Declínio de um Homem, de Osamu Dazai


Esse talvez seja o texto mais destoante do resto do conteúdo do blog, pois não se trata de uma obra de horror. Mas, ao mesmo tempo, é uma obra de horror. 

Cerca de onze ou doze anos atrás eu costumava acompanhar as temporadas de animes, que saíam em levas nas estações do ano. Eu escolhia alguns títulos e acompanhava, e foi assim inclusive que nasceu meu primeiro blog (contei um pouco da história nesse texto, sobre A Menina do Outro Lado). Em 2009 me deparei com um anime antológico chamado Aoi Bungaku, que adaptava clássicos literários do Japão. Naquela época não consegui encontrar os títulos que o anime adaptava, então não tinha lido nenhum, mas a ideia me chamou a atenção. O anime, com 12 episódios, tinha o designe de personagens de Takeshi Obata, Tite Kubo e Takeshi Konomi, então eram traços que eu conhecia dos animes que eu gostava. 

Depois de todos esses anos eu cruzei caminhos novamente com a literatura japonesa, e cruzei caminho com outro anime que traz a literatura para sua história. Bungou Stray Dogs traz autores japoneses ou não e os transforma em personagens, adapta seus livros como se fossem seus poderes. É um shonen de mistério e investigação, descontraído, que não tem intenção de ser uma adaptação dessas obras literárias como Aoi Bungaku era, mas que leva em conta a personalidade desses autores e é interessante. 

Foi nessa época que a figura de Osamu Dazai me chamou atenção de novo, depois de tantos anos. Agora, que já tinha mais acesso a outras obras e trabalhos, resolvi conhecer Ningen Shikkaku, a primeira obra adaptada em Aoi Bungaku, que me assustou tanto anos atrás, e que surgia novamente na minha frente sob outra perspectiva, em uma animação muito mais leve como Bungou Stray Dogs.

Sobre o livro

Lançado aqui no Brasil pela Estação Liberdade, traduzido do japonês por Ricardo Machado, sob o nome de Declínio de um Homem, o livro acompanha a história do jovem Yozo por três períodos de sua vida, como um diário. 

Primeiro eu preciso dizer que a história não é fácil, e preciso deixar o alerta de possível gatilho pois trata de temas como depressão e suicídio. 

Yozo, desde criança, percebe que tem algo de diferente com ele. Ele não consegue ser feliz, não consegue ser uma criança "normal", como as outras, não entende o que faz os seres humanos seguirem adiante. Qual a intenção de ser humano? O que faz um ser humano? O que motiva um ser humano? Yozo não compreende. Mas ele não consegue falar de seus sentimentos, ele não consegue se expressar, então ele mascara suas questões e se transforma no "cara brincalhão". Seja no colégio, seja em casa, Yozo é visto como um rapaz bem-humorado, que gosta de fazer piadas, que está sempre de bom humor. 

Mas, com o tempo, essa máscara de Yozo começa a ficar pesada demais. Durante sua juventude e sua vida adulta, Yozo começa a experimentar o pior que a vida pode oferecer: a bebida, os amigos que o influenciam ao mal caminho (e que ele se sente confortável), uma vida desregrada e sem propósito. A falta de dinheiro se torna um peso, pois seus familiares já não o querem ajudar, depois de uma tentativa frustrada de suicídio que "manchou a honra da família". Yozo não se sente bem na própria pele, e se permite descer aos níveis mais baixos cada vez mais tentando se encontrar e desistindo todas as vezes. 

E, nesse ponto, tenho as explicações de porque resolvi trazer esse texto ao blog. O livro realmente não é de terror, mas ele é extremamente desconfortável. Narrado em primeira pessoa, o personagem protagonista narra suas experiências com uma vivacidade e uma consciência de si mesmo assustadora. A todo momento ele parece compreender e explicitar que falhou como ser humano, que é um peso horrendo para o mundo e para si mesmo. É uma narrativa delicada sobre depressão e tristeza, ao mesmo tempo que é dura e brutal.
 

