Frankenstein, de Mary Shelley


A primeira vez que li Frankenstein foi há alguns anos atrás, em uma edição econômica, sem muitos detalhes, sem textos adicionais, sem apresentação e sem prefácio. Mas, naquele momento, nada disso importou muito. Foi uma experiência única e naquele instante soube que seria uma obra pra vida inteira. Depois de alguns anos, eu precisava reler, precisava me lembrar dos detalhes, precisava conhecer mais sobre a Shelley, e achei que seu aniversário de 223, comemorado em 30 de agosto, seria um bom momento para isso. 
Passados alguns dias do aniversário da Shelley e depois de ter ruminado um pouco a ideia e terminado algumas leituras, tirei meu exemplar da estante. Comprei o livro em 2017, na época do lançamento da edição da DarkSide (que ainda não éramos parceiras), então achei que era o momento certo pra isso.

Sobre o livro:

A edição da DarkSide Books conta com dois prefácios, o de 1818 atribuído ao Percy Shelley e o de 1831, lançado por Mary; conta também com uma apresentação por Márcia Xavier de Brito, tradutora da obra, com informações importantes. Ao final, depois da conclusão de Frankenstein, ainda temos uma resenha escrita por Percy, publicado após sua morte. A edição também contém quatro contos de Mary Shelley, três deles sobre a imortalidade, um sobre a cobiça e o orgulho, e uma apresentação sobre eles.. Os contos foram traduzidos por Carlos Primati, que escreveu a apresentação.

Frankenstein é uma obra para te deixar sem fôlego, independente de quantas vezes você a leia. Na história, acompanhamos o declínio e desgraças de Victor Frankenstein que, em sua sede por conhecimento, dá vida a uma criatura monstruosa. Desejando desesperadamente se livrar dela, Victor a abandona no mundo, sem conhecimento e sem compaixão, fazendo-a vagar e descobrir sozinho como o mundo é um lugar cruel para com aqueles que são diferentes, disformes. Enquanto segue sua vida e tenta se esquecer do que fez, Victor acaba sendo confrontado por aquele que criou a partir de uma tragédia: a morte de