O azar do acaso: Lugares Escuros, de Gillian Flynn


Gosto muito da escrita da Gillian Flynn. Como muitos, comecei com Objetos Cortantes por causa da série, e aí meu segundo livro foi O Adulto, que preciso reler, e é seu flerte mais próximo com o horror convencional. Ano passado decidi encarar Garota Exemplar, livro e filme (e até escrevi um pouco sobre ele aqui). Dessa vez, precisando de algo a mais a que voltar minha raiva e minha frustração (ler e assistir as notícias diariamente tem tornado cada dia pior), escolhi o único que faltava: Lugares Escuros (com trad. de Alexandre Martins).

Sobre o livro

Eu tenho uma maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão. Corte minha barriga e talvez ela escorra para fora, viscosa e escura, e caia no chão para que você possa pisar nela. É o sangue dos Day. Há algo de errado com ele. Nunca fui uma boa menina e piorei depois dos assassinatos.

No livro, Libby Day é a única sobrevivente de um massacre que acabou com sua família. As únicas pessoas que restaram foram seu pai, Runner, um sujeito horrível, e seu irmão, Ben, que foi condenado culpado pelos assassinatos de sua mãe e suas irmãs. Ao conhecer um grupo que se denomina Kill Club e é fascinado por true crime, Libby passa a duvidar da condenação de seu irmão, e passa a querer encontrar respostas. Nessa jornada por uma ladeira íngreme, cheia de buracos, um emaranhado de tristeza e doses cavalares de azar e tragédia, Libby acabará descobrindo muito mais sobre sua família que pensava saber. 

Sempre que possível, Libby profetizava destruição.

Libby é uma típica personagem da Flynn: seu caráter é duvidoso, ela está quebrada, cheia de cicatrizes, passou por situações incomuns e se tornou uma adulta "extremamente detestável". Não consegue se ligar a ninguém, vive com problemas com dinheiro, quer ignorar seus problemas mas eles constantemente batem a sua porta. E, ao mesmo tempo, percebemos todas as vias que a levaram até ali, sabemos do massacre de sua família, a dor de estar convencida de que foi seu irmão quem assassinou os Day, passar todos esses anos sozinha. É difícil gostar de Libby Day, mas também é difícil julgá-la. 



É, na verdade, uma personagem fascinante. Muito humana, cheia de defeitos, com um passado horrível. É interessante acompanhar sua jornada, descobrir, aos poucos, o que houve realmente naquele dia.

Flynn consegue segurar bem o mistério. As peças são dadas devagar, e conforme elas vão se encaixando, maior é a vontade de chegar ao final do livro e descobrir o que realmente aconteceu. Conhecendo os outros livros da Flynn, sabia que tinha alguma chave oculta em algum lugar. 

A construção da narrativa é muito interessante também. Os capítulos são intercalados: Libby, nos dias atuais; Patty, a mãe, em 1985; Libby novamente; Ben, em 1985. Os capítulos de Libby são narrados em primeira pessoa, os capítulos de Patty e Ben são narrados em terceira: o narrador nos concede acesso em primeira mão do que houve no dia dos assassinatos, mesmo que Libby não se lembre deles, mesmo que Patty esteja morta, e mesmo que Ben não queira falar sobre aquele dia. É através desses relatos, inclusive, que vamos descobrindo junto de Libby a verdade, com Flynn nos conduzindo às vezes para mais perto, às vezes para mais longe. 

Acho que essa intensidade de sentimentos prejudicou um pouco o final do livro para mim. Eu estava muito imersa, muito absorta naquele mundo, e quando a resolução chegou me pareceu apressado, um pouco anticlimático até, mas considero um problema meu de ter ido com muita sede ao pote. Não acho que seja um problema da Flynn.

Eu supunha que tudo de ruim no mundo podia acontecer, porque tudo de ruim no mundo já havia acontecido.

E Libby é somente a ponta do iceberg de toda a questão envolvendo a família Day. Ela é a sobrevivente, e as atenções estão voltadas a ela, mas os outros personagens são tão interessantes quanto ela. Conhecer a história da família de Libby é fundamental para compreender um ponto chave do livro: o azar.


No dia do assassinatos, outros acontecimentos foram arrebatadores para a família Day: Ben, que era um garoto solitário e gostava de heavy metal, foi acusado de ser satanista e ter abusado de uma garotinha na escola. Junto da denúncia da criança, surgiram outras quatro alegando que ele as molestara. Ben realmente estava envolvido com um pessoal barra pesada, e remontando os acontecimentos daquele dia percebemos que tudo convergiu para que o pior acontecesse. 

Toda manhã Patty se ajoelhava dolorosamente no tapete gasto junto à cama e rezava, mas, na verdade, era uma promessa: Hoje eu não vou gritar, não vou chorar, não vou me encolher em posição fetal como se esperasse que um vento me derrubasse. Hoje eu vou aproveitar o dia. Talvez conseguisse não ficar amarga, ao menos não antes do almoço.

Patty é uma mãe esforçada e desgastada e que não aguenta mais, prestes e perder todas as estribeiras a qualquer momento. Cuidando de quatro filhos, sem apoio do (ex)marido, com uma fazenda indo à falência de forma rápida e constante, se sentindo um fracasso todos os dias. Quando os acontecimentos daquele dia explodem, Patty fica perdida sem saber o que fazer, desesperada, tentando encontrar uma solução em meio ao caos. Sua família e sua vida estão ruindo.

Gosto da forma como, casualmente, Flynn aborda os temas do pânico satânico dos anos 1980, de algo muito atual que são os clubes de aficionados em true crime, essa exposição da mídia com sobreviventes de acontecimentos trágicos, tudo isso pincelando vez ou outra de forma sutil. Gosto como o azar do acaso é talvez um dos personagens principais do livro e como ele rege todos os acontecimentos do fatídico dia dos assassinatos dos Day.

Sobre a adaptação

Dirigido e roteirizado por Giles Paquet-Brenner a partir do livro da Flynn, a adaptação de Lugares Escuros foi lançada em 2015 e conta com Charlize Theron como Libby e Nicholas Hoult como Lyle, o jovem do Kill Club que encontra Libby e a inicia nessa busca pela verdade.


O filme é bem próximo do livro, e nesse sentido merece suas honras. Os momentos do passado são também intercalados com os dias atuais de Libby, e acompanhamos as descobertas dela como no livro. Mas, de certa forma, isso faz com que a adaptação fique um pouco bagunçada. Como livro, funcionou muito bem. Como filme, pareceu apressada. Alguns detalhes importantes sobre a mentalidade de Patty e Ben ficaram de fora, o que talvez atrapalhe um pouco compreender melhor as decisões desses personagens ao longo da narrativa. Mas algumas escolhas foram interessantes. 

Comparado aos outros trabalhos de Flynn adaptados ao cinema e à TV, não foi dos melhores. Mas é bem razoável, e uma boa complementação depois que você já leu o livro. 

O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming Starzplay.

 


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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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