Colossal, sombrio e severo: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë


Li O Morro dos Ventos Uivantes há alguns anos atrás. Foi meu primeiro contato com algum livro das Brontë, e abriu portas para que eu conhecesse outras obras das irmãs e viesse a descobrir meu amor e fascínio por elas. Depois de O Morro... eu li Jane Eyre, li Agnes Grey, li A Inquilina de Wildfell Hall, e não me canso de ler e conhecer mais sobre esse trio tão importante da literatura, que fizeram o que precisavam para se tornarem escritoras.
Lembro que a leitura, na época, me causou bastante raiva. É difícil ler todas as injustiças e tragédias que permeiam o romance e não se sentir enraivecido, um espectador do declínio daqueles personagens. É muito difícil não sentir vontade de chacoalhar um ou dois e perguntar o que diabos eles acham que estão fazendo. Ao mesmo tempo, acho que é essa a graça de O Morro dos Ventos Uivantes: você não sai sem sentir nada enquanto ou depois de ler o livro. Alguma coisa você vai sentir. Dificilmente será amor pelo que ficou para trás.  

Resolvi reler porque me lembrava pouco do desenrolar dos fatos — lembrava do grosso do romance, do caráter de seus personagens, mas tinha me esquecido de muitos dos detalhes, como as coisas aconteciam, se o Heathcliff era tão indefensável quanto eu me lembrava. E, com o lançamento dessa nova edição pela DarkSide Books, com tradução de Marcia Heloisa, que recebi como parceira, achei uma ótima oportunidade. 

Nada melhor que começar o ano com um livro sobre obsessão e vingança. 

O Morro dos Ventos Uivantes é um romance escrito por Emily Brontë, publicado em 1847, que conta a história de duas famílias, Earnshaw e Linton. e uma força destrutiva chamada Heathcliff, no norte da Inglaterra. O senhor Earnshaw, ao visitar Londres, trouxe para casa uma criança. Não poderia saber, entretanto, que aquela criança alteraria para sempre o destino de seus filhos, de sua família, de seus vizinhos. 

Quem narra a história é Lockwood, já anos depois da chegada de Heathcliff, que se tornou dono de duas das maiores propriedades do local: Wuthering Heights e Thrushcross Grange; e quem conta para Lockwood sobre as desventuras da família é Ellen Dean, Nelly, antiga criada de Wuthering Heights, que acompanhou por todos esses anos as mortes, as tragédias e os terrores proporcionados por Heathcliff. 


Quando falo de terrores proporcionados por Heathcliff é porque o livro é exatamente isso: uma série de terrores, destruição e calamidade que o garoto trouxe para Wuthering Heights.

A bem da verdade, de início, eu sinto compaixão por Heathcliff. Ele não é bem tratado quando chega, apesar de logo perceber que é o favorito do senhor da casa, e utiliza isso para seu próprio bem. A forma como Heathcliff, desde pequeno, faz a manutenção de seu poder dentro da casa, e, quando percebe que já não possui tanto poder assim, se torna mestre da destruição, é um dos pontos altos do romance para mim. Tenho para mim que Heathcliff já tinha algo de violento dentro de si desde sempre. 

A única que consegue domar o garoto é Catherine, filha mais nova de Earnshaw. Os dois, conforme crescem juntos, acabam meio que se apaixonando. Mas isso não dura muito, até Catherine conhecer seus vizinhos, os Linton. Então, se casa com Edgar Linton. Heathcliff, ao ouvir que não era suficiente para Cathy, parte em busca de Deus sabe lá o que, e retorna muitos anos depois, homem feito e um "cavalheiro" (stricto sensu). Antes disso, claro, Heathcliff jurou se vingar de Hindley, que maltratava o rapaz quando criança e ajudou no afastamento dele e de Catherine.

E a vingança se torna a força motriz de de Heathcliff e do romance: ao retornar para as charnecas, as coisas desandam de vez. Hindley, que já estava decadente desde a morte de sua esposa, perde completamente o controle graças a péssima companhia de Heathcliff. Catherine cai doente depois de discussões entre Edgar e Heathcliff. Heathcliff se casa com Isabella, irmã de Edgar, e fogem juntos. Por fim, Cathy dá a luz a uma garotinha. E se vocês pensam que acaba aí, não, a geração seguinte segue firme no reinado de terror do homem. 

