Permaneça dourado, Ponyboy: The Outsiders, de S.E. Hinton


Nunca fui uma pessoa com muitos amigos, e sempre me senti bastante solitária. Depois de anos isso não me afeta tanto, mas histórias sobre amizade e lealdade cada vez mexem mais comigo. Gosto bastante de histórias coming of age (e já escrevi um pouco sobre esse tipo de narrativa no horror, pode ser lido aqui), e eles me fazem pensar em várias possibilidades de crescimento diferentes, de amadurecimento, de como as pessoas em si são diferentes, e etc. 

É engraçado quando um livro mexe com a gente. Lembro de ter comentado com alguém, ou em algum lugar, sobre "O Corpo", presente na coletânea Quatro Estações (que já escrevi sobre ele aqui), do Stephen King, que não sabia como me sentia tão próxima daqueles personagens mesmo nunca tendo passado por nada semelhante. Pra mim, isso se dá graças aos sentimentos desses personagens, o que eles passam ao leitor. A construção desses personagens, junto da nossa capacidade de empatia, faz com que a gente se coloque em seus lugares e imediatamente se sinta parte dessa narrativa.

Enquanto lia The Outsiders, eu me senti muito próxima de Ponyboy, o protagonista, e mesmo nunca tendo passado por nada que ele passou, terminei o livro com algumas lágrimas nos olhos. 

The Outsiders tem uma história muito simples: os Greasers, garotos que moram na periferia de uma cidade, pobres, muitos deles com problemas com a polícia, são taxados como violentos e delinquentes; enquanto os Socs, garotos ricos, são vistos como gente boa. O livro é narrado por Ponyboy, um garoto dos Greasers, que tem cerca de 14 anos. Conhecemos seus irmãos, Darry e Sodapop. Os três perderam os pais quando eram mais novos, e agora vivem sozinhos, com Darry como guardião. 

Os Greasers se reconhecem pela pose de durões e a brilhantina no cabelo, e são divididos em diversas gangues menores na periferia – algo semelhante a Grease e The Warriors. A gangue de Pony tem ainda Two-Bit, o cara engraçado; Dally, o mais perigoso de todos; Steve, o melhor amigo de Soda; e Johnny, protegido de todos os caras mais velhos, garoto que sofria o diabo em casa. Eles tem uma união e uma lealdade pelo grupo que é muito forte, e é bem perceptível em algumas passagens. 


Cada um em seu território, os Socs geralmente andavam pelos lugares em que os Greasers estavam para baterem neles. Brigas de cinco contra um, que às vezes rendia machucados violentos. Johnny foi alvo de um desses grupos de Socs certa vez, e nunca se recuperou. 

The Outsiders nos ensina alguma coisa durante a jornada de Ponyboy. Primeiro, que as aparências, apesar de serem tudo que é visto no mundo, não significa nada. Mesmo que quem seja taxado de delinquentes sejam os Greasers (coisa que eles não negam que são), os Socs são ainda mais violentos. Como Pony diz certo momento, os Greasers cresceram sob essa circunstância, chamados de bandidos e só conhecendo essa vida. A outra coisa que aprendemos é que todos estão lutando batalhas invisíveis, independente se Greasers ou Socs.

Susie E. Hinton escreveu The Outsiders quando tinha 15 anos, e foi publicado em 1867. Viu a configuração de jovens em seu bairro, chegou certo dia da escola e escreveu o romance. A forma como Hinton percebe a juventude talvez só pudesse ter sido compreendida por alguém jovem. Hinton dá a carga dramática necessária – os terrores desses adolescentes não são chiliques infantis, não são problemas pequenos; são problemas sociais, de classe, de negligência familiar. São problemas que desencadeiam outros problemas, que fazem parte de um ciclo que vai continuar por gerações (e continuou, com outros nomes e ainda outras diferenças).


Ao final dessa edição mais recente, que foi lançada pela Intrínseca (com tradução de Ana Guadalupe), temos algumas entrevistas com parte do elenco e com Francis Ford Coppola, que dirigiu a adaptação para o cinema em 1983. Coppola foi apresentado ao livro por uma carta enviada por uma bibliotecária, pois era o livro preferido dos alunos da escola. Em uma dessa entrevistas, Rob Lowe, que fez Sodapop na adaptação, fala como Hinton construiu uma estrutura familiar diferente de tudo que havíamos visto, e que só teríamos uma maior discussão sobre isso muitos anos depois. Pony vive com seus dois irmãos, a quem, apesar das diferenças e discussões, ama imensamente. Johnny vê na gangue uma estrutura familiar, de carinho e cuidado, que não tem em casa. Como Lowe fala: você constrói sua família com aqueles que ama. 

A adaptação

Lançada em 1983, a adaptação do filme foi dirigida por Francis Ford Coppola. Coppola recebeu uma carta de uma bibliotecária e resolveu lê-la. Apesar de não ler todas as cartas que recebia, essa ele achou importante. A carta pedia que ele considerasse dirigida a adaptação de The Outsiders, pois era o livro preferido do colégio onde essa bibliotecária trabalhava. Junto da carta haviam 300 assinaturas dos alunos para aumentar o pedido de que essa adaptação fosse realizada.


Coppola então conheceu Hinton e trabalhou diretamente com ela na adaptação. Os Greasers escolhidos foram C. Thomas Howell, Rob Lowe, Emilio Estevez, Matt Dillon, Tom Cruise, Patrick Swayze e Ralph Macchio. A maioria deles faria sucesso nos anos seguintes. Emilio Estevez e Rob Lowe fariam parte do "Brat Pack", grupo de jovens que estavam na maioria dos filmes adolescentes dos anos 1980, como O Primeiro Dia do Resto de Nossas Vidas e Clube dos Cinco.

O filme infelizmente não fez tanto sucesso, mas permanece no coração de muitos dos jovens que assistiram ele na época, ou que assistem ele hoje em dia. O livro faz parte do conteúdo de diversas escolas dos Estados Unidos, então sempre renova o interesse pelo filme também.

Assisti o filme esse final de semana e é tão emocionante quanto o livro. Ainda na entrevista mencionada de Rob Lowe, que está nessa edição mais recente lançada aqui no Brasil, ele comenta como o filme foi duramente editado na época, e só muitos anos depois ele foi lançado na íntegra. O medo é que o relacionamento entre Sodapop e Ponyboy fosse interpretado de forma maliciosa, mas é perceptível o carinho entre ambos, algo fraterno que nasceu nessas gravações. Ainda nas entrevistas alguns atores comentam como a amizade entre eles permanece ainda hoje.

O filme não está em nenhum serviço de streaming nacional, mas pode ser encontrado pela internet. 

***

Eu fiquei muito feliz de ter me encontrado com esse livro. Gostaria de tê-lo lido quando mais nova, mas acredito que algumas coisas são postas para gente no momento em que deveriam aparecer. 

O que ficou em mim de The Outsiders é a história de Ponyboy e seus amigos, como a vida prega peças e é injusta, como algumas consequências são terríveis e como é difícil suportar o peso do mundo. Mas, acima disso, algo que sempre vou guardar no coração é que: "permaneça dourado, Ponyboy". 

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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