Esfinge, de Coelho Neto


Estava esses tempos lendo alguns contos do livro Medo Imortal, da Darkside Books, cuja intenção é reunir contos assustadores dos criadores da Academia Brasileira de Letra (já falei um pouco sobre uma dessas pessoas, Júlia Lopes de Almeida, aqui) e me deparei com um nome interessante: Coelho Neto. No livro temos apenas um ou dois contos do autor, mas a apresentação dele me despertou uma curiosidade imensa. Lá dizia que uma das obras de Coelho Neto era considerado o Frankenstein brasileiro. Eu não poderia perder tempo.
Por sorte encontrei em ebook por uma edição da Vermelho Marinho e Estronho, e como já conhecia a qualidade dessas edições resolvi ler por ela mesmo. A editora Legatus também possui uma edição muito bonita que ainda pretendo adquirir, já que fiquei completamente fascinada pelo texto.

Coelho Neto foi um autor nascido em fevereiro de 1864, falecido em novembro de 1934, que teve uma obra prolífica e interessante, vagando entre diversos gêneros e diversos tipos de escrita: foi cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo. Abolicionista, professor, político iniciou sua formação na medicina mas logo trocou pelo direito, e não chegou a se formar. Foi votado como "Príncipe dos Prosadores Brasileiros" em uma votação que aconteceu em 1928, pela revista O Malho, mas logo virou vítima do ostracismo quando uma campanha ferrenha dos modernistas combatia sua escrita. 

Hoje pouco encontramos do trabalho de Coelho Neto, mas foi autor de mais de 20 livros, entre livros de contos, crônicas e romances. Em seus anos de escrita, escreveu sob diversos pseudônimos: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés (e nota-se uma boa quantidade de nomes de personagens de Shakespeare, o que demonstra alguns interesses do próprio Coelho Neto). 

Esfinge foi publicado em 1908, e acompanhamos uma história de terror, mistério e fascinação se desdobrar ao longo de suas pouco mais de 120 páginas. Ali, conhecemos uma pensão, no Rio de Janeiro, que abriga os mais diversos tipos de hóspedes sob o comando de Miss Barkley, uma mulher firme e rigorosa, que mantém a todos na linha, mas tem suas sensibilidades, de sua forma. Um desses hóspedes é James Marian, um inglês considerado extremamente excêntrico, principalmente por aparentar ter um corpo masculino, enquanto seu rosto guardam traços de feminilidade. 

Por causa disso, e por ser muito reservado, Marian às vezes é alvo de zombarias dos outros hóspedes da pensão. Tudo por suas costas, claro.


Nosso narrador é um dos moradores da pensão, o único que se aproxima um pouco mais de Marian e é capaz de conhecer alguns de seus segredos mais profundos. Marian certo dia se aproxima deste jovem e lhe pede que faça um trabalho: traduza para o português um livro que esteve escrevendo, sua própria história. Mas a narrativa que o narrador apresenta enquanto efetua a tradução é insólita e estranha — ao que ele julga ser um escrito de ficção de Marian. 

A partir desse ponto entrarei em spoilers, então se você prefere ler a obra sem saber nada além da sinopse é melhor parar por aqui.

Bom, conhecemos a vida de Marian desde seu nascimento. Descobrimos que ele viveu todos os anos de sua vida como uma pessoa reclusa, sem conhecimento do mundo exterior, apesar de saber de sua existência. Inicialmente havia com ele uma governanta e um homem chamado Arhat, seu mestre e protetor. Mais adiante, após a morte da governanta, dois servos são enviados para ajudarem Marian já em sua adolescência: um jovem rapaz e uma moça. Marian narra uma vida muito calma e ociosa em seus escritos, indo a presença de Arhat uma vez por semana, mais ou menos. Quando, certo dia, encontra o homem morto em sua cripta. 

Marian acaba entrando em uma espécie de coma logo após esse encontro, e quando acorda descobre que Arhhat quer conversar com ele. É nesta conversa que sabemos como Marian nasceu, e porque essa questão do corpo masculino e rosto feminino é tão importante para a história. Arhat criou James Marian a partir de suas crianças que foram mortas em frente a sua casa. O garoto, com o tórax destruído, e a garota, com as pernas perdidas. Arhat utilizou dois corpos mortos para criar um com vida. Desde então, Arhat tem cuidado de James Marian e feito com que ele se desenvolvesse da melhor forma possível.

Aqui, diferente de Frankenstein, a Criatura não é abandonada por aquele que a criou. Arhat permanece com Marian até os seus últimos suspiros, o guiando, e deixa uma quantia em dinheiro para que ele possa viver confortável, além de tê-lo ensinado tudo sobre o mundo lá fora, conceitos básicos de como viver e conversar e guardar bem o seu segredo.