Eu poderia ficar horas falando de tanta tragédia que Heathcliff causou atrás de vingança. Além de Catherine Earnshaw, Edgar Linton, a filha dos dois, Isabella, seu filho com Heathcliff, ainda temos que por na conta Hareton, filho de Hindley, que Heathcliff fez questão de arruinar. Antes herdeiro de tudo que os Earnshaw possuíam, o jovem cresceu um trabalhador braçal, sem poder receber nada por seus trabalhos. Mas, há muito mais sobre Wuthering Heights. Há a natureza diabólica de Heathcliff, as dúvidas de que ele seja humano, há o estudo de como o ambiente pode modificar aqueles que o habitam, sobre como uma pessoa pode influenciar outras, há questões sobre a própria sociedade da época, há a obsessão e a dúvida da existência do amor da forma que ele existe no coração de Catherine e Heathcliff — que afirma, ferozmente, que ambos são um e voltarão a ser.

Reler essa obra me trouxe novos sentimentos, novos pensamentos, me tocou de uma forma diferente do que a primeira vez que li. Talvez por já conhecer mais sobre as Brontë, saber mais sobre suas vidas, conhecer melhor suas jornadas e os percalços que passaram para terem seus romances publicados, eu consegui me sentir diferente com esses personagens que já conhecia, perceber mais camadas e ter novas emoções.

Por gostar tanto das Brontë, acabei ficando muito feliz com essa edição. Na apresentação, Marcia Heloisa levanta as questões sobre a cor e raça de Heathcliff, suas possibilidades, já que isso nunca fica claro no texto. A única coisa que fica realmente clara é que Heathcliff é não-branco, e muito se discute sobre de onde teria vindo. A maior probabilidade é que fosse espanhol ou árabe, mas não se sabe com certeza — e isso ainda pode trazer mais discussões sobre porquê esse personagem foi criado de forma tão violenta. Por que esse forasteiro é tão terrível, aos olhos do espectador e dos narradores? 

Ao final do livro temos notas biográficas de Ellis Bell, pseudônimo adotado por Emily, e escrito por sua irmã, Charlotte. Também temos um prefácio à edição de 1850, também escrito por Charlotte, trechos da biografia sobre a Charlotte Brontë, escrita por Elizabeth Gaskell, um ensaio chamado "A Borboleta", escrito por Emily, que a levou pensar sobre O Morro, e resenhas do período em que O Morro dos Ventos Uivantes foi lançado, encontradas na escrivaninha de Emily.


Os textos de Charlotte, incluídos na edição, são ouro. É incrível ler sobre as irmãs, algo escrito por uma própria Brontë, que fala exclusivamente do caráter, da vontade e da história das três autoras. Me peguei emocionada em várias frases. A Nota Biográfica serviu para reparar um erro enorme: na época, as três irmãs utilizaram nomes masculinos para que suas obras fossem lançadas, Currer Bell (Charlotte), Ellis (Emily) e Acton (Anne). Mas, em determinado momento, os críticos começaram a achar que todos seriam a mesma pessoa. Além de ser um documento histórico de valor, que escrito pelas próprias mãos de uma autora do período falam um pouco sobre essas três personalidades, ainda tem seu valor emocional. É possível sentir, escorrendo das páginas, o carinho de Charlotte pelas irmãs, a falta que elas faziam (visto que, na época, Emily e Anne já haviam falecido). 

Em seguida, no prefácio à edição de 1850, Charlotte fala sobre o romance de Emily, e põe uma luz muito clara sobre a obra e sua autora. 

"O Morro dos Ventos Uivantes foi forjado em uma oficina caótica, com ferramentas simples, feitas com materiais caseiros. A escultora encontrou um bloco de granito em uma charneca solitária; examinando-o, viu como poderia esculpir uma cabeça, selvagem, escura e sinistra; uma forma moldada com pelo menos um elemento de grandeza — a força. Trabalhou com um rude cinzel, tendo como único modelo a visão interna de suas ideias. Foram necessários tempo e empenho, mas o granito ganhou forma humana. Ei-lo colossal, sombrio e severo — metade estátua, metade rocha. Como estátua, é assustador e diabólico; como rocha, quase belo, em matizes cinzentos, revestido com o musgo das charnecas. A urze, com seus botões em flor e sua fragrância perfumada, cresce fielmente aos pés do gigante."
Charlotte discute sobre a natureza do romance e nos mostra sua compreensão sobre ele, pois conhecia a natureza da irmã. Conta como Emily era uma pessoa fechada, que não era de conversar com seus vizinhos, mas que ouvia sempre suas histórias, e guardava para si os temperamentos mais difíceis, os sentimentos mais aterradores. As histórias dessas pessoas, que, assim como Wuthering Heights, viviam nas charnecas, acabou prendendo a atenção de Emily.

