The Haunting of: Residência Hill e Mansão Bly


Diferente daquela crítica do The Guardian, eu sou uma grande fã do horror. Como fã de horror, então, eu sei que o medo está em diversos outros lugares que não os lugares comuns, que não somente no susto ou que não somente no grito. Sei que os fantasmas não são assustadores por não existirem, e sim por serem pedaços de nós mesmos. E como fã de horror sei que se a chave da suspensão da descrença não estiver ativada, muita coisa não vai funcionar. E, ainda assim, pode não funcionar.
Já falei e escrevi algumas vezes da capacidade do horror de trabalhar com metáforas e que, nem sempre, o medo precisa ser explícito. Ele pode ser trabalhado com outros gêneros e com outros elementos. Mike Flanagan é um desses diretores que tem uma força muito grande ao contar uma história: ele sabe mesclar esses elementos. Na maioria de suas produções, vários recursos são utilizados pra contar uma história de horror, e nem por isso deixa de ser uma história de horror. E Flanagan tem feito isso de forma muito interessante em suas séries: A Maldição da Residência Hill e a Maldição da Mansão Bly.

A Maldição da Residencia Hill é baseada no livro de Shirley Jackson, A Assombração da Casa da Colina. No livro, Eleanor e outras duas cobaias vão junto de um estudioso para uma mansão conhecida por ser assombrada: a Casa da Colina, a Residência Hill. O que Flanagan fez na série foi reunir alguns elementos do livro e transformá-los em algo completamente novo. O que resta do livro são ecos, são detalhes, nomes de personagem e rastros de personalidade: uma insegurança, uma personalidade mais forte e ousada, outra mais errante. 


E há também um princípio que permeia toda a história da Residência Hill: a família. Nós focamos na família Crain, os pais e seus cinco filhos. Algo de muito ruim aconteceu na infância das crianças, e isso ecoa pelo resto de suas vidas: a mãe, um dos pilares da família, foi assombrada pela Residência e acabou cometendo suicídio (ou, dependendo da interpretação, foi morta pela casa). O objeto central em todos os dez episódios da série é a família. Os Crain são problemáticos e extremamente humanos, e o que aconteceu com a mãe afetou a todos. Não somente pela morte dela, mas porque a força da casa era tão irresistível e a força da mãe era tão imensa que ela se nega a abandonar o local, e ela quer que seus filhos "acordem", assim como ela fez. Para ela, o pós-morte é a vida, pois os tentáculos da casa agiram de forma tão irrevogável em sua mente que suas crenças foram afetadas. 

Em A Maldição da Mansão Bly, Flanagan adapta A Outra Volta do Parafuso (e até algumas outras histórias), de Henry James. Na história, uma tutora vai cuidar de dois órfãos, contratada pelo tio das crianças. Mas há algo na casa, algo que confunde o leitor: o que acontece ali é real ou é algo da mente perturbada da professora? É uma das grandes questões da história e muitos se questionam, ainda hoje, o que há com a pobre acompanhante. 


Dessa vez, há um outro princípio trabalhado durante a história da Mansão Bly: o apego. Apego pois os personagens que residem na Mansão Bly são possessivos. Eles não deixam ir e é por isso que eles ficam. Eles não querem abandonar aqueles que eles amam, aqueles que eles possuem, e mesmo que eles passem a ser esquecidos e ninguém mais se lembre deles (a ponto de seus rostos desvanecerem), eles permanecem. Em A Mansão Bly o problema não é uma casa-entidade que mantém seus moradores prisioneiros, em Mansão Bly tudo começou com uma mulher que se sentiu traída e esquecida, o que gerou uma força enorme capaz de manter todas as suas vítimas ali. E isso se estende para a história: suas vítimas fazem outras vítimas, que fazem outras vítimas, que permite um sótão e um porão inteiro cheio de fantasmas. Assim como alguns membros da equipe disseram em entrevistas, é uma história gótica de amor, mas é também uma história sobre apego. 

Assim como a Residencia Hill, em A Mansão Bly nós temos algo muito indefinido e muito abstrato para temer: nós temos um sentimento, somente uma questão, somente uma possibilidade. Novamente: fantasmas podem não existir, mas as pessoas existem, e elas deixam vestígios de suas vidas, elas deixam problemas, e elas deixam outras pessoas e memórias. Em A Mansão Bly, a memória é um dos pontos principais daqueles que estão presos na construção. É através de suas memórias que os fantasmas acessam o mundo exterior e são jogados e puxados de um lado para o outro. Em Residência Hill, as memórias são manipuladas e alteradas de modo que seus personagens por vezes se esqueçam da força que aquela casa possui, e é só quando eles descobrem essa força e essas lembranças (ou o que foi o quarto vermelho para cada um deles, por exemplo), é que eles podem ver com exatidão o que há de errado ali.


O motivo pelo qual tantas obras de horror são referências em filmes fora do gênero é a capacidade do horror de trabalhar com signos e símbolos e metáforas. Tantas criações de narrativas do horror funcionam tão bem fora do gênero porque o gênero lida com algo inerente ao ser humano: o sentimento. O medo da morte. O medo de seguir adiante. O medo do desconhecido. O medo. 

O que Mike Flanagan faz nas duas temporadas de The Haunting of, com a Residência Hill e a Mansão Bly, é espremer esses sentimentos e utilizar até sua última gota, mesclando com outras essências aqui e ali. E isso pode não funcionar para todos, afinal é disso que é feito o horror. Mas funciona para mim. O drama que envolve os personagens de Flanagan em suas vidas transformadas por segredos e perdas funciona para mim, porque é um medo que me atinge. Você nunca se pegou pensando no que há depois? O que vai sobrar de você? Se vão se lembrar de você? Você nunca imaginou, por um momento sequer, como é reviver todas as suas memórias no pós-morte, ver seus erros e seus acertos como agente passivo, e descobrir que suas mãos estão atadas pela eternidade? Nunca passou pela sua cabeça que a morte pode não libertar, e sim ser uma prisão? 

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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