Mulheres Extraordinárias: as vidas de Mary Wollstonecraft e Mary Shelley


Desde a primeira vez que li Frankenstein, fiquei fascinada por sua autora. Mary Shelley, filha de dois grandes pensadores do século XVIII, que deram à luz uma garotinha que viria a ser uma das maiores autoras de ficção científica e de horror que o mundo já teve o prazer de conhecer. Envolvida em "escândalos" que iam desde sua fuga para viver com um homem casado até suas amizades pouco ortodoxas, eu sabia sobre sua vida o que sabemos quando fazemos uma pesquisa rápida e lemos alguns parágrafos sobre alguém que nos chama a atenção. 

Quando assisti Mary Shelley, dirigido por Haifaa al-Mansour, fiquei me perguntando o quanto do que estava no filme era realidade. Como era o processo de Mary? Como ela lidava com sua criação tendo sob os ombros cargas tão grande, sendo filha de William Godwin e Wollstonecraft? Tendo se casado tão nova? Tendo perdido tanto, em tão pouco tempo? Como ela lidava com o gênio de Percy Shelley, que sabemos que não era dos melhores, e de Byron, e de Polidori, e de Claire, e de tantas figuras que passaram por sua vida? Como Mary Shelley vivia e escrevia e criava? 

Além disso, Mary Wollstonecraft, mãe de Mary, foi uma das grandes pensadoras dos direitos femininos, em pleno século XVIII, e passou tantos anos na obscuridade, pouco sendo lembrada mesmo quando ainda estava viva. Como era essa figura? Como chegou até ali? Quais suas inspirações? 

Eu já estava de olho na biografia de mãe e filha, escrita por Charlotte Gordon, fazia alguns meses. A edição em inglês, Romantic Outlaws: The Extraordinary Lives of Mary Wollstonecraft & Mary Shelley, já era uma figurinha carimbada na minha wishlist, e sempre que eu passava por ela me dava uma vontade imensa de me arriscar, comprá-la em inglês mesmo. Mas, para minha alegria, a obra foi lançada no Brasil, em português, pela DarkSide Books, com tradução de Giovanna Louise Libralon.  

Sempre prefiro ler as coisas em português, então essa edição foi muito bem vinda, em um excelente momento para mim, e fiquei muito feliz com a leitura. O trabalho de pesquisa que Gordon fez, a reunião de fatos e curiosidades sobre a vida das duas Marys, foi uma leitura muito prazerosa. Mas, para além disso, essa leitura surgiu em um momento ótimo para me dar alguns conselhos, me dar uma mãozinha. As vezes leituras falam com a gente de forma muito íntima, né? E esse. que foi um dos meus últimos livros de 2020, se tornou uma das melhores leituras do ano e que, sem dúvida, vou carregar como uma das minhas preferidas da vida. 

O livro intercala um capítulo com a vida de Wollstonecraft, um capítulo com a vida de Shelley, fazendo com que você tenha duas opções de leitura: todos os capítulos pares e depois todos os capítulos ímpares, ou seguir intercalando a vida de uma e de outra.


Eu escolhi a segunda forma de leitura, acompanhando o livro da forma que ele foi montado, e foi uma ótima experiência. Apesar de terem vivido em momentos diferentes, e mesmo que possamos pensar que seria óbvio que Wollstonecraft tivesse desempenhado um papel de influência na filha, mesmo que tendo falecido poucos dias após o parto, ainda é curioso perceber a força dessa influência, desse papel, a forma como ambas trilharam caminhos diferentes que se cruzaram em determinados pontos, mesmo que distantes em tempo e espaço. 

Eu não sou uma grande leitora de biografias, li poucas e adoraria ler mais. E uma das coisas que mais gosto quando leio esse tipo de livros, que me senti de forma semelhante quando li a biografia de Agatha Christie, escrita por Janet Morgan, foi um sentimento de reconhecimento — de pertencimento, até. Conhecer as vidas dessas autoras, de alguma forma, me aproxima delas.

Então, mesmo sabendo alguns detalhes básicos sobre a vida de Mary Shelley, ler Mulheres Extraordinárias foi um enorme prazer para mim. Se eu já as admirava antes, passei a admirá-las mais ainda. Suas obras tiveram uma importância inenarrável para a humanidade, e estar mais próxima delas foi inspirador. 

Mas, além disso, o livro também é uma narrativa triste. Conhecer mais sobre a vida das duas autoras nos aproxima também das tragédias e tristezas que ambas sofreram, das dificuldades e dos abandonos. Não somente pelo período, em si, que já era bastante complicado para mulheres que queriam escrever, mas nas mãos de seus próprios pares. Tanto Wollstonecraft quanto Mary s sofreram em uma sociedade que não via com bons olhos uma educação, uma escrita, um pensamento de mulheres, qualquer comportamento fora da curva. E, mesmo assim, ambas lutaram para colocar suas ideias e ideais no papel, e o que chega a nós hoje, desses pensamentos, desses escritos, chega a nós depois de muita briga.

"É verdade que existiram momentos de alegria. (...) Porém, a maior parte do tempo, Mary [Shelley] sentira-se solitária, fora obrigada a sustentar a si mesma e àqueles que dependiam dela em um mundo que a condenava pelas escolhas que havia feito aos 16 anos de idade. (...)
A história de ascenção e queda de ambas as Marys é uma narrativa que nos leva à reflexão, pois mostra com muita clareza como é difícil conhecer o passado e quão mutável pode ser o registro histórico. (...)
As duas foram o que Wollstonecraft chamou de 'rebeldes'. Elas não apenas escreveram livros para mudar o mundo, mas infringiram regras que regiam a conduta feminina, e não apenas uma, mas repetidas vezes, desafiando profundamente o código moral da época."

Com contextos bem explicados, detalhes sobre suas vidas, de suas infâncias até sua morte, o livro narra a jornada das duas Marys com uma linguagem bem fluida. Mesmo sabendo o destino de ambas, as mortes de seus amigos pelo caminho, é a jornada que é mais importante. E que jornada. 


Mary Wollstonecraft e Mary Shelley foram duas mulheres, humanas, que cometeram deslizes e fizeram julgamento errados dos quais se arrependeram mais tarde, fato esse utilizado enquanto ainda estavam vivas para deslegitimar seus discursos, seus debates e seus modos de vida, mas que jamais desistiram, que brigaram de pena em punho para deixar alguma lição que fosse para outras pessoas, gerações futuras, próximas ou distantes. "Elas afirmaram seu direito de conduzir o próprio destino."

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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