Além disso, Charlotte também tece um comentário muito interessante sobre Heathcliff:

"Heathcliff demonstra apenas um sentimento humano, e não é seu amor por Catherine, que é feroz e impiedoso. (...) Não, o único vínculo que atrela Heathcliff à humanidade é seu afeto, revelado em rude confissão, por Hareton Earnshaw — o jovem por ele arruinado — e sua aparente estima por Nelly Dean."

Heathcliff é muitas coisas para muitas pessoas. Para uns, ele é um garoto injustiçado, que não teve oportunidades; para outros, ele nem mesmo é humano — há várias interpretações que o veem como um lobisomem, um vampiro, um possível demônio. Independente da visão sobre o protagonista, o romance de Emily deixa bem claras as consequências de seus atos destrutivos, e nos apresenta uma história impetuosa, que causa raiva e temor. Eu mesma até hoje não sei muito bem como me sentir com seu personagem principal. 

Recentemente assisti To Walk Invisible, filme dirigido e escrito por Sally Wainwright, que narra um pouco da história das irmãs Brontë, desde que voltaram a se reunir após um tempo separadas (como conta Charlotte, na Nota Biográfica comentada anteriormente), até o final das vidas de Emily e Anne — infelizmente, algo que não demorou tanto a ocorrer, pois a vida das irmãs foi bem curta devido a tuberculose. É um filme incrível, uma obra muito interessante para conhecer mais sobre as autoras. O filme é de difícil acesso, não está disponível em streamings oficiais, mas pode ser encontrado na internet com um pouquinho de persistência.


Foi uma leitura emocionante, tanto por poder reler essa obra e me apaixonar por ela de novo, despertar antigos sentimentos e me trazer novos, quanto por ter lido esses materiais extras, que eu não conhecia. Admiro muitíssimo as Brontë, estão entre minhas autoras preferidas, e é um prazer imenso poder conhecer mais sobre suas vidas e sobre seus sentimentos. Charlotte escreve com paixão sobre suas irmãs, e conseguiu transmitir isso para nós, leitores, que estamos lendo esse material 170 anos depois. Foi uma ótima forma de começar esse ano de leituras.

E, se você se interessa em conhecer mais sobre O Morro dos Ventos Uivantes, além de ler o livro pode dar uma olhada em suas adaptações cinematográficas. O blog da DarkSide listou 10 filmes baseados no romance: leia aqui.

* Livro recebido em parceria com a Editora DarkSide.

Compre o livro:


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

4 comentários:

  1. É um dos melhores texto sobre essa obra que eu já li.
    Quando li essa obra pela primeira vez, fiquei seriamente confuso e perdido com e sobre o Heatcliff. Ainda não reli, mas a vontade ta imensa. Parabéns pelo texto. Ficou show 🖤

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    1. Poxa, eu fico feliz demais que tenha gostado <3 foi muito bom reler esse livro, é um daqueles livros que é sempre bacana revisitar, sabe? que a gente vai pescar alguma coisa. Se ler novamente me conte como você se sentiu :)

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  2. Nossa, que incrível sua leitura sobre o livro. Ainda não terminei, comecei há mais de um ano. E vi um dos filmes, o com Ralph Fiennes, além da eterna música com Kate Bush ou Angra. Eu sou a que vê ele como um injustiçado imigrante por família com condições. Talvez por eu mesma ter questões de migração, classe e de raiva, de uma ideia de justiça que pode beirar à perigosa vingança. Até onde parei na leitura, e o que me lembro do filme, eu completamente odeio o irmão da Cathy e não tenho um pingo de paciência para ela, é do tipo de pessoa que eu não conviveria. Como faz tempo que comecei a leitura, vou ter que recomeçar. E ler depois do seu texto pode me dar novos olhos, mais ou menos róseos. Mas é como você disse: esse livro vai fazer a pessoa sentir alguma coisa. É o tipo de leitura que não deixa pedra sobre pedra, né?

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    1. Muito obrigada <3 Eu compreendo super! Também acho que o Heathcliff foi muito injustiçado. E, pra te falar a verdade, acho que não gosto muito de ninguém do romance hahahaha gosto um pouco da Nelly, porque ela pelo menos tentou, sabe? De resto, nossa, não. Eu também não conseguiria conviver com Cathy de jeito nenhum!

      Quando terminar de ler me conte o que achou, vou ficar feliz em saber <3

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