânone da literatura também tem seu nome feito, já. Então, pra que insistir em livros que meia dúzia de gato pingado se interessaria em comprar?

Precisamos sair um pouco do que é esperado se quisermos conhecer melhor o mundo lá fora. Existem narrativas interessantíssimas para serem lidas e serem pensadas e que podem até mudar a forma como conhecemos certos gêneros. Falando sobre a minha área, especificamente, como vamos conhecer o terror que foge do convencional norte-americano se só temos livros norte-americanos preenchendo as prateleiras, sendo resenhados, sendo revisitados todos os dias? 

Enquanto eu conto pelo menos dez edições diferentes de H.P. Lovecraft que saíram nos últimos dois anos, não encontro uma única edição em português de contos de Everil Worrell ou Mary Elizabeth Counselman

São questões complicadas. A quem importa conhecer essas histórias? Se elas fossem publicadas, as pessoas deixariam de comprar um clássico conhecido para se debruçar sobre um livro antigo mas que, em termos de publicação, é uma novidade? 

A crítica aqui não está somente nas editoras, mas nos consumidores também. É necessário sair do convencional. É preciso largar a velha fala de "nada no terror me assusta" se você segue consumindo os mesmos dez filmes e livros os últimos 40 anos. É necessário demonstrar interesse, sair imediatamente e urgentemente do lugar comum de que tudo que é novo é ruim. 

A cadeia do livro é bastante complicada. Por um lado, temos autores brasileiros com dificuldades imensas para que suas histórias sejam conhecidas porque o interesse todo está numa base já conhecida e que tem um marketing forte vindo de fora; por outro, conhecer histórias que foram publicadas há tantos anos e que não possuem edições atuais é um risco às editoras; por outro ainda, a corrente é muito frágil entre o leitor e a vontade de ler, ao ter o dinheiro para investir em suas leituras, o tempo necessário. O produto livro, no Brasil, também é um produto que sofre uma série de boicotes

Esse texto não é um texto de respostas, é um texto de questões. A famosa "provocação". É um texto de opinião, mas tenho uma recomendação.

Eu recomendo que você, leitor, abra seu coração e sua mente. Filtre seu gosto, atinja o ponto certeiro do que te interessa, e busque essas leituras, busque esses títulos, descubra o que mais há por aí, e recomende o que gostar. Você pode se surpreender, encontrar livros que falem diretamente com você, e ajudar a que mais pessoas conheçam coisas novas, diferentes do que é lido e relido todos os dias. Experimente sempre. 

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Ahhhh, obrigada pela menção! ♡

    E concordo com tudo. Veja quantas publicações de editoras diferentes nós tivemos de Orwell, enquanto outros autores clássicos estão ainda na condição de inéditos. E não é questão desprezar o trabalho de Orwell, mas de abrir o leque para conhecermos mais autores e, principalmente autoras.

    Muitas vezes esses nomes saem por editoras menores ou por financiamentos coletivos que muitos acabam não conhecendo porque não fazem parte do mainstream.

    ResponderExcluir

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram