I don't want to live my life again: O Cemitério, de Stephen King



Pet Sematary é um dos livros mais amados entre os fãs de Stephen King. Entre muitos desses fãs, é o livro favorito, lido e relido com afinco ao longo dos anos.  Demorei muitos anos para ter coragem de ler O Cemitério. Tinha uma edição em inglês, poderia ter comprado uma em português há muito tempo, até que comprei a edição em ebook (que saiu pela Suma, com tradução de Mário Molina) e, mesmo assim, deixei ela guardada no kindle durante alguns (muitos) meses.

Eu tenho esse problema com algumas leituras: eu as guardo por um tempão porque tenho certeza que o impacto pode ser grande demais, e nem sempre estou disposta. Às vezes não queremos ser revirados tão profundamente, às vezes queremos só um pouquinho de impacto. No caso de O Cemitério, eu adiei tanto e acabei escolhendo um período não tão bom, mas que veio em boa hora. Antes tarde do que nunca, e se tiver que ser, que seja agora.

Edição de 2001 da editora norte-americana Pocket Books


Li um pouquinho todos os dias antes de dormir. Eu já tinha assistido as duas adaptações (e minha preferida é a da Mary Lambert, sem dúvida), sabia mais ou menos os caminhos tortuosos pelos quais passaria, mas acho que de nada adiantou. Saber o que acontece na história não te prepara para como ela acontece em uma mídia diferente. Apesar de tudo, eu gosto muito da forma que o King escreve, e é sempre como uma pancada seguida de um abraço.

A morte é um mistério, o sepultamento, um segredo.

A história já é conhecida pela maioria: a família Creed se muda para a cidadezinha de Ludlow, no Maine. Composta por Louis, sua esposa Rachel, Ellie, a filha mais velha e seu gato Churchill, e o filho caçula Gage, os Creed são uma família comum que se muda para uma possível vida melhor, após Louis ter aceitado o cargo de médico na Universidade local. Logo que se mudam, conhecem Jud Crandall, um senhor que mora do outro lado da rodovia e os avisa para tomar cuidado com os caminhões que passam direto pela estrada — um conselho que Louis e Rachel deveriam ter levado mais a sério.

Em um feriado de Ação de Graças, o gato amado de Ellie morre atropelado por um desses caminhões. Louis fica preocupado com os sentimentos da filha, que foi mantida cega sobre a morte por sua mãe ter uma relação muito difícil com o fenômeno. Rachel perdeu uma irmã quando era mais nova, e isso a fez se distanciar de qualquer assunto que remetesse ao morrer ou pós-vida. Jud percebe o sentimento do amigo e conta a ele sobre um terreno além da propriedade de Louis, além do "simitério" de animais.



O "simitério" de animais é um local onde as crianças das redondezas enterram seus bichinhos que, em maioria, morreram nessa rodovia, ou de algum acidente comum para animais que são tratados livres em cidades interioranas e rurais. Jud havia levado a família Creed para conhecer o lugar logo depois de se mudarem, o que rendeu uma discussão horrível entre Louis e Rachel. Mas, para além do "simitério", existe um terreno misterioso e sagrado, e é para lá que Jud leva Louis para enterrar Church.

Bom, o terreno trás o gato de volta a vida, mas a que preço? Church não é mais o gato que era antes, mas as coisas são como são, "e um homem planta o que pode... e cuida do que plantou", ou seja: a responsabilidade era de Louis, e ele teria que cuidar do gato e do que fez pelo resto da vida.

Alguns meses se passam com calmaria na vida da família Creed, até que uma segunda tragédia se abate sobre eles: dessa vez é Gage, o caçula, quem morre atropelado por um caminhão. Todos ficam muito abalados, o relacionamento já complicado entre Louis e seu sogro ficam piores após uma cena no funeral. Uma dor terrível que parece insuportável que só acaba se intensificando conforme as horas passam. Mas Louis não quer desistir de Gage, e faz a mesma coisa que fez com Church. E, claro, tudo dá errado.
Vimos a morte ao mesmo tempo como amiga e inimiga.


Eu gosto muito do conto "A Pata do Macaco", do W.W. Jacobs. Além de ser uma ótima história do tipo "cuidado com o que você pede ao universo", é uma excelente história sobre não se mexer com o pós-vida. Trazer gente de volta, depois da morte, nunca é uma boa ideia, e isso desde antes de Jacobs escrever sobre a pata mágica. A morte é um tabu, conversar sobre ela é difícil, imagina reanimar um corpo morto? Através de feitiçaria? É um conjunto ideal para que tudo dê errado (da forma que enxergamos as coisas no Ocidente, é um prato cheio para uma história de terror).

