As Lembranças do Porvir, de Elena Garro


Meses atrás li Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel (tradução de Monica Maia), para um clube de leitura que participo. Foi meu primeiro contato com o realismo mágico e fiquei fascinada. Achei tudo muito incrível, como a mágica é usada no cotidiano em pequenas doses. 

É como se a vida fosse mágica por si mesma, e não precisasse de um mundo de feitiçaria e fantasia para que esses pequenos milagres acontecessem. Como se tivéssemos um pouco de mágica em cada um de nós. As dores do cotidiano, como as guerras e as revoltas sociais, tão presentes na América Latina, que é o principal cenário do Realismo Mágico, são ofuscadas pela magia e, até, pelo amor. 

Não que elas não existam, elas estão lá. E são terríveis, e causam traumas, e geram assassinatos e terrores reais, e tudo isso aparece em algum momento no texto. Mas há uma luz, há pequenas situações que nos trazem acalento. E há também os problemas pessoais, tristezas e dores únicas de cada ser humano.

No livro de Esquivel nós acompanhamos a vida da jovem Tita e sua família. Por ser a mais nova, ela teria que ficar para sempre cuidando de sua mãe até que ela morresse e não poderia se casar. Quando se apaixona, então, a mãe cede a mão de outra filha para o homem que está apaixonado por ela. Desde esse ponto, acompanhamos os desdobramentos desses amores impossíveis e suas consequências, das lutas e dores dessa família. 

Além da história, o livro é cheio de tradições e receitas. Cada começo de capítulo há uma receita, e cada capítulo corresponde a um mês do ano. Foi uma experiência incrível. Li um pouquinho todos os dias antes de dormir e era ótimo. A relação de Tita com a comida, com ela mesma, a forma como o livro se desenvolve, eu achei uma leitura muito agradável e interessante (com uma ou outra exceção, mas no geral, muito proveitoso).


Esse livro já fazia parte do meu momento de conhecer mais de autoras latino-americanas, então embarquei em outras possibilidades. A capa de As Lembranças do Povir já tinha aparecido para mim em stories e tweets sobre leituras, e fiquei muito interessada desde seu título. Resolvi comprá-lo esse mês e conhecer um pouco mais sobre ele. 

As Lembranças do Povir, de Elena Garro, foi lançado no Brasil pela editora Arte & Letra, com tradução de Iara Tizzot. O livro acompanha a história de uma cidadezinha do México, Ixtepec, dominada de forma violenta e assustadora por um general, Francisco Rosas, e seus soldados. Ao longo da história somos apresentados a uma série de personagens que dão vida à narrativa e à própria cidade.

Dentre esses personagens temos a família Moncada, que permanece como peça fundamental durante toda a história. Além deles, temos a casa das queridas, que é o prostíbulo da cidade; os amigos dos Moncada, a trupe do general, acompanhados de suas próprias queridas; e um jovem que chega repentinamente no local, procurando algo. Cada um desses núcleos age como engrenagens no desenvolvimento do livro. A própria cidade é um personagem. Narrado em primeira pessoa, como um livro de memórias, a cidade é quem nos conta o que aconteceu no povoado de Ixtepec, com saudade e com pesar.

Dividido em duas partes, na primeira acompanhamos a chegada desse jovem, Felipe Hurtado, que chegou sem que ninguém soubesse de onde, e parece ter uma relação passada com a querida do General Rosas, Júlia. Na segunda parte, temos um foco maior sobre os moradores da cidade e as formas que encontram de resistir ao comando rigoroso e sanguinário de Rosas.

"Nesses dias eu era tão desgraçado que minhas horas se acumulavam informes e minha memória se converteu em sensações. A desgraça como a dor física iguala os minutos. Os dias se convertem no mesmo dia, os atos nos mesmos atos e as pessoas em um só personagem inútil. O mundo perde sua variedade, a luz se aniquila e os milagres ficam abolidos. A inércia desses dias repetidos me deixava quieto, contemplando a fuga inútil de minhas horas e esperando o milagre que se obstinava em não se produzir. O porvir era a repetição do passado. Imóvel, deixava-me devorar pela sede que corroia minhas esquinas. Para romper os dias petrificados somente me restava a miragem ineficaz da violência, e a crueldade se exercia com furor sobre as mulheres, os cachorros de rua e os índios. Como nas tragédias, vivíamos dentro de um tempo quieto e os personagens sucumbiam presos nesse instante parado. Era em vão fazerem gestos cada vez mais sangrentos. Tínhamos abolido o tempo."

Júlia é uma personagem que será mencionada ao longo da narrativa e gostaria de falar dela, sem cair em nenhum spoiler, porque mesmo que suas passagens sejam muito curtas, sua presença na história é como a de um fantasma. A cidade inteira crê que tudo de mau que lhes acontece é culpa de Júlia. De certa forma, eles conseguem ver que a culpa é do próprio General, mas é a Júlia que eles soltam aos quatro ventos que seja a culpa. Por Júlia não fazer todas as vontades do General, já que ele faz todas as suas; por Júlia não ser mais submissa aos seus caprichos. E isso é muito interessante. Veja bem, culpando Júlia, eles não estão desrespeitando exatamente a figura do General. De forma inconsciente eles jogam a culpa em uma mulher por não terem coragem ou forças para fazer algo contra a real pessoa por trás do domínio da cidade. 

Júlia me fez refletir muito sobre a culpa feminina. Ao mesmo tempo, outra personagem passa a receber a mesma dose de culpa, e o ciclo se repete com as duas. É como se todas as desgraças que se abatessem em Ixtepec fosse culpa dessas duas personagens, e é interessante observar como os outros personagens reagem a essa culpa.
 

O livro não tem um final feliz, e eu acho que seria melhor deixar essa informação aqui. Ele é cheio de detalhes sobre a situação política após a Revolução Mexicana, e se passa durante a Guerra Cristera, no final da década de 1920. Passagens sobre política, cultura e o social do México naquele momento estão colocados ao longo da narrativa tanto para contexto, quanto como crítica. Para não se ficar muito perdido nesses detalhes, caso você se incomode, recomendo uma leitura rápida na wikipedia sobre a Revolução Mexicana e a Guerra Cristera.

Apesar de todas as tristezas, e graças a narrativa belíssima da cidade, ares e povo de Ixtepec, a leitura acaba sendo muito agradável. Triste, mas interessantíssimo e instigante.

Elega Garro foi uma escritora mexicana importantíssima em seu período, com produções entre os anos de 1960 e 1980, mas que não tinha tido uma edição de obra sua em português até então. As Lembranças do Povir foi escrito quatro anos antes de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e é considerado a obra inaugural do Realismo Mágico. Elena Garro não gostada do termo, o achava comercial demais, mas gosto dessa divisão. Há algo muito potente e visível nas narrativas de Realismo Mágico, e esse ponto fortíssimo habita as terras de Ixtepec e as palavras de Garro em As Lembranças do Povir, um livro belíssimo. 

Compre o livro:

Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Tô adorando essas resenhas de livros raros e/ou pouco conhecidos! 🖤

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    1. Obrigada, amiga <3 tem sido incrível vasculhar por aí, atrás de nomes que eu não conhecia.

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