A Noite do Tigre, de Yangsze Choo


Como nossas vidas acontecem? Como elas se conectam com a vida de outras pessoas? Acaso, coincidência, destino?


Me peguei pensando nisso esses tempos, depois que li A Noite do Tigre, de Yangsze Choo, lançado ano passado pela DarkSide Books (com tradução de Aline Naomi). No livro, duas vidas bem diferentes acabam se conectando pela força do acaso e ambos acabam mergulhados em uma missão semelhante.

Ambientado na Malaia, na década de 1930, conhecemos Ji Lin, uma garota que tem uma vida dupla. Ela trabalha como costureira e aprendiz para uma senhora, que também aluga um quarto para ela, e também dança com homens em um salão de dança. Salões de dança são (eram) um lugar onde homens iam para encontrar parceiras de dança, aprender a dançar, matar um pouco a solidão, estar com alguém. Mas são somente isso: um lugar para dançar

Mesmo sendo uma atividade tão inocente, Ji Lin não pode contar o que faz nas suas horas vagas para ninguém, pois poderia ser vista como desonrosa, quase como prostituta (ou basicamente isso). Não é necessário se alongar nessa questão, já que sabemos bem como as coisas funcionam, a visão conservadora predominante no começo do século (e nos séculos anteriores) sobre as profissões de mulheres e como elas deveriam se portar em público — sendo que isso ainda hoje é uma questão. 

Ji Lin é uma personagem interessante, e foi bem interessante acompanhá-la. Ela começou a trabalhar neste salão de dança para conseguir dinheiro e ajudar sua mãe a pagar uma dívida de jogo. Perdeu o pai muito cedo, e cresceu na casa de seu padrasto com seu meio irmão, Shin, menos inteligente que ela mas que pode estudar medicina, que fora seu sonho, porque era o filho homem.

No período em que se passa a história, a Península Malaia estava sob o domínio britânico, então ao longo da narrativa conhecemos alguns personagens ingleses — principalmente personagens que estavam fugindo de alguma coisa de seu país natal. É uma ideia comum de que, conforme o domínio britânico se ampliava, mais fugitivos e prisioneiros eram enviados para as regiões dominadas e colonizadas. Nem sempre era assim, mas havia uma certa quantidade de pessoas que queriam deixar sua vida passada para trás, buscando uma nova vida.



É nesse sentido que alguns dos médicos estão na Península Malaia, como o novo patrão de Ren. Ren é um garotinho órfão, que perdeu seu irmão gêmeo e está acostumado a servir médicos desde que muito jovem, e que adquiriu um excelente senso de medicina e de como curar pessoas. Ren sente muita falta de seu antigo patrão, que morreu lhe deixando uma missão: encontrar o dedo que lhe foi arrancado e enterrar junto de seu túmulo.

Há uma tradição budista que fala que a alma de uma pessoa morta ainda fica do lado de cá, dos vivos, durante 49 dias. E é esse o tempo que Ren tem para encontrar o dedo de seu antigo patrão, que pode ou não estar com William Acton, o homem que Ren foi mandado procurar, quem seria seu novo chefe.

O dedo, ressecado e mantido no sal, foi parar nas mãos de Ji Lin, perdido por um dos homens que foi até o salão de dança para dançar, afirmando que o dedo trazia grande sorte a quem o possuísse. A partir daí temos uma busca pelo dedo desaparecido, lendas malaias e chinesas que incluem um tigre capaz de devorar almas e homens, uma série de encontros e desencontros, inclusive entre Ji Lin e Ren.

Eu já tinha visto algo semelhante de um tigre devorador de homens em um anime que já citei aqui, quando falei de Declínio de um Homem, chamado Bungo Stray Dogs. Neste anime, a maioria dos personagens são personificações de autores clássicos (em maioria japoneses) (e nem vou entrar no mérito de qualidade, o humor dele é meio complicado). Um dos protagonistas, que encarna o autor Atsushi Nakajima, tem um poder semelhante: ele se transforma em tigre e é bastante perigoso. Um dos trabalhos mais reconhecidos de Nakajima é a coleção de contos Moon Over the Mountain, e sua escrita foi amplamente influenciada por literatura clássica chinesa, fazendo com que os contos contidos neste livro sejam ambientados, em sua maioria, na China. Destes contos, o mais conhecido talvez seja "Sangetsuki", ou "The Tiger Poet", sobre um homem que larga tudo para seguir a vontade de ser poeta, mas um acontecimento faz com que passe por grande mudança e, de uma forma repentina, aterrorize o local onde passou a viver na forma de um tigre selvagem.

Nenhuma obra de Nakajima foi traduzida para o português, mas há uma edição em inglês de Moon Over the Mountin e pode-se ler mais sobre sua vida trágica e seu principal trabalho na The Japan Society

Fico muito contente quando coisas que conheço se conectam de alguma forma, que alguns detalhes eu conheça e consiga reconhecer detalhes e referências dos livros e filmes que assisto. É como um jogo de memória, em que me sento na frente de uma caixa e remexo tudo que tem lá dentro, e nessa caixa estão todos os conteúdos que consumo, e encontro algo que faça par com o que estou consumindo agora.

Enfim, a questão de tigres e outros animais fantasmas poderosos, capazes de trazerem sorte ou grande terror é bastante comum em certos lugares da Ásia, principalmente próximos a Península Malaia. A própria Península recebeu uma série de influências vindas do sudeste asiático, combinada com seus anos de colonização estrangeira. O resultado são lendas, folclore e religião muito próprias daquele local. Em A Noite do Tigre podemos ter um vislumbre dessas tradições. 

Sobre o livro, foi uma leitura divertida e deliciosa. Os capítulos são intercalados entre os personagens: nos capítulos de Ji Lin, a narrativa é em primeira pessoa; nos capítulos de Ren, é narrado em terceira pessoa. William Acton tem alguns capítulos sobre sua história, onde seriam os capítulos de Ren. 

Yangsze Choo constrói uma narrativa ágil mas cuidadosa, conectando pontos que, inicialmente, não parece importantes mas que tem um peso enorme para o destino de nossos personagens, que são extremamente carismáticos. Ji Lin, como mencionei, é uma personagem fascinante, e acompanhar Ren também é uma tarefa muito prazerosa.



O livro também brinca com as virtudes confucianas nos nomes de seus personagens, como se cada um deles representasse uma dessas virtudes e isso delimitasse parte de sua personalidade, sendo uma chave para seus próprios destinos: Ren, da benevolência; Yi, de retidão; Li, de ordem; Zhi de sabedoria e Xin de integridade. Cada um dos quatro personagens centrais da trama (Ren, Yi, Shin e Ji Lin) correspondem a um dessas virtudes, no caso de Shin e Ji Lin pelos caracteres chineses usados para escrever seus nomes.

Esse é um dos pontos que gostaria que tivesse sido melhor desenvolvido no livro. A resolução pareceu um pouco apressada, e é um detalhe que é dado grande importância em algumas partes. Não estragou a experiência, mas às vezes eu gosto de mais explicações, de algumas coisas mais detalhadas.

O final também é um pouco aberto, algo que não me incomodou, mas me deu vontade de saber como os personagens estarão adiante, como eles se viraram. Um outro ponto no final do livro me deixou um pouco em dúvida do que senti sobre ele, mas vou deixar em aberto também para não dar spoilers. Mas, se você leu o livro e quiser conversar sobre aquela decisão de Ji Lin, por favor, sinta-se a vontade.

A Noite do Tigre é um livro gostoso de fantasia e sobrenatural, uma leitura rápida e divertida (e apreensiva em certos momentos). Me diverti muito, e pretendo ler o outro livro da autora lançado aqui, que virou série da Netflix, A Noiva Fantasma, também lançado pela DarkSide Books. 

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Lembrando que, comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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