Na Ponta dos Dedos, de Sarah Waters


O primeiro contato que tive com Sarah Waters foi com o filme Estranha Presença. Assisti ao filme sem saber muito sobre ele, e achei interessante a ideia, então fui procurar sobre o diretor e descobri que era baseado em um livro de mesmo nome de Waters. Eu sou uma pessoa naturalmente curiosa, então sempre procuro autoras novas, que não conheço, e grande foi minha surpresa com a quantidade de livros que a Waters têm publicados no Brasil.
Depois, fazendo algumas outras pesquisas, o nome Sarah Waters apareceu outras vezes, como autora de suspenses históricos, com elementos narrativos de estranheza, então fiquei muito interessada. 

Sobre o livro

Na Ponta dos Dedos, lançado no Brasil pela Editora Rocco, com tradução de Ana Luiza Dantas Borges, é um desses livros, e que também foi adaptado para o cinema, no filme coreano A Criada, de Park Chan-wook.

Dividido em três partes, acompanhamos a órfã Sue, que vive em um bairro mal visto e de reputação comprometida em Londres, quando um dia recebe uma proposta de Gentleman, um rapaz que frequentava a casa em que vivia, onde vários tipos, de ladrões a charlatões, costumavam a aparecer de vez em quanto. A ideia era que Sue fosse contratada como criada de uma dama que vivia em uma casa isolada, srta. Lilly, e que Gentleman desposasse a moça, para que ambos pudessem roubar a sua fortuna e interná-la em um hospital psiquiátrico. 

Mas, como as voltas que o mundo dá, todo o plano dá errado. Maud vive presa na casa de seu tio, que a obriga a uma vida de isolamento e a um trabalho estranho, com livros e leitura, que só ficamos sabendo do que se trata realmente na segunda parte.

Na primeira parte acompanhamos o ponto de vista de Sue, na segunda de Maud Lilly, e na terceira retornamos a Sue para o desfecho da história. O livro tem 589 páginas, e pode parecer meio repetitivo levando em consideração que trechos da mesma história são contados por duas personagens diferentes, mas tem uma coisa muito interessante feita por Waters aqui: as falas das personagens, quando a história é contada por uma ou pela outra, são diferentes. 


Passagens que conhecemos da primeira parte são contadas de forma diferente, com frases alteradas pela personagem que está contando. Sabemos que uma história, conforme passa de boca em boca, é alterada por aquela que conta, e isso é um trunfo bem legal na narrativa: as duas personagens tem modos diferentes, estão em classes diferentes, e o que cada uma narra e acha importante na forma de contar a história é também diferente.

Confesso que não esperava nada que aconteceu durante o romance (em partes porque li a sinopse de outro livro de Waters quando optei por esse, então esperava realmente algo diferente). A história toma rumos e curvas inesperadas até as últimas páginas, e prefiro não comentar abertamente para manter a surpresa. O ponto é que o destino de Sue e Maud se cruzam em uma teia estranha e cheia de circunstâncias tensas. 

Acho interessante as personagens de Sarah Waters nesse livro: todas elas têm uma moral duvidosa. Comparo, nesse caso, a Sarah Waters com a Gillian Flynn: as personagens de Waters não precisam ser boas, elas podem ser sórdidas e terríveis, como elas são. A diferença é que enquanto a Flynn escreve no contemporâneo, a Waters escreve ficção histórica. E isso dá um charme nas narrativas. Na Ponta dos Dedos, por exemplo, se passa no século XIX, o já mencionado Estranha Presença no começo do século XX.

Na Ponta dos Dedos é um livro sobre escolhas e destinos entrelaçados, sobre cumplicidade onde menos se espera, com dramas, romance entre duas mulheres descobrindo a sexualidade e uma série de pequenas estranhezas que não costumamos ler em histórias do século XIX, mas Waters consegue contextualizar muito bem sua história. Maud Lilly se assemelha muito a uma personagem gótica, presa em uma casa isolada, e a ideia de que mulheres fossem facilmente mandadas para hospitais psiquiátricos quando queriam ser silenciadas e escondidas permeia todo o romance. Pode não ser um típico livro de horror ou de suspense, mas os pequenos elementos de histórias desses segmentos que Waters utilizam, constrói uma atmosfera muito interessante.

Se você gosta dos livros de Gillian Flynn e também gosta de romances históricos, talvez Na Ponta dos Dedos possa ser um livro interessante para você.

Pretendo continuar a leitura dos livros de Sarah Waters, mas ainda não me decidi por qual deles. Mas, muito em breve, devem ter novas resenhas por aqui.

A Criada — de Park Chan-wook, 2016


O filme, adaptado pelo diretor coreano Park Chan-wook, leva a história para os anos 1930, durante a ocupação do Japão na Coréia. 

Até o final da segunda parte, as coisas acontecem como no livro. Alguns elementos são alterados, até por conta da ambientação, e a história acaba se tornando mais fluida e rápida (mesmo que o filme tenha suas duas horas e vinte minutos). O filme trabalha muito mais os elementos sexuais da história, a relação entre Maud e Sue, que se chamam Lady Hideko e Sook-Hee, até mesmo os tormentos que Maud (no caso, Lady Hideko) passa com seu tio e suas "leituras". 

Entretanto, as resoluções finais são completamente diferentes. Alguns poucos acontecimentos da terceira parte se repetem, mas em ordens distintas (e, talvez eu goste mais do final do filme).

Park Chan-wook também é diretor da renomada Trilogia da Vingança, que inclui os filmes Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança. A trilogia aborda temas como ética e, como o próprio nome diz, situações de vingança. Recomendo muitíssimo, e se você quer saber mais sobre os três filmes recomendo o vídeo do canal Redatora de M*%$#, da Adriana Cecchi.

Compre o livro

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. eu fiquei doida pra ler depois de assistir (alok não sabia que tinha livro), muito pela questão de como sexo e sexualidade são abordados no filme.
    mas a questão do final sempre me pega um pouco, principalmente por você ter preferido o desfecho do filme.
    gostei de ver esse paralelo entre as duas obras e a indicação de outros filmes também

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    1. Então, cada vez que eu penso, eu não sei exatamente qual prefiro hahahaha o final do livro tem mais umas três reviravoltas, então chega um momento que fica meio absurdo demais. No filme o final é mais contido. Mas, como duas mídias diferentes, eu acabei gostando de ambas na verdade. A questão do sexo e da sexualidade é bem menos abordado no livro :)

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