O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde


A maioria de nós conhece Oscar Wilde pelo seu livro de maior sucesso, O Retrato de Dorian Gray, e talvez por detalhes de sua vida pessoal. Mas Wilde foi um autor bastante prolífico. Dentre peças de teatro, poemas e contos infantis, o autor descrevia de forma cômica e bastante ambígua a sociedade da época e construía fábulas morais.
Meu primeiro contato com Wilde veio ainda quando eu era criança, quando, e aqui eu não sei dizer como isso se deu, tive contato com a história de "O Gigante Egoísta". Na história, um grupo de crianças invade o jardim de um gigante para brincar, mas o gigante os expulsa de lá. Com o tempo, eles acabam ficando amigos, e as crianças passam a ser bem vindas no local. O gigante, após um tempo de amizade, acaba falecendo. Não me lembro, realmente, se minha mãe lia o conto para mim ou se assisti alguma animação, mas me lembro muito bem da história.

Foi só com meus 15 anos que tive contato novamente com Wilde, com O Retrato de Dorian Gray, e que fui lembrada de "O Gigante Egoísta", quando ganhei uma cópia de O Príncipe Feliz e Outros Contos. Foi nesse período também que comecei a me interessar pela vida do autor, soube do seu julgamento, tive contato com "De Profundis" (ainda hoje minha obra preferida de Wilde).


Oscar Wilde e eu continuamos nos cruzando por muitos anos depois, como durante a faculdade, enquanto estudava Drácula e ia atrás da biografia de Bram Stoker e descobri que ambos cortejaram Florence Balcombe — e Stoker acabou se casando com ela. Ambos frequentavam os mesmos círculos sociais em Londres, o que me trouxe de novo para perto do autor. 

Então, meu relacionamento com Wilde acaba sendo sazonal. Sempre me volto a ele em algum momento ou outro e sempre me lembro dele, mas a vontade de reler algumas de suas obras vem em ondas. E acabei entrando em uma dessas ondas recentemente quando uma adaptação de O Fantasma de Canterville entrou no catálogo da Netflix. Fazia muito tempo que eu não lia o conto, e não era um dos meus preferidos, então quis reler para assistir ao filme. E, como estou em um momento de fantasmas, resolvi escrever um pouquinho sobre ele.

O Fantasma de Canterville


No conto, a família Otis acaba se mudando dos Estados Unidos para a Inglaterra e se instala no Castelo de Canterville. A família Canterville se mudou de lá pelas constantes situações de tormento que viviam com um fantasma, e ninguém aguentava mais a assombração mal-humorada. Mas as coisas ficam diferentes com os Otis, porque os norte-americanos simplesmente não se importam com a presenta do fantasma. Além do que, claro, os gêmeos da família são muito piores com o fantasma. A única que tem um pouco de empatia com a pobre criatura é Virginia, que acaba se sentindo disposta a ajudar o fantasma a encontrar a luz. 

Li o conto na edição de Contos Completos de Oscar Wilde, da Editora Landmark, com tradução de Luciana Salgado. Eu tinha uma edição brochura do conto que eu amava, mas infelizmente ela se perdeu pelo mundo.

Relendo o conto eu consegui gostar muito mais dele hoje em dia (levando em consideração que fazia dez anos que não o lia) porque consegui captar algumas camadas que na época não apareceram para mim. É engraçada a forma que Wilde trata seu fantasma protagonista: ele tem uma missão, ele é obrigado a assombrar aquela casa. Dessa forma, Wilde também demonstra uma consciência muito grande na sua criação. O fantasma afirma de sua própria boca que ele é um fantasma, então é isso que ele precisa fazer, ele não tem outro propósito além de vagar por aí. 

Outro ponto divertido é o choque entre a cultura norte-americana, que não dá a mínima para o fantasma ou para a missão dele, e os ingleses, que estão tão acostumados com ficarem assustados com fantasmas que é algo tradicional a eles. Uma mansão ou um castelo inglês é mal-assombrado e isso, no conto de Wilde, se mostra como fato. Novamente é uma brincadeira com a figura do fantasma, um tipo de subversão, mas que também demonstra uma grande consciência por parte de Wilde: ele conhece as tradições europeias de histórias de fantasma e acaba mexendo com elas, as desmontando conforme inclui um par de gêmeos que é simplesmente muito pior que qualquer fantasma.

No final do conto, quando Virginia salva o fantasma, é recompensada com uma caixa de joias. Seu pai insiste para que fique com a família Canterville, como se demonstrando um grande altruísmo norte-americano; mas o Lorde Canterville afirma que, quando for mais velha, Virginia acabará ficando feliz por ter essas joias na família. Isso demonstra talvez uma forma bastante feliz e positiva que Wilde via alguns norte-americanos. 

Mas, claro, o conto também reflete alguns costumes bastante ruins do período: assim como em Drácula, a figura do cigano é tida como maligna, e são os primeiros a serem acusados quando Virginia desaparece. Virginia, como sabemos ao longo do conto, desaparece para ajudar o fantasma. Mas, diferente de Drácula, Wilde logo desfaz o engano e afirma como o grupo cigano ajudou na busca pela garota. Até onde Wilde acreditava em seus escritos não sei dizer, mas é uma diferença interessante entre as duas obras e a forma de tratar o grupo que sofria (e sofre) tanto preconceito, tidos como perversos.

O conto é bem divertido por sua veia naturalmente cômica, enquanto o fantasma tem uma história bem trágica e triste, o que cria um equilíbrio meio mórbido. Mas é uma leitura interessante.

O Fantasma de Canterville, 1996


Dirigido por Sydney Macartney, protagonizado por Patrick Stewart e Neve Campbell, o filme adota um ar mais adolescente e moderno. No filme, a família Otis se muda para o Castelo de Canterville porque o pai, Hiram, é um pesquisador de física e acabou alugando o local. Virginia, a filha, acabou tendo que deixar os amigos nos Estados Unidos para se mudar e não parece muito feliz com isso. Enquanto no conto todos acreditam no fantasma existe, no filme, para piorar a situação de Virginia, todos pensam que é ela quem tem pregado peças para assustar seus irmãos mais novos e demonstrar o quanto está irritada com a situação. 

É como um dos muitos filmes adolescentes lançados na década de 1990, mas com o detalhe do fantasma rondando a casa. Se você gosta do conto, é uma adaptação divertida, mais moderna e bem simpática. 

E, claro, não podemos deixar de mencionar Simão, O Fantasma Trapalhão, lançado somente dois anos depois do filme de Macartney. No filme, Didi e Dedé acabam embarcando em uma viagem que ambos não gostam nadinha: um senhor milionário acaba comprando um castelo assombrado para que seus netos passem as férias. O filme foi levemente inspirado no livro de Wilde, o que é um detalhe no mínimo curioso e mostra como o autor acabou sendo uma referência enorme, mesmo quando não falamos de O Retrato de Dorian Gray.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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