O Sinaleiro, de Charles Dickens


Sim, ainda estou presa nos fantasmas.

Mas também estou presa em um livro um pouco grande e denso, então tenho lido alguns contos no meio do caminho para dar uma quebrada no ritmo. Esse livro que estou lendo tem uma razão muito especial, e eu poderei contar sobre ele logo menos, em novembro. Mas, por enquanto, vou fazer algumas resenhas e apontamentos em contos menores, principalmente para não deixar o blog parado (agora que consegui retornar a disciplina de postagens por aqui, pretendo continuar. Tem sido um excelente exercício e eu gosto de apontar as leituras que tenho feito).

Bem, esses dias me bateu uma vontade enorme de ler Charles Dickens. Fazendo algumas pesquisas sobre o gótico (que, além dos fantasmas, é outro assunto que tenho prestado atenção), o nome de Dickens surgia bastante. E me lembrei da experiência que tive lendo Grandes Esperanças. Além disso, está chegando o Natal, e me lembrei de Um Conto de Natal. Essas foram as duas únicas coisas que li de Dickens, mas chegou um momento que pensei "quero conhecer mais sobre ele", e foi o que comecei a fazer.

Recentemente comprei Contos Fantásticos do Século XIX Escolhidos por Italo Calvino, edição da Companhia das Letras, com vários tradutores (cada conto foi traduzido por um tradutor), e encontrei alguns autores que admiro bastante e gostaria de conhecer mais, como Nathaniel Hawthorne, E.T.A. Hoffmann e o próprio Dickens. 


Sobre a edição em si, selecionada como o título afirma por Italo Calvino, é interessante. Logo na Introdução (trad. Mauricio Santana Dias), Calvino diferencia duas correntes de Fantástico que guiaram suas escolhas para os textos presentes na obra: o "Fantástico Visionário" e o "Fantástico Cotidiano". Para Calvino, o "Fantástico Visionário", que é mais presente no início do século XIX, se concentra na possibilidade da existência ou não desses fantasmas, "o verdadeiro tema do conto fantástico oitocentista é a realidade daquilo que se vê: acreditar ou não acreditar nas aparições fantasmagóricas, perceber por trás da aparência cotidiana um outro mundo, encantado ou infernal" (p.13). Já o "Fantástico Cotidiano", seria o que pouco se utiliza dessas sugestões visuais, e é mais recorrente já no final do século. Como exemplo, Calvino cita dois contos de Poe: "A queda da Casa de Usher", exemplificando a primeira modalidade, e "O Coração Denunciador", na segunda. 

Mas, como afirma o próprio Calvino, esses elementos são intercambiáveis. Não importa se eu concordo com tudo que Calvino afirma na sua introdução (eu não concordo), mas é interessante essa percepção. Claramente essas classificações acompanham um contexto temporal e histórico bem delimitado: no início, com uma forte presença do pensamento romântico, as histórias foram se adaptando de acordo com as preocupações de seus leitores. Apesar de Calvino aqui chamar de fantástico (e muito disso é pelas próprias definições utilizadas no período, que podem ser repensadas e apontadas em outro texto com um pouco mais de pesquisa da minha parte), muitos dos contos que ele selecionou possuem fortes elementos de terror. Principalmente a presença dessas figuras fantasmagóricas, reais ou não.
 

Sobre o conto

"O Sinaleiro", de Dickens (trad. Ricardo Lísias), está na segunda parte do livro, como "Fantástico Cotidiano". Publicado originalmente em 1866, "O Sinaleiro" conta a história de um homem que trabalha como sinaleiro em um local bastante solitário "e rude", e que começa a ter visões estranhas de um espectro que tenta lhe avisar de algo. No conto, o narrador conta que encontrou esse trabalhador na linha do trem certo dia, que começou a conversar com ele, e que ele lhe contou essa história. Durante um ano o homem foi atormentado por esse espectro que aparecia sempre que uma grande tragédia fosse acontecer, sempre falando as mesmas palavras: "Ei! Aí embaixo! Cuidado! Cuidado! Pelo amor de Deus, saia da frente!". Pouco depois de nosso narrador protagonista conhecer o homem, ele acabou mesmo sofrendo um acidente e morreu atropelado pelo trem, nos trilhos de que tomava conta, em um serviço que conhecia melhor do que ninguém, e sem razões aparentes. 

Ilustração de "The Signal-man", feita por Edward Dalziel, em 1866. Imagem escaneada por Philip V. Allingham. Créditos ao site The Victorian Web

Como afirma Calvino, essas duas separações entre visionário e cotidiano seriam intercambiáveis, e esse caso pode entrar nessa categoria. O homem viu um espectro, mas não era essa a real tensão e terror que o fazia estremecer, eram as consequências desse encontro. Ele sabia que algo terrível aconteceria caso esse espectro aparecesse, mas não era a aparição que o fazia temer, e sim o que viria com ela. Então sim, nós temos esse elemento do "fantástico visionário", mas também temos a questão psicológica do "fantástico cotidiano", esse medo da morte, esse medo do que irá acontecer, esse pressentimento de desgraça iminente.

Outro conto de Dickens que trabalha essa mesma ideia é "Para ler no escuro", disponível em português com tradução de Laura Scaramussa Azevedo, no projeto Literatura Descoberta. No conto, alguns guias turísticos se reúnem para contar histórias misteriosas. Não histórias de fantasmas, mas histórias misteriosas, pautadas na realidade. O guia alemão, que puxa as histórias, fala em dado momento:  "eu falo de coisas que acontecem de verdade. Quando quero ver magia, eu pago para um profissional e faço valer meu dinheiro", e sempre questiona aos seus interlocutores quais os nomes que eles dariam a esses encontros meio assombrosos e paranormais, como quando irmãos pressentem que o outro irmão está morto ou à beira da morte. 

Para Dickens, em ambos os contos, essas experiências não tem nome. Não são exatamente fantasmas, esses espectros carregam uma premonição com eles. Assim como em Um Conto de Natal, em que o espectro de Scrooge  anuncia um momento terrível, o horror está na possibilidade daquele futuro se tornar real. O fantasma pode até assustar, mas é na realidade que mora o verdadeiro perigo. 

Compre os livros

O projeto Literatura Descoberta é bem interessante. Traduzindo contos que estão em domínio público, o projeto foi idealizado por Laura Scaramussa Azevedo, bacharelanda em Tradução pela Universidade Federal de Ouro Preto. Os ebooks tem um valor bem interessante e estão disponíveis no kindle unlimited. Para conhecer mais do projeto: Instagram Literatura Descoberta. Para ler o conto "Para ler no Escuro": Amazon. Agradecimento especial para @samia_schiller que me lembrou desse projeto. 

  • Contos Fantásticos do Século XIX: Amazon

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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