Leituras de Março de 2021

Detalhe de Autumn Leaves, de John Everett Millais


Este foi outro mês que não consegui compartilhar muitas coisas por aqui. Até compartilhei algumas coisas no instagram e no twitter (@capirojesca nos dois), mas não tive tempo (e, de coração, não tive muita vontade também) de escrever por aqui. Eu percebi que tem meses que simplesmente não vai, e tudo bem também.

Mas comecei abril com outros sentimentos. Quero voltar a compartilhar mais. Gosto muito desse espaço, e acho que já tirei as férias que queria. Então, o texto que prometi sobre livros mais teóricos do terror na postagem sobre as leituras de fevereiro, que eu ia escrever agora em março, escreverei em abril. 

Enfim, fiz muitas leituras incríveis esse mês, saí um pouco do conforto e li coisas que queria ler a muito tempo, além de ler coisas que nem achei que me interessariam tanto. Vou fazer uns breves comentários por aqui.

Lidos


Os Planetas  Exorcismo  Horror: A Literary History  Macbeth  A Noite do Tigre  Como Água para Chocolate  A Casa Misteriosa  O Grande Gatsby  Orlando

Bom, começando com Os Planetas, livro de Dava Sobel (com tradução de Carlos Afonso Malferrari). Peguei essa dica da querida Rita Zerbinatti, que tem um dos blogs que mais gosto de acompanhar. Aliás, se você quiser conhecer os blogs que acompanho, é só visitar a aba do blog: write like a girl. Em Os Planetas, Dava Sobel traça paralelos entre a história da astronomia (de onde os nomes dos planetas surgiram, quando foram descobertos), com a cultura. Então temos o capítulo de Mercúrio, que fala sobre a mitologia, o capítulo do Sol, que fala sobre o gênese, o capítulo da Terra, sobre geografia, e etc. Foi um livro muito gostoso de ler. Como foi lançado em 2006 ele pode estar um pouco desatualizado, mas nada que não dê para correr atrás por meio de notícias e etc. Aliás, se você, leitor, tiver algum canal ou blog interessante para me apresentar sobre astronomia, ciências (exatamente, no geral mesmo) e etc, eu adoraria conhecer. Gosto do assunto, mas sou completamente leiga, e queria conhecer mais. Os Planetas foi a primeira leitura que encerrei em março, já que eu já tinha começado no final de janeiro, ou começo de fevereiro, não me lembro bem. Foram momentos divertidos que passei com esse livro. 

Em seguida terminei de ler o livro Exorcismo, do Thomas B. Allen (com tradução de Eduardo Alves). Esse foi um livro que me surpreendeu muito. Recentemente, em janeiro, li também O Exorcista, do William Peter Blatty (com tradução de Milton Persson), que foi o livro que deu origem ao filme do William Friedkin, e fiquei bastante impactada com a leitura. E, não muito tempo antes, tinha ficado sabendo que a história era baseada em um suposto acontecimento do final dos anos 1940, nos Estados Unidos. Este livro de Allen conta esse caso. Mas, o que me chamou a atenção de verdade, foi o cuidado com que Allen conta essa história. É muito fácil apelar para a fé e para as crenças e forçar uma credibilidade quando se está escrevendo sobre casos reais de possessão e eventos sobrenaturais, mas Allen conta uma história com certa distância, sem ser cético, nota-se que ele crê no que conta, mas não parece algo forçado. E ele tem uma escrita muito gostosa, a escolha de palavras, e esses detalhes me fizeram gostar muito do livro. Allen conseguiu o diário de um dos padres envolvido no caso, e o diário também consta como extra nessa edição, que foi lançada pela DarkSide alguns anos atrás. Recomendo bastante para os que gostam de histórias de possessão, sobrenaturais e que são fãs de O Exorcista. São obras que conversam bastante entre si e é bem interessante observar os pontos em comum.


