O Noivo Espectral, de Washington Irving, e os amantes fantasmas

La Ballade de Lénore ou les Morts vont vite, de Horace Vernet (1839)


Dando continuidade aos meus livros escolhidos para outubro, a primeira leitura foi A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, publicado recentemente pela Editora Wish em uma edição incrível, financiada através de campanha coletiva pelo Catarse. Fui uma das apoiadoras e fiquei extremamente feliz com o resultado final do livro. 

Sobre o livro e o conto


Com tradução de Camila Fernandes, o livro conta com outros três contos de Washington Irving: "Rip Van Winkle", "O Noivo Espectral" e "O Diabo e Tom Walker", além de um prefácio contextualizando as produções de Irving escrita por Oscar Nestarez e uma introdução falando sobre (a falta da) presença de negros nas histórias do autor, e o que podemos observar disso. 

A adição dos contos, prefácio e introdução tornam ainda mais interessante o material, e foi uma feliz surpresa conhecer algumas outras histórias de Washington Irving. Dentre elas, a que mais me chamou a atenção, foi "O Noivo Espectral".

Em "O Noivo Espectral", conhecemos uma jovem muito bonita e prendada, mantida isolada e "guardada" dos olhares maliciosos dos rapazes, a bondade e pureza em pessoa. Certo dia, seu pai a promete em casamento para um jovem de uma família muito rica. O rapaz, entretanto, não consegue chegar até sua prometida pois é surpreendido por uma trupe de ladrões, e pede que seu companheiro de viagem vá até o castelo avisar o acontecido. 

Como é mencionado por Nestarez na introdução do livro, é perceptível a influência gótica nesse conto, e a influência também de um poema bastante lembrado quando o assunto são mortos-vivos: "Lenore", de Gottfried August Bürger, publicado originalmente em 1774. É deste poema a famosa frase que aparece em Drácula, de Bram Stoker: "A lua resplandece / Nós os mortos cavalgamos velozes". De acordo com as informações que constam no livro Contos Clássicos de Vampiros, da Editora Hedra, com tradução de Marta Chiarelli, esse poema foi uma sensação quando lançado, recebeu uma série de traduções a partir de 1790, e era algo que Percy Shelley apreciava bastante.

Bürger, também de acordo com as informações da edição da Editora Hedra, fazia parte do movimento "Sturm und Drang" (Tempestade e Ímpeto), e como Goethe, gostava de utilizar elementos folclóricos em suas criações. Em "Lenore" isso não foi diferente. 


A lenda do noivo fantasma não era exatamente nova quando Bürger escreveu seu poema, e é difícil precisar quando essa ideia surgiu, assim como tantas outras lendas, mas sabe-se que era um tema recorrente em diversas localidades. Desde um conto húngaro, passando pela Islândia, até um conto não publicado dos Irmãos Grimm e uma história nativo-americana, o elemento do namorado/noivo/esposo ou amante fantasma se fez presente. Até mesmo em um livro publicado por Lady Francesca Speranza Wilde, mãe de Oscar Wilde, em 1887, há uma lenda irlandesa com o elemento. 

A razão por trás de tantos noivos fantasmas podemos apenas especular. Um período de conflitos crescentes, em que diversas pessoas amadas foram perdidas, atrelado ao forte romantismo do final do século XVIII e ao longo do século XX; uma dúvida e curiosidade constante e crescente do que aconteceria no pós-vida; questionamentos sobre a alma e sobre o intangível e sobrenatural; essas podem ser algumas das razões da quantidade dessas histórias. Mas um ponto interessante é como esses amantes fantasmas foram tão importantes nas narrativas que se seguiram desde então, nas narrativas góticas e até mesmo nas histórias de horror, e influenciaram diretamente histórias como "O Noivo Espectral", de Irving, em 1819, ou Drácula, de Bram Stoker, em 1896.

Vale mencionar também que essa não foi a única inspiração que Irving pegou de Bürger. Como mencionado no prefácio de Nestarez para a edição da Editora Wish, "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça", em si, também tem elementos em uma lenda húngara, que Bürger trabalhou em "O Caçador Selvagem", e ainda em uma das Lendas de Rübezah, do alemão Karl Musäus. 


No final, conhecer essas histórias e suas bases ajudam a compreender um longe processo pelo qual o gênero do horror passou durante seus anos de existência. Histórias originalmente engraçadas ou com alguma moral, com um ou outro elemento arrepiante, serviram para ajudar a construir o horror que temos hoje. 

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram