O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock


Existem algumas histórias que nos deixam mais desesperançados quando as terminamos do que quando as começamos. E, em pleno 2020, era de se esperar que isso fosse difícil. 
O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock, lançado pela DarkSide Books com tradução de Paulo Raviere, é uma dessas histórias. Uma história cruel, sobre destinos cruzados, falta de caráter e pecados.

Sobre o livro

Passando principalmente nas cidades de Knockemstiff e Coal Creek, a história começa com Willard, um soldado que acaba de retornar da Guerra para casa e acaba se apaixonando pelo caminho por Charlotte, uma garota que trabalhava como garçonete em um dos locais que Willard passou na viagem para a casa de sua mãe, Emma. Willard retorna, mas conta que está apaixonado por uma garota e não sabe seu nome, o que deixa Emma preocupada, mas principalmente por ter prometido a Deus que, se Willard voltasse, ela o faria se casar com uma jovem da igreja local, Helen.

Os planos de Emma dão errado, pois Willard se casa com Charlotte e Helen acaba se casando com um pastor recém-chegado chamado Roy. Willard e Charlotte tem um garotinho chamado Arvin e Helen e Roy uma garotinha chamada Lenora.

Desde já é preciso deixar claro que, em O Mal Nosso de Cada Dia, a felicidade não dura muito tempo. Se eu soubesse disso antes de começar a ler o livro, talvez não tivesse ficado tão impactada com a corrente de tragédia que começa a acontecer a partir desse ponto. 



Para não entrar em tantos detalhes, e para não soltar nenhum spoiler, só é preciso dizer que os destinos de Arvin e Lenora acabam se cruzando na casa de Emma, depois de duas desgraças — que não tem relação entre si — acabam alterando a vida das duas crianças. 

Entre indas e vindas, outros personagens aparecem na história e todos terão papéis importantes na trajetória de Arvin, que podemos considerar nosso protagonista principal (apesar de tantos nomes, é a motivação e os impulsos de Arvin que acompanhamos com maior pesar e tristeza). 

A história de O Mal Nosso de Cada Dia é principalmente sobre tragédias. Uma série de escolhas que acabam se cruzando e destruindo uma enorme quantidade de vidas pelo caminho, como um rolo compressor desembestado em uma rua movimentada. A narrativa de Pollock é seca, cruel; simples, mas muito eficaz, você se sente conhecendo e visualizando aqueles personagens e sabe que nada de bom pode sair dali. 

Acompanhar a vida dos habitantes das duas cidadezinhas, pequenas e rurais, em um período tão complicado como foram as décadas de 1950 e 1960 — aquele sentimento de vazio pós-guerra, desistência, de simplicidade de sentimentos, em que o bem e o mal acabam se mesclando a partir dos interesses próprios de sobrevivência — é acompanhar uma história dura e implacável. 


Mas, da mesma forma que considero O Mal Nosso de Cada Dia uma história rica em detalhes, que pode ser excelente, eu também preciso deixar dito de que não considero uma história para qualquer um. Não digo isso de forma arrogante, digo em forma de aviso: o livro contém linguagem de baixo calão e algumas descrições violentas que podem deixar alguns leitores bastante incomodados. 

* Livro recebido em parceria com a DarkSide Books. :)

Sobre o filme

O livro ganhou uma adaptação pela Netflix, lançada recentemente, dia 16 de setembro, dirigida por Antonio Campos. O filme conta com um elenco forte: Tom Holland como Arvin, Bill Skarsgård como Willard Russell, além de Robert Pattinson, Mia Wasikowska e Sebastian Stan.


Os atores escalados foram muito bem escolhidos e todos passam o sentimento exato de seus personagens. Tom Holland entrega um excelente Arvin, um garoto turrão e obrigado a vivenciar momentos terríveis desde muito novo.

A adaptação ficou bem mais leve que o livro. A história foi bastante enxugada, algumas relações foram cortadas, momentos foram retirados, o que pode dar a impressão de que ela ficou um pouco corrida demais. Mas, não altera a compreensão. Um recurso interessante foi o de utilizar uma narração, que ajuda a colocar os personagens e as situações em harmonia. Gostaria que uma coisa ou outra fosse mais explorada, mas, no geral, gostei bastante do resultado.

Confiram o trailer: 


Compre o livro


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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