Horror: A Literary History foi um dos melhores livros que já li sobre a história do horror. Organizado por Xavier Reyes, o livro conta com ensaios sobre cada um dos períodos do terror na literatura, desde o gótico até histórias e tendências contemporâneas. Infelizmente o livro não tem tradução para o português, mas se você compreende um pouco de inglês vale muito a pena. A análise de tendências da literatura de horror ao longo dos anos, as questões levantadas, os livros discutidos, é um livro muito completo sobre como o horror se construiu e se formou, e é um dos meus assuntos preferidos quando penso em história de horror: analisar o processo de transformação do gênero é meu jeito preferido de pensar o terror. Enfim, essa leitura me deixou fascinada, me fez pensar diversas coisas sobre o gênero, e eu deixei tantas notas no texto que, quando fui exportar para meu email pelo kindle, eram notas demais e ultrapassavam em muito o limite estabelecido (então exportei só a metade). Ainda vou fazer um texto só sobre esse livro, que com certeza entrará nas indicações de livros teóricos de horror. Logo menos, neste mesmo blog.

Li Macbeth, do Shakespeare (na tradução de Beatriz Viégas-Faria), para um texto que estava escrevendo. Na época em que fiz teatro durante o ensino médio eu adorava Shakespeare, e acabei topando com as obras dele em outros momentos, ao longo da faculdade de História, e agora trabalhando com o terror acabamos nos encontrando de novo. É um relacionamento duradouro, às vezes esquecido, mas que é sempre gostoso de revisitar. Enfim, Macbeth é uma peça única, né. O peso das escolhas, a ambição, a traição, Lady Macbeth que é uma figura extremamente controversa e interessantíssima... Quero reler e ler algumas outras coisas, aproveitar o embalo. Recentemente tinha (re)lido também A Tempestade, e foi ótimo. Espero pegar ainda outras coisas para ler em breve.


A Noite do Tigre, de Yangsze Choo (com tradução de Aline Naomi) foi outra dessas leituras que me deixou fascinada. Fluida, gostosa, conta a história de uma moça chamada Ji Lin e um garotinho órfão chamado Ren, ambientada na Malaia da década de 1930. O destino de ambos acaba se cruzando por uma série de coincidências (ou destino?), tudo isso interligado por uma antiga lenda chinesa de um homem-tigre. Eu não cheguei a ler o outro romance de Choo, A Noiva Fantasma (que teve até uma série na Netflix), mas depois de A Noite do Tigre quero muito ler. Gostei da forma que Choo escreve e interliga as duas histórias, de Ji Lin e Ren, gostei como ela ambienta tudo, seus cenários, descrições, foi um livro muito gostoso de ler. O final é bem aberto, o que não chegou exatamente a me incomodar, mas eu queria passar mais tempo com aqueles personagens e adoraria uma continuação. O livro foi lançado ano passado pela DarkSide, e recebi ele como parceira da editora. Quero fazer um texto dele sozinho também, gostei muitíssimo do que li.


Li Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel (tradução de Monica Maia), para o clube de leitura que participo, e eu não estava esperando nada do que aconteceu na história. Eu me lembro dos anúncios do filme na TV aberta quando era mais nova, mas nunca foi algo que me chamasse realmente atenção, e nunca procurei saber sobre o que se tratava. Então, comecei a ler, e me deparei com uma narrativa de realismo fantástico, uma autora mexicana, um drama familiar repleto de momentos mágicos e uma história de amor obsessivo e desastrosa. A leitura fluiu muito rapidamente, li um capítulo por dia antes de dormir e foi uma ótima opção para esse tipo de leitura. Tive meus problemas com algumas coisas, não gostei de todas as escolhas da autora, mas acho que foi um dos primeiros livros de realismo fantástico que li. Anteriormente, só tinha lido Casa dos Espíritos, da Isabel Allende, e gostei muito dos elementos. Me fez ter vontade de procurar outros livros do tipo, coisa que pretendo fazer em breve. Ainda não assisti ao filme, mas também pretendo assistir logo menos. 

