O Monge, Matthew Gregory Lewis


Desde que trabalhei com Drácula, no final da faculdade, tinha uma vontade imensa de me debruçar sobre os livros góticos tradicionais. Gosto de compreender os elementos do horror, de onde vieram, como uma coisa influencia a outra, de onde os autores que gosto retiram suas ideias. É uma das partes que mais gosto do meu trabalho. 

Depois de ler Castelo de Otranto, de Horace Walpole, e Romance Siciliano, de Ann Radcliffe (este último fiz uma resenha que pode ser lida aqui), percebi que era um tipo de literatura que eu gostava bastante, e queria conhecer mais. Então, esse mês, que tenho pensado bastante em histórias de fantasmas e século XIX, achei que seria divertido ler O Monge, um dos romances góticos mais peculiares, escandalosos e polêmicos de sua era. Eu não esperava nada do que iria encontrar pela frente, e olha que encontrei muita coisa. 

Sobre o livro

O Monge, de Matthew Gregory Lewis, foi lançado no Brasil pela Pedra Azul Editora, com tradução de Maria Aparecida Mello Fontes. O livro, publicado originalmente em 1796, de forma geral, conta a história de Padre Ambrósio, um padre muito querido e amado em Madri, que acaba caindo nas garras da tentação carnal e se torna um grande pecador. 

Essa seria a sinopse muito reduzida de O Monge, que em suas 292 páginas carrega tantos assuntos que você acaba sendo atingido sem saber exatamente o que o atingiu. Lewis resolveu que não escreveria uma história simples, ele queria chocar sua audiência e denunciar os males que a religião poderia causar no espírito humano. Se seus leitores conseguiram captar a essência de seu trabalho em sua época não posso afirmar, mas o livro se tornou um best seller e foi alvo de severas críticas por alguns elementos utilizados. Dentre eles, as blasfêmias, os encarceramentos, os cadáveres em decomposição, as cenas de sexo e, claro, como cereja do bolo, a adoração ao diabo. 


O livro se passa em Madri, em sua maioria, mas tem pequenas partes na Alemanha e arredores. Eu o dividiria em três núcleos de personagens principais que acabam se relacionando entre si: 

1) Ambrósio, o padre, líder da ordem dos capuchinhos, homem muito respeitado que galgou seu lugar de destaque com muito cuidado; e Rosario, que logo descobrimos se tratar de Matilda, uma mulher disfarçada como homem que ingressa no mosteiro dos capuchinhos para se aproximar de Amrbósio;

2) Lorenzo de Medina e Antonia, que abrem o romance. Lorenzo de Medina é um homem rico, que se apaixonada por Antonia assim que a vê na missa de Padre Ambrosio. Decidido a se casar com ela, resolve interceder por seu destino junto a Dom Ramón, marquês de Las Cisternas, de quem Antonia é uma parente rejeitada. Lorenzo também é irmão de Agnes, uma jovem que está contra a vontade no convento de Santa Clara. Antonia é uma garota meiga, reconhecida por sua beleza e timidez, muito jovem e muito afetuosa com sua mãe, Elvira, que está enferma.Seu pai fugiu com sua mãe para se casarem, e seu avô, descontente com a situação, as ajudava financeiramente. Sem ajuda, entretanto, Antonia e sua mãe, passavam certa necessidade, e contavam com o apoio de Lorenzo perante Dom Ramon para receberem ajuda financeiramente.

3) Dom Ramón, marquês de Las Cisternas, apaixonado por Agnes, prometido a ela. Agnes é uma jovem com uma família supersticiosa, que a prometeu ao convento caso ela sobrevivesse ao nascimento, após uma gestação difícil de sua mãe. Foi mandada viver na Alemanha até completar a idade para assumir o véu. Dom Ramón, em uma armadilha do destino, se apaixonada por ela e resolve pedir sua mão. Os dois resolvem fugir, mas tudo dá errado graças a interferência de sua tia invejosa, Dona Rodolfa, e Agnes é enviada ao convento. No convento, Dom Ramón e Agnes se encontram novamente, e, em uma paixão arrebatadora, Agnes acaba "perdendo sua honra" antes de se casar, o que os leva a tentarem fugir juntos de novo, e os planos dos dois são arruinados novamente. 

Então, bem, o livro é denso. É ao redor dessas três histórias que todas as histórias e personagens secundários se desenvolvem, e os destinos desses três núcleos de personagens acabam se interligando de forma fatal e aterrorizante em uma teia de intrigas e terrores. 

"Ambrósio iria ainda aprender que, para um coração inexperiente, o vício é sempre mais perigoso quando se esconde por trás da máscara da virtude."

Eu não quero dar spoilers aqui — e tenham certeza que tudo isso que contei até agora da história não chega a 20% do conteúdo real do que acontece nesse livro —, mas entre todos esses acontecimentos ainda dá tempo de termos histórias de fantasmas reais, bruxaria e adoração ao demônio. 

O livro não está livre de preconceitos de sua época, que fique claro. O papel da mulher é sempre reafirmado como o de um sexo frágil e incapaz de raciocínios complexos. Suas donzelas são frágeis e exemplos de mulheres "dignas", com exceção de Matilda, que está no espectro contrário, sendo a bruxa, a criatura maligna. As mulheres mais velhas, principalmente as "solteironas", são tidas como histéricas e desesperadas por um casamento. Algumas noções errôneas sobre outros locais também são mencionadas rapidamente em alguns capítulos.

É necessário também deixar um alerta de gatilho: ocorre um estupro na terceira e última parte do livro, além de vários abusos de poder e situações tensas de maus tratos. Então, se optar por ler esse livro, tenha isso em mente. 

O livro foi polêmico em seu lançamento justamente por esses assuntos. Além de todos os elementos que, tecnicamente, a população já estava meio que acostumada nessas narrativas de romances, drama ou medo, há a presença sobrenatural, os abusos de poder de um membro da Igreja Católica, e um demônio de verdade, em carne e osso e asas vermelhas (tudo bem, isso é um spoiler, mas é um spoiler divertido). Então, imaginem o reboliço social que uma narrativa dessas não causou. Certo, figuras como Fausto já eram conhecidas no período, mas a exposição e a forma explícita que Lewis trata sua história deve mesmo ter sido chocante.

A temática monástica, principalmente sobre monges ou padres que encontram a tentação em criaturas sobrenaturais ou não, rendeu e ainda rende muitos frutos. Ainda no século XIX Théophile Gautier trabalhou com o tema em "A Morte Amorosa", publicado originalmente em 1836, sobre um padre chamado Romualdo que caiu nas tentações de uma vampira chamada Clarimunda. 

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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