E, agora um pouco de contexto: Ningen Shikkaku, ou No Longer Human, ou Declínio de um Homem, foi lançado em 1948. Osamu Dazai é considerado um dos maiores autores da literatura japonesa do século XX, considerado também um dos grandes autores a trabalhar no estilo watakushi shosetsu, ou shishosetsu, que narra histórias em primeira pessoa e com traços autobiográficos. Várias das obras de Dazai possuíam o tema suicídio, e o autor era conhecido também por ser alcoólatra — outro ponto explorado em suas obras. Yozo, no geral, tem muito de Dazai. E Declínio de um Homem conta ambas as histórias, de personagem e autor, de forma entrelaçada. Dazai cometeu suicídio junto de sua esposa na época, em 1948, da mesma forma que Yozo tenta cometer suicídio com sua amante, se afogando em um canal. No romance, entretanto, Yozo sobreviveu, e passou mais alguns anos na miséria, lutando com sua saúde mental. 

Um ponto que preciso levantar é que, no livro, Yozo e Dazai não tem um tratamento muito decente com as mulheres. De forma geral, é preciso dizer o quanto as personagens femininas são ruins e como tudo que cerca Yozo parece transformá-lo em uma pobre vítima desses seres tão maldosos que são as mulheres. E isso nós já vimos muito por aí, em muitos animes inclusive, mas em uma série de outras histórias. Inserindo no contexto geral de Japão no início do século XX, e pensando na própria figura de Dazai, pode-se compreender até certo ponto essas escolhas narrativas, o que não torna mais fácil a leitura e exige estômago da mesma forma.

Se me perguntarem porque essa história me chamou tanta atenção eu não saberia responder, mas lembro, ainda hoje, como fiquei aterrorizada assistindo aos episódios que adaptaram a obra em Aoi Bungaku.

E se me perguntassem se eu recomendo o livro eu também não saberia responder. É uma leitura pesada, não é agradável, é um questionamento e reflexão constante, que não te dá tempo de respiro. Ao mesmo tempo, é um dos clássicos japoneses do século XX, dá para conhecer um pouco mais da cultura e do momento em que ele é escrito e perceber que algumas questões ainda são presentes em nós. A minha única recomendação é que o livro seja lido com responsabilidade, em um momento em que seja propício e não se torne uma carga pesada demais. Saber colocar essa leitura em seu momento e contexto são pontos importantes para que a leitura aconteça. 

Mas uma coisa que me chamou a atenção sobre Declínio de um Homem foi exatamente a obra não ser sobre horror, pelo menos não o horror convencional, e ainda sim ter tantas adaptações que se utilizam de elementos tradicionais do gênero para traduzi-la ao público. Depois de ler o livro descobri que Junji Ito também o adaptou com sua arte, sem tradução disponível, e desde então é uma edição que desejo muito ter na minha estante. Parece ainda mais desconcertante que o livro em si, que já é extremamente desconfortável. A adaptação em Aoi Bungaku, que citei logo no início, foi uma das coisas mais aterrorizantes que já vi. O que talvez mostre bem quando digo que o terror está em outros lugares além das histórias convencionais do gênero. O próprio terror de um personagem (e um autor) de ter falhado como ser humano serviu como combustível para que a história se transformasse em uma história do gênero.

Dazai tinha pensamentos bastante condenáveis e os deixa bastante explícitos durante o romance, na forma de tratar mulheres e na forma de explorar o mundo a sua volta. Novamente: Declínio de um Homem é uma história complicada e difícil. Mas eu sou uma pessoa curiosa e queria muito conhecê-la mesmo assim. E eu tenho uma política de só comentar leituras que gosto bastante aqui no blog, mas achei que precisava falar um pouco sobre essa aqui, talvez para me livrar um pouco do sentimento de desconforto que senti enquanto lia. Mas, fica por conta e risco do leitor. 

Compre o livro

 
Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram