A Última Névoa, de María Luisa Bombal


Tenho me interessado bastante por conhecer mais da literatura latino-americana. Isso surgiu há uns anos atrás, quando li Mariana Enriquez, mas só foi ganhar força realmente esses meses, após uma ou duas leituras que fiz.

A questão é que há muito da literatura da América Latina que flerta abertamente com a especulação, com o fantástico, com o terror — e que, nem sempre, são inseridas nesses gêneros por pesquisadores e fãs. Focando no terror, mesmo no Brasil há uma dificuldade de perceber os tons de horror e fantástico em algumas obras feitas aqui. Ou, ainda, há um completo desinteresse por autores que, a essa altura, deveriam ser canônicos na história do gênero. 

De certa forma eu compreendo. O passado brasileiro é complicado. Podemos encontrar um autor com uma obra incrível feita na virada do século XIX para o XX e descobrir que ele era pró-monarquia, racista, entre tantas outras coisas. Mesmo os inserindo em um contexto próprio, ainda assim não é uma escolha simples: e aí, como recomendamos essas obras? Por outro lado, conhecer obras canônicas é importante para conhecer a produção anterior, as tendências do passado. Sobre o que os autores de terror e fantasia da virada do século estavam escrevendo? O que eles já fizeram? Como é a tradição do gênero no país? 

E, outro ponto: como é a tradição do gênero em outros países? Países que beberam diretamente da fonte das tendências norte-americanas e inglesas e conseguiram criar algo novo, algo único. Insisti em textos passados sobre a necessidade de conhecermos esses textos para aprender com eles, não lermos só os clássicos dos clássicos.


María Luisa Bombal (1910-1980) se encaixa nessa insistência. Chilena, a autora teve uma carreira muito rápida na literatura, mas frequentava círculos de efervescência cultural importante. Um dos livros que encontrei dela (um dos dois únicos publicados em português de uma autora chilena e importante, é esse meu ponto), A Última Névoa, possui um trecho do prefácio escrito por Jorge Luis Borges para a edição norte-americana da autora. 

O prefácio começa da seguinte forma: "... Hoje, em Santiago do Chile ou em Buenos Aires, Caracas ou Lima, quando se nomeiam os melhores, María Luisa Bombal jamais é esquecida". E termina com "bem como sou grato pela oportunidade de apresentar aos leitores desta 'outra' América a minha grande amiga e magnífica escritora chilena".


A Última Névoa foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e já despontava sinais de uma literatura que faria muito sucesso entre os anos 1940 e 1950, e que é recuperado hoje. Há um quê de Shirley Jackson na forma como María Luisa Bombal escreve suas personagens e suas histórias, antes mesmo que Jackson escrevesse seu primeiro livro — e digo isso com muito respeito a Shirley Jackson, que é uma favorita para mim. Mas também há uma forte presença dessa América Latina. Bombal não usa regionalismos em A Última Névoa, mas tem algo em suas histórias que fazem sentido se passarem no Chile ou na Argentina — e nesse ponto, vemos o eco em Mariana Enriquez: as ruas intrincadas de Buenos Aires, o calor típico de um verão abafado no hemisfério sul.

A edição que decidi comprar é da Editora Difel, que suponho não existir mais. Lançado em 1985, com tradução de Neide T. Maia González, comprei pela Estante Virtual. O livro é curto, com cinco contos e um prólogo escrito por Amado Alonso. Os contos são "A Última Névoa", "A Árvore", "Tranças", "O Secreto" e "As Ilhas Novas".


Em "A Última Névoa", uma das histórias mais conhecidas de Bombal, uma mulher se casa com seu primo, viúvo, e precisa viver à sombra de sua antiga esposa: seu cabelo, seus gestos, toda a sua vida; até o dia em que encontra um homem misterioso e cede ao desejo, sem discernir mais o que é o real e o imaginário. Já em "A Árvore", uma jovem se casa com um homem muito mais velho, acreditando que há ali uma perspectiva de amor entre ambos, mas acaba se sentindo mais e mais solitária. "Tranças" foi o conto de que menos gostei, que narra um tipo de poder feminino presente nos cabelos das mulheres — para a década de 1930, entretanto, imagino seu contexto e suas intenções, afinal uma das marcas principais do trabalho de Bombal era essa diferença entre os homens e mulheres. "O Secreto" tem passagens incríveis, e conta a história de um tipo de naufrágio para além das profundezas do oceano — curto e extremamente potente, um de meus preferidos. E em "As Ilhas Novas", há novamente uma história de amor e uma protagonista que esconde um segredo terrível, e esse é, talvez, meu conto favorito do livro. 

Talvez a verdadeira felicidade esteja na convicção de que se perdeu irremediavelmente a felicidade. Então começamos a movimentar-nos pela vida sem esperanças nem medos, capazes de fruir por fim todos os pequenos prazeres, que não mais os perduráveis.

No geral, o livro A Última Névoa se encaixa naquele espectro de "contos estranhos escritos por mulheres latino-americanas" em que coloco também Mariana Enriquez, Silvina Ocampo, Samantha Schweblin e Giovanna Rivero. Me lembro que quem cunhou esse termo para mim foi a Michelle Henriques (do blog Michelle das 5 às 7 e minha companheira de The Witching Hour), e acho que faz muito jus a essa literatura. Eu os encaixo também dentro do terror, o terror fantástico e estranho da vivência e do cotidiano cercado por um encanto e um fascínio e um medo pelo abjeto. 
 
Temos uma mania de considerar o terror (e o gótico, sim) como gêneros imutáveis, a partir de regras criadas ainda no século XX, que já passaram por mudanças drásticas e continuam passando todos os dias. Consideramos muito as regras do terror que vem de fora e esquecemos o terror que mora aqui, o absurdo como terror, o terror latino, intrinsecamente diferente do terror norte-americano ou inglês. "Estes escritos não se encaixam em nenhum gênero" quando sim, se encaixam. Flertam de forma aberta com o que sabemos: é dramático, fantástico e é horrível e é, afinal de contas, uma história de terror. 

O livro, infelizmente, só se encontra no Estante Virtual, em sebos, nas edições da Editora Difel e da antiga Cosac Naify (ou, claro, na versão espanhola). Mas é um livro excelente que, se vocês tiverem a oportunidade de ler, é uma jornada interessante. 

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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