De início eu queria pontuar que não sou a maior fã do Louis. Não fossem as palavras do King, em qualquer outras mãos Louis seria um personagem além do detestável. É terrível a forma como ele se sente em relação a Ellie no início do livro, com raiva; não é muito melhor como ele se porta com a esposa. Apesar de concordar com Louis sobre as questões que Rachel tem sobre a morte, muitas vezes Louis está a um ponto de perder a cabeça com todos. E perde, como era de se esperar.



Mas há um debate muito interessante sobre a morte que permeia o livro, e acho que é disso que se trata. Independentemente de gostarmos ou não dos personagens, é o sentimento que o livro nos traz que faz com que cheguemos ao final arrasados e, ao mesmo tempo, um pouco consolados, de certa forma. Perder alguém é algo universal. O Cemitério conversa comigo, como conversa com você, como conversa com alguém do outro lado do oceano. Se tivéssemos uma terra abençoada (ou amaldiçoada) ao nosso alcance, que trouxesse quem a gente perdeu de volta, não usaríamos? Mesmo sabendo de tudo, como Louis sabia, eu não posso responder com certeza.

Aceite o que está feito e siga o seu coração.


A dor conversa com a gente de diversas formas. E é realmente difícil julgar alguém nessa situação. Não sei se teria caráter o suficiente para não me deixar corromper com o cemitério micmac. E é uma coisa que gosto muito nos trabalhos do King, essa dificuldade, essas barreiras entre o certo e o errado. Ao mesmo tempo que, de forma óbvia, nós temos duas forças lutando pelo controle da situação, uma força benéfica e uma força maléfica, nós temos uma área cinza muito extensa sobre as atitudes dos personagens.

Louis não foi inteligente, mas será que eu seria? Será que eu teria forças para resistir a essa tentação? Oscar Wilde escreveu que ele poderia resistir a tudo, menos a tentação, e a tentação de curar uma ferida tão profunda com uma pá e uma caminhada até o quintal parece uma forma fácil e rápida de resolver as coisas.



Mas O Cemitério não é sobre mim ou sobre você, é sobre uma possibilidade e um "conto preventivo", os perigos da ressurreição, a necessidade de deixarmos os nossos entes queridos irem, independente de como nos sentimos aqui. Não foi a leitura mais fácil que fiz, e esse momento pode não ser o apropriado para ler tanto sobre luto e a morte, mas é compreensível porque Pet Sematary é o sucesso que é. O apelo emocional dele é imenso, e a dor que ele passa em algumas páginas você sente como se fosse com você. E, de certa forma, é.

King escreveu Pet Sematary quando se mudou com sua família para perto de uma rodovia e recebeu o mesmo conselho de um vizinho, que o local era perigoso, e era melhor ficar de olho nas crianças e nos animais de estimação. Pouco tempo depois, o gato de sua filha apareceu morto, atropelado. E dias depois poderia ter sido o próprio filho de King (o próprio Joe Hill). Na introdução da edição em inglês que tenho aqui, publicada em 2001, King comenta como a fala de Jud é dura, de que "às vezes, morto é melhor", e como ela pode fazer sentido no luto. É difícil aceitar o que o universo nos proporciona, mas pedir para que ele nos devolva certas coisas parece pior.

O Cemitério é uma leitura que recomendo fortemente, no momento em que o leitor se sentir preparado para tê-la. Recentemente a DarkSide lançou a Antologia Dark, uma antologia com autores nacionais reimaginando e dando continuidade a algumas histórias do King. Acho que minha preferida é a que dá sequência a O Cemitério. O conto se chama "Creed", e é de autoria da Cláudia Lemes, uma autora consagrada da ficção policial e de suspense brasileira. É um excelente livro para aqueles que gostam de histórias alternativas e são apaixonados pelo King.



Compre os livros:

Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. "a tentação de curar uma ferida tão profunda com uma pá e uma caminhada até o quintal parece uma forma fácil e rápida de resolver as coisas." Taí o resumo de uma frase sobre o livro e filme.

    Sabe que foi o filme que me fez ter traumas de filmes de terror. 😅 Foram anos até assistir um novamente.

    Uma coisa que eu admiro no King é como ele consegue colocar o mistério sobre o mundano, a magia nos lugares mais comuns e ordinários. Nem sempre essa magia é benéfica, mas ela está presentes nos lugares mais inesperados nas obras dele.

    Ótimo texto, Jess! 🖤

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  2. Toda vez que eu vejo o título desse livro em Pt-BR eu penso que alguém perdeu a chance de por "O simitério" no título, hehehe! XD

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