Medo Imortal: Júlia Lopes de Almeida


Vários são os escritores que utilizaram elementos típicos do horror em suas obras, mas não necessariamente escreviam somente para o gênero. Na resenha que escrevi sobre os contos de Lygia Fagundes Telles (e que pode ser lido aqui), comentei sobre alguns dos contos que me chamaram atenção e tem alguns desses elementos — a estranheza, a surpresa, a degradação humana e o próprio medo do personagem principal, entre outros. 

Machado de Assis foi um dos nossos autores clássicos que brincou muito com alguns elementos de horror, e que muitos podem não se atentar ao fato. Além dele, muitos outros se arriscaram com um sustinho aqui, um cadaverzinho acolá, uma história com mortes e maldições e medos dos mais variados tipos. 

No livro Medo Imortal, lançado em 2019 pela DarkSide Books, a ideia era reunir as histórias com elementos de horror dos criadores da Academia Brasileira de Letras. E isso incluiu Júlia Lopes de Almeida, uma das criadoras, que teve seu nome retirado da história da ABL por ser uma mulher. Na época, Júlia não podia integrar o quadro de pensadores. 

Este foi meu primeiro contato com o nome de Júlia. Em seguida, li A Falência para o encontro de janeiro desse ano do Leia Mulheres de São Paulo. Também li o Ânsia Eterna, de Verônica Berta, que adapta três contos de Júlia para os quadrinhos, um trabalho incrível. Ânsia Eterna é também o nome do livro de contos de Almeida, com 30 contos curtos.


Em A Falência, acompanhamos a história de uma família de uma classe alta, com suas rotinas e suas vidas, até o momento em que uma tragédia se abate sobre eles e desestrutura tudo aquilo que eles conheciam, levando a família a uma série de mudança. Quem eles achavam conhecer, já não conhecem mais. A ruína se instaura. É a obra mais conhecida de Júlia Lopes de Almeida, mas a autora explorou muito além de dramas familiares em suas obras, e seus contos demonstram como ela foi capaz de construir atmosferas sombrias.

É na coletânea Ânsia Eterna que o poder de narrativa com elementos sombrios, e até mesmo góticos, de Júlia Lopes de Almeida aparecem com maior força. Em sua introdução sobre a autora em Medo Imortal, Romeu Martins, organizador do livro, menciona e traz trechos da dissertação de Ana Paula A. Santos, O Gótico Feminino na Literatura Brasileira: Um Estudo de Ânsia Eterna de Júlia Lopes de Almeida, (a dissertação completa de Ana Paula pode ser lida aqui) no qual a pesquisadora escreve que:
Os contos de Ânsia Eterna demonstram que o nosso Gótico feminino, tal como a literatura de medo brasileira, privilegiou a violência, o horror e as descrições expressivas de transgressões e experiências traumáticas como forma de suscitar no leitor os efeitos estéticos do medo: suas obras dialogaram diretamente com a tradição do Gótico literário, e, junto a outras escritoras góticas, trouxeram para a ficção brasileiras horrores indubitavelmente femininos.
Por mais que eu discorde e tenha minhas preocupações e críticas a essa ideia de "horrores indubitavelmente femininos", o que a pesquisadora escreve demonstra algo que nós ignoramos com muita facilidade: uma tradição de uma "narrativa de medo" brasileira. Não somente Almeida, como Machado de Assis, já mencionado, como todos os autores da criação da ABL, que estão inseridos no livro Medo Imortal, como também vários outros autores (e autoras, como escrevi neste texto para a Escotilha NS sobre as mulheres e a ficção especulativa no Brasil) e também como outros escritores ao longo do século XX. Elementos de horror e suspense são fontes seguras de entretenimentos desde que o gênero é gênero, e muito foi feito a partir disso. 

Por mais que afirmem por aí que não existe uma tradição de horror no Brasil, esses nomes mostram o contrário. Pode não ser nos mesmos moldes norte-americanos ou ingleses, mas autores brasileiros (inclusive autores clássicos, para alguns que gostam de bater no peito e dizer que o terror é um gênero menor) se debruçaram sobre os elementos do medo. De diversas formas, e esse é um dos motivos do gênero ser imenso: suas possibilidades.


Assassinatos, aparições e várias, várias desgraças familiares — que vão de filhos maltratando suas mães a jovens recém-casas encontradas mortas —, até uma história que se passa no Egito e narra uma experiência vampiresca, são apenas algumas das coisas que podemos encontrar na obra de Júlia Lopes de Almeida, escritora brasileira que nasceu em 1862 e faleceu em 1934, uma das criadoras da Academia Brasileira de Letras, tida por muitos como uma das grandes romancistas do período, e que permaneceu por muitos anos esquecida e ignorada. 

A obra de Almeida é bastante rica e tem tons extremamente sombrios, mesmo os dramas mais simples. Em Medo Imortal você pode encontrar seus contos da autora: "As Rosas", "Os Porcos", "O Caso de Ruth", "A Neurose da Cor", "A Valsa da Forme" e "A Alma das Flores". Todos eles são angustiantes de sua própria forma, com seus próprios temas e as escolhas de Almeida de contá-los.

Precisamos sempre tentar recuperar esses nomes e encontrar essas autoras. Podemos nos surpreender com o que encontramos. Ainda há muito de Almeida para ser lido por aqui, e não pretendo parar tão cedo. 

* O livro Medo Imortal foi recebido em parceria com a DarkSide Books :)

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. É sempre muito bom ler as reações das leitoras aos contos de Julia. Muito obrigado pela resenha!

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