Amores Divididos: memória e clarividência, passado e futuro


Há uns três anos atrás, quando assisti ao documentário Horror Noire, da Shudder, que demonstra como os atores e atrizes negros foram subjugados dentro do cinema de horror, realizando papéis de apoio e raramente como protagonistas, alguns filmes me chamaram a atenção e fiquei muito curiosa para assisti-los. Como eu sou um pouco relapsa, até hoje estou atrás de alguns. Um deles foi Eve's Bayou, que recebeu o título em português de Amores Divididos. O filme foi escrito e dirigido por Kasi Lemmons, protagonizado por Samuel L. Jackson, Jurnee Smollett, Meagan Good, Lynn Whitfield e Debbi Morgan.

O filme é um southern gothic, primeiro longa dirigido por Kasi Lemmons, um drama familiar complexo sobre tristeza e raiva, sobre a perda e sobre o crescimento da nossa protagonista, Eve. 

Em uma cidadezinha da Louisiana, chamada Eve's Bayou, a família Batiste é conhecida por crescer, ao longo dos anos, com prosperidade. A cidade foi batizada com o nome de uma mulher escravizada, Após um general chamado John Paul Batiste ter caído pela cólera, Eve o ajudou, a partir dos conhecimentos de seus antepassados. John Paul deu a ela um pedaço de terra à beira de um bayou. Não é dito como aconteceu, mas John Paul e Eve tiveram 16 filhos. A família Batiste é descendente deles, e a narradora, Eve, foi nomeada graças a sua antepassada.

Bayous são, de acordo com a wikipedia: "um termo geográfico que no sul dos Estados Unidos serve para designar uma massa de água formada por antigos braços e meandros de rios como o rio Mississippi. Os bayous formam uma rede navegável de milhares de quilómetros". Quase como uma baía, mas não é preenchida por água salgada.

"No verão em que matei meu pai eu tinha 10 anos."*

Eve narra a história do que lhe aconteceu quando tinha cerca de dez anos. Durante uma festa, Eve vê seu pai, Louis (L. Jackson), traindo sua mãe com uma conhecida da família. Desde então sua vida muda completamente de rumo. Ao contar para a irmã o que viu, a irmã lhe afirma que ela entendeu errado e conta uma outra versão da história. Essa questão do que Eve acredita ver e saber com o que ela realmente viu ou sabe será de grande importância durante todo o filme. 

O filme, de certa maneira, é exatamente sobre isso: sobre o que achamos saber. 

Eve começa a desconfiar cada vez mais de que seu pai seja um homem mulherengo e que traia sua mãe com outras mulheres da cidade. Até mesmo a mãe Eve, Roz (Whitfield), começa a suspeitar do que está acontecendo. Ao mesmo tempo em que vê a mãe se despedaçando, Eve também fica preocupada com a irmã, Cisely (Good) que está entrando na puberdade. 


Apesar de Louis ser o chefe da casa, é nas mulheres da família que a história se concentra. Roz, mãe das garotas, faz de tudo para manter seus filhos seguros quando sua cunhada, Mozelle (Morgan), tem uma visão. Na família Batiste, algumas mulheres têm o dom da clarividência. 

Mozelle é uma mulher interessante, que teve três maridos, e todos eles morreram de forma violenta. Não se sabe muito bem se Mozelle foi vítima de alguma maldição, mas sua história é uma das partes mais interessantes do longa, e dá uma outra camada ao que se desenrola com a família Batiste no ano em que Eve conta a história.

Amores Divididos subverte, principalmente, a ideia que comentei no início do texto, de personagens negros servindo somente como apoio aos personagens principais. O filme é protagonizado e todo o elenco é composto por negros, vivendo suas vidas e com suas experiências e expectativas para além de uma narrativa focada no racismo. Como mencionei, é um conto de southern gothic, mas contado a partir e por pessoas negras, sem necessidade de cair em estereótipos.

Vou tentar não me adentrar em spoilers no texto, mas pode-se dizer que a infância de Eve acabou naquele ano, o ano em que tinha 10 anos. Além de todas as suas qualidades, o filme ficou comigo por todos esses dias muito por causa da narração em voice over que acontece no final:

"Assim como outros antes de mim, eu tenho o dom da visão. Mas a verdade muda de cor, dependendo da luz. E o amanhã pode ser mais claro do que o hoje. Memória é a seleção de imagens, algumas enganosas, outras impressas indelevelmente no cérebro. Cada imagem é como um fio, cada fio tecido junto para criar uma tapeçaria de uma textura intrincada. E a tapeçaria conta uma história, e a história é nosso passado."*

Os grandes acontecimentos daquele ano da jovem Eve aconteceram principalmente por esse motivo: a memória. O que é a memória? A forma como Kasi Lemmons nos apresenta a questão é muito interessante. Como lidar com uma memória que pode ser falha? Podemos acreditar na nossa memória? 

O contraponto feito entre a memória e a clarividência também é muito interessante. Ao supor que o amanhã pode ser muito mais claro que o ontem, temos o grande problema: o passado, muitas vezes, é altamente maleável. Esse contraponto em algo objetivo como o passado, algo concreto, com algo subjetivo e, muitas vezes questionável como a clarividência da família Batiste me fez pensar muito ao longo da semana.

E não digo em relação a grandes acontecimentos, não estou contestando a história, que se apoia em documentos e dados, e que podem afetar um número enorme de pessoas. Aqui, penso a nível pessoal, um nível menor e mais simples. Quantas vezes algo que dissemos ano passado, ou nos anos anteriores, não voltam para nos assombrar. Ou ainda guardamos mágoa de algo que aconteceu e não temos nem certeza se aconteceu da forma que acreditamos ter acontecido. No caso de Eve, algo que contaram a ela alterou completamente sua vida pelos anos que se seguiram — ou será que Eve foi vítima das circunstâncias, e o que aconteceu não foi sua culpa? 

A brincadeira que Lemmons faz com o que achamos que sabemos, com nossa própria memória pessoal, e o que isso pode fazer conosco transforma uma narrativa de um quase coming of age para uma outra camada de sentimentos.

Encontrar Eve's Bayou para assistir foi excelente. O filme é excelente, e o que Kasi Lemmons fez com os diálogos e a narrativa é incrível. Antes de dirigir esse longa, Lemmons foi atriz em O Silêncio dos Inocentes e Candyman

Amores Divididos, ou Eve's Bayou, está disponível na Amazon Prime Video (até o dia em que esse texto está sendo publicado). 


*Tradução minha, a partir de quote que consta no site IMDb.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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