A Casa Misteriosa é um livro curto, de Charles Dickens, que se uniu a Wilkie Collins, Elizabeth Gaskell e Adelaide Anne Procter. Foi publicado na revista literária do Dickens, a Household Words. O livro tem uma forma interessante: Collins escreveu o primeiro capítulo, e escreveu junto de Dickens o segundo e o último, Gaskell escreveu um dos capítulos do meio, e Adelaide Anne Procter escreveu um poema, também no meio do livro. A história é a seguinte: uma senhora muito distinta se muda para uma casa, e a casa de frente está desocupada. Certo dia ela vê algo dentro do local e se sente muito curiosa para descobrir o que há com aquele casarão abandonado. A senhora sofre de uma disputa de atenção de um admirador e de seu mordomo, e ambos se lançam na empreitada de descobrir, afinal, qual a história do lugar. Então, cada capítulo é uma descoberta sobre essa casa misteriosa. Eu gosto muito do Charles Dickens, e nunca tinha ouvido falar dessa empreitada dele, e apesar de saber que ele flertou muitas vezes com o gótico e o horror do XIX, me chamou muito a atenção essa investida. Wilkie Collins é o autor de um dos grandes suspenses do período, também, chamado A Mulher de Branco, que aqui no Brasil foi lançado pela Pedrazul Editora (responsável por muitas edições de histórias góticas por aqui, como Mistérios de Udolpho e O Monge). O livro é bem interessante, apesar de não ter gostado tanto da história da Elizabeth Gaskell, que achei bem problemática. Mas, no contexto geral, é interessante. Principalmente pelo esforço de unir esses autores. A única edição em português que encontrei é de uma editora independente chamada Grotesco e Arabesco, com tradução de José Sarmento. 

Ler O Grante Gatsby do Fitzgerald, estava nos meus planos há muito tempo. Vejo muitas pessoas que admiro comentando sobre ele (principalmente minha amiga muito querida, Luiza), e a Gabi Barbosa fez uma série de postagens nos stories sobre o livro que me fizeram ter ainda mais vontade de ler. Então, no mesmo esquema de A Casa Misteriosa, lendo um pouquinho todos os dias antes de dormir, tive essa experiência. E foi incrível. Eu gostei muito de ler O Grande Gatsby, o mistério da coisa toda, as motivações dos personagens, o desenrolar da história, o narrador, Nick, com uma narrativa deliciosa contando pra gente as desventuras daquele personagem tão esquisito que é o Gatsby. O primeiro e último parágrafos do livro são de uma intensidade maravilhosa, foi uma leitura muito boa. Li pela edição em ebook da Penguin, com tradução de Vanessa Barbara. Eu gosto muito das edições da Penguin, são acessíveis e muito bem organizadas. Não tem tantos extras, para quem gosta de extras, mas sempre tem uma introdução e notas interessantes (e importantes). Recomendo muito a leitura do texto da Gabi sobre a obra, se vocês quiserem um pouco mais de profundida. Por aqui, só posso dizer que é realmente tudo o que dizem ser, uma delícia de leitura, um retrato acurado dos anos 1920 nos Estados Unidos, uma experiência impactante.


