Talvez a função dessa obra de terror não seja provocar o medo pelo medo

Talvez a função dessa obra de terror não seja provocar o medo pelo medo

Uma das frases que mais li durante esse tempo trabalhando com terror foram de fãs dizendo "não senti medo nenhum vendo esse filme", e isso sempre me provoca uma série de questionamentos. Será que essa pessoa é tão corajosa assim? Será que nada causa medo nela? Será que ela está mentindo? Será que ela morreu por dentro?

E eu percebi que a resposta dessa pergunta seria uma outra pergunta muito mais importante: será que essa obra, em particular, foi feito só pra provocar o medo? E isso pode parecer uma pergunta com uma resposta óbvia, mas ela não é. Não é incomum que só o medo esteja ligado ao terror. Quando falamos de medo, falamos de uma série de outros sentimentos envolvidos.

O terror trabalha com emoções. O medo principalmente. Mas não é só de medo que uma obra de terror é feita. O desconforto, o pavor, o temor, a aflição, o sentimento de que algo está errado, o sentimento de desgraça iminente, a inquietação, o absurdo, todos podem se relacionar com o medo de alguma forma, mas a essa altura do campeonato é no mínimo muito ingênuo afirmar que a obra de terror é feito somente pra causar medo em alguém.


Assim como já vi muitos dizerem que não gostaram de tal filme porque não sentiram medo, já vi, quando perguntados, que tal filme causa sim um certo desconforto, mas medo não. Oras, mas é esse o ponto. O desconforto que você sente em O Exorcista não necessariamente é o medo de que aquilo aconteça com você, de que Pazuzu entre em sua vida daquela forma, mas talvez de entender no subtexto de que o mal pode entrar na sua casa de uma maneira muito avassaladora. E isso é obvio pra alguns, mas absolutamente impossível de compreender pra outros.

O horror é um gênero muito fértil e amplo e pode ter uma série de utilidades — bem como pode não ter utilidade nenhuma, também, e tudo bem. Mas utilizar o terror, seja ele qual for, um dos sentimentos primordiais de se ser humano, para contar uma história diz muitas coisas, e pode dizer ainda mais. Nem sempre todas as obras de horror tocarão a todos, essa não é a função delas, e é por isso que existem tantos subgêneros e categorias de horror por aí: o que funciona para você, pode não funcionar para o seu amigo do lado.


Quando dizemos que não sentimos medo de tal filme e por isso ele falhou como terror somente porque não sentimos medo, desconsiderando completamente tudo que foi feito ali, o trabalho, a produção, a forma, a gente reduz o terror a uma única função, e ele tem várias outras. O horror mexe com a gente. Ele tem impacto sobre nós. Ele trabalha com nossos sentimentos, ele tem gatilhos pra que a gente se sinta aterrorizado, mas não necessariamente o medo vai te deixar paralisado, e não necessariamente todos os filmes têm que funcionar para todos.

É completamente natural não se gostar de um filme, mas afirmar com certeza que o filme não é de terror porque você não se sentiu com medo, aí é complicado.

Quando pensamos, por exemplo, nas discussões que envolvem o black horror ou o queer horror, pensamos em um tipo de terror que pessoas brancas ou cis podem não se identificar, mas as obras tem o poder de fazer compreender, pelo menos; fazer, por alguns minutos, se colocar ao lado daqueles personagens. As metáforas utilizadas, todas as alegorias, servem para trabalhar determinados assuntos, e nem todas envolvem o medo propriamente dito. Às vezes, elas trabalham de formas diferentes em pessoas diferentes.

Dependendo do público, nem todos vão se sentir aterrorizados com elementos sociais nas obras de terror, mas uma parcela desses espectadores vai refletir sobre as questões debatidas. O horror pode surgir daí, e é uma ferramenta importante nos dias atuais.


O horror age de formas desconhecidas sobre a vida de cada um que o assiste. E, de certa forma, isso é uma das bases do gênero. E, não querendo soar como uma pessoa apaixonada, isso é uma das belezas do gênero. Quando pensar sobre o gênero, leve em consideração o que está além da tela, pense nos assuntos que aquele filme ou livro aborda e nos gatilhos que ele produz. É interessante observar as diferentes formas que o terror pode ser trabalhado.




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

3 comentários:

  1. esse texto deveria ser a introdução de todo e qualquer curso, livro, filme, série, hq, audiobook e tudo o mais relacionado ao horror. Parabéns mais uma vez, Jéssica, por nos ensinar a ser mais simples e observar o horror com mais clareza.
    Obrigado!

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    1. Poxa vida, eu agradeço demais, demais mesmo. Muito obrigada <3

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  2. Boa reflexão, no Brasil existem muitos sites que fazem análises de filmes, mas poucos que trazem temas para refletirmos sobre o gênero, pois o considero bastante diversificado e complexo, mas no pensamento popular, como dito por você, é como se o terror fosse obrigado a dar medo, a somente assustar.
    É claro que o assustador tem várias faces e não quer apenas dizer susto, nostalgia pode ser assustador em alguns casos, saudade, solidão, até mesmo o sucesso.
    Não tomei susto assistindo Hansel and Gretel, filme de terror coreano de 2007, ou Kairo de 2001, mas eles mexeram bastante com minhas emoções, e me assustaram de uma outra forma.
    Como dito por você, um filme para ser terror não tem obrigação de dar sustos, a várias maneiras de sentir medo, e o medo muitas vezes está relacionado a um sentimento bom.
    Uma mãe ama intensamente seu filho, e esse amor cria ao mesmo tempo o medo de perdê-lo, por mais que amar seja bom, o medo também o acompanha, e o medo consequentemente gera dor, medo as vezes nos faz chorar e não necessariamente nos leva a sustos.
    Quantas pessoas não desistem de seu talento e sucesso por medo de arriscar, apesar de seu medo estar ligado a uma sensação boa de conquistar algo.
    O medo também está ligado a empatia, e certos filmes poderão ser assustadores ou não dependendo da experiência de sua vida pessoal, e isso resulta em quanto você irá imergir na narrativa.
    Um homem que assiste O Sexto Sentido e nunca perdeu a esposa ou alguém que ama, não irá criar a mesma empatia de um homem que perdeu sua esposa e vê no Malcom um espelho de si mesmo, e o desespero de não poder mais estar próximo de quem ama, e isso é assustador, e nesse caso o medo não está ligado a um susto, e sim na ausência de quem se ama.
    Dependendo de como está sua vida pessoal, determinado filme te impactará e criará medos diferentes.
    (Gostei quando você disse, "O horror age de formas desconhecidas sobre a vida de cada um que o assiste").
    Talvez uma pessoa que esteja passando por um momento depressivo ao assistir Babadook se identifique com a protagonista Amelia, e isso pode gerar um medo nela, um medo gerado pela empatia ao se identificar com o desespero do outro.
    Terror não é só susto, terror muitas vezes é um trauma que carregamos conosco a tantos anos e não conseguimos superá-lo, terror é se identificar com a protagonista de A Tale of Two Sister e sentir um vazio desesperador que te enlouquece a cada dia.
    (Por curiosidade esse filme veio para o Brasil com o nome Medo, queria poder conversar com a pessoa que escolheu esse título para saber qual foi seu entendimento do filme para escolher um título que apesar de simples, diz muito sobre a história).
    Parabéns pelo texto, pena que esse gênero não é levado a sério pela maioria das pessoas, e por isso existem poucos artigos sobre o gênero analisando suas diversas camadas.
    Também escrevo um pouco sobre esse gênero e estou sempre procurando algo pra ler sobre ele.
    Fica na paz.

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