A ciência também não é um ponto tão importante na criação de Marian. Ele foi criado pois Arhat viu duas crianças mortas em sua rua, em Londres, mas não teve nenhum grande desejo de copiar deus. A alma, aqui, é mais importante que a ideia de ciência e dar a vida através dela. É através da alma também que se dá o receio de Arhat, que teme por Marian, já que ele tem tanto o corpo de um homem quanto o de uma mulher. Qual deles seria mais forte, afinal? Que subjugaria o outro? 

Essa é outra escolha muito interessante de Coelho Neto em sua narrativa. Há uma sensibilidade na forma como ele deixa ao gosto de Marian suas preferências. É por isso que Arhat escolhe dois servos para ele, para que ele desenvolva sozinho aquilo que o fará sentir amor e outros sentimentos. E Marian, de início, acaba sentindo algo pelos dois; depois, sente algo mais forte pela moça. Após a morte de Arhat, Marian parte para outros países, até chegar em Estocolmo e se manter na casa de uma família nobre como convidado. Lá, há um casal de gêmeos, e é lá que Marian descobre o amor de sua vida: o rapaz.

Foi em Estocolmo que senti a minha desventura, amando pela primeira vez e esse amor... esse amor só podia gerar-se em alma feminina. 
Assim... é minha irmã a vitoriosa em mim. Acolhido carinhosamente na intimidade de uma família nobre, cujo brasão rememora séculos, achei nos jovens representantes dessa casa augusta os melhores amigos que se me têm deparado. 
Eram gêmeos e lindos! O amor entrou comigo no coração virginal da donzela; era, porém, ao mancebo que minha alma se dedicava, ao mancebo que fizera de mim o confidente do seu amor.

James Marian habita esse ponto bisexual, com "duas almas" dentro de si, um corpo masculino e um rosto feminino. Algo que sem dúvida era pouquíssimo explorado no início do século XX, escrito por um autor renomado, do qual esse livro não trouxe nenhuma ruína. E é interessante observar isso, a coragem de Coelho Neto a tratar seus temas. James Marian é chamado de lindo e belo por todos os membros da pensão. Apesar de algumas zombarias, até mesmo existem personagens progressistas na trama que o defendem quando este não está presente. Marian não é uma aberração, é um caso de ciência para nosso narrador.

E o grande triunfo do romance, além de todos os pontos que disse aqui, é que o narrador não fica atormentado pela história que leu. Claro, acha tudo muito estranho, quer conversar com alguém sobre aquilo. Mas quando se encontra com Marian novamente não o trata como monstro. Trata-o com a mesma cordialidade como sempre o tratou. O que enlouquece nosso narrador é o fato de ter visto Marian e descobrir, logo depois, que este estava em um local completamente diferente. A loucura nada tem a ver com a figura do homem misterioso, e sim com essa habilidade sobrenatural que fez nosso narrador duvidar de sua sanidade, enquanto todos afirmavam que era impossível ele ter visto Marian. 

Mas a dúvida, meu Deus! A dúvida, que há de ser a minha eterna companheira, a dúvida torturante, ou melhor: a Certeza, que eu nunca provarei aos que me alijaram entre loucos, da verdade do incidente daquela tarde, a certeza horrível da visita de James Marian, da sua presença no meu aposento, do seu pedido, da entrega dos livros e dos originais, da sua partida, do rumor dos seus passos na escada... tudo, tudo! Essa Certeza, meu Deus!... Loucura?

Ler esse livro foi como sentir um pouco de justiça sendo feita contra todos os terrores que a Criatura de Frankenstein passou sozinha. James Marian se saiu bem, teve um apoio, prosseguiu. É um alívio, de certo modo. 

Esfinge se tornou uma das melhores leituras feitas esse ano. A narrativa é boa, mesmo com as palavras difíceis de Coelho Neto, uma história interessante, com elementos do Brasil do início do século XX, com uma boa dose de horror e calafrios. Um livro que infelizmente não recebe tanta atenção por uma picuinha de quase cem anos atrás que acabou com a carreira de um escritor, apagou ele de diversas possibilidades. Seu nome hoje é pouco lembrado, e seus livros nunca estiveram presentes em livros didáticos. 

Li por aí que Esfinge era uma das raras contribuições ao terror dos autores brasileiros do final do século XIX e início do XX e devo dizer que não, não é. Houve uma produção de escritos de terror no Brasil e ainda há. O terror é um gênero rentável, as pessoas sempre sentiram essa vontade e curiosidade mórbida. O que acontece é que a história busca enterrar alguns desses autores e, pior, algumas dessas histórias não se encaixam no terror convencional. O que, é claro, não faz com que elas não sejam histórias de horror e terror. 

Pouco antes de começar a ler o livro meu amigo Karl postou uma ilustração de James Marian em seu instagram, vocês podem ver aqui: @karlfelippe.

Compre os livros:


Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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