Por último, e de forma alguma menos importante, li Orlando, da Virgínia Woolf (com tradução de Jorio Dauster). Assim como Gatsby, ensaiei e enrolei muito tempo para ler Orlando, e assim como Gatsby, fui surpreendida muito positivamente. Eu o tinha comprado em ebook, mas achei que teria uma experiência melhor com o livro físico e acho que estava correta. Tenho a sensação que alguns livros precisam ser marcados e anotados e grifados, e acho que Orlando foi um desses livros pra mim. Escrito como uma homenagem de Virgínia para Vita, fiquei emocionada em diversas partes e amei todos os momentos da leitura. Orlando é uma personagem cativante, e é muito fácil se conectar com a turbulência de seus sentimentos e pensamentos. Não imaginei que ficaria tão fascinada pela leitura e pela vida de Orlando, mas fiquei, e acompanhar a passagem de tempo, suas amizades, suas mudanças, foi algo incrível. Acho que era o passo necessário para começar a ler outras obras de Woolf, já estou bastante curiosa. Dela, só tinha lido Profissões para mulheres e outros artigos feministas, e já tinha gostado muito. Mal posso esperar para escolher outra obra dela. 

Lendo

Detalhe da arte de divulgação de Gótico Mexicano, de Silvia Moreno-Garcia

Estou lendo atualmente Gótico Mexicano, de Silvia Moreno-Garcia (com tradução de Marcia Heloisa e Nilsen Silva, lançamento recente da DarkSide Books, que recebi como parceira. Quando eu soube desse livro o comprei em inglês, em ebook, para ler, mas logo depois fiquei sabendo da edição em português da DarkSide e resolvi esperar. A edição, como sempre, está lindíssima. Ainda estou muito no começo da história, mas pretendo tirar um ou dois dias para ler o livro inteiro. Quero me sentar e ler até cansar a vista, esquecer completamente do mundo, só com a companhia de Noemí Taboada e os cenários aterrorizantes que se descortinam a sua frente.

Também estou lendo, antes de dormir, dois ou três contos da Júlia Lopes de Almeida, de seu livro Ânsia Eterna. Li alguns contos dela no livro Medo Imortal, da DarkSide, que reúnem contos de autores que deram início à Academia Brasileira de Letras, e li A Falência dela também, além do Ânsia Eterna de Verônica Berta, com alguns contos da autora transformados em quadrinhos. Então, queria muito ler mais alguma coisa de Júlia Lopes. Comecei a ler A Intrusa, e pretendo continuar a lê-lo logo. Os contos de Ânsia Eterna tem elementos de horror, do gótico, de assombro, narrativas interessantíssimas e tristes. Tem sido uma ótima leitura. Já tenho um texto sobre a autora aqui no blog: Medo Imortal: Júlia Lopes de Almeida

Estou também com uma pilha imensa de leitura, e empolgada para ler todos eles. Chegaram dois livros da Editora Nacional, As Cabeças das Pessoas Negras, de Nafissa Thompson-Spires (trad. Carolina Candido) e Decodificada, de Rana El Kaliouby e Carol Colman (trad. M. Paula Coutinho e M. Lourdes Spinola), além de tantas outras leituras que quero fazer esse mês. E, como retornei com aquele sentimento de querer compartilhar com o mundo o que estou lendo e assistindo, aguardem muitos textos ao longo do mês. :)

Compre os livros


Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Eu comprei esse Os planetas quando ele estava em promoção na Amazon por sei lá, 10 conto, acho. ��

    Esse mês eu li um pouco menos do que nos meses anteriores. Sei lá, acho que por seu o mês do meu aniversário e as coisas deram um pouco errado eu fiquei meio empapuçada de leituras. Ainda assim li sete livros, incluindo aí dois quadrinhos, então não foi de todo perdido.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. AMIGA NÃO SABIA QUE TINHA SIDO SEU ANIVERSÁRIO. EU TE DEI PARABÉNS? PARABÉNS SUPER ATRASADO!!!!!

      É, eu comprei Os Planetas nessa promoção também. Vi que aumentou super agora. Eu gostei bastante dele. Não costumo ler tanto sobre ciencia quanto gostaria, então me diverti com ele.

      Eu achei que tinha lido bem menos também. Não percebi que tinha sido isso tudo. Eu tenho lido bastante no kindle antes de dormir, então tem sido bem legal. Mas durante o dia mesmo tenho lido pouco :/

      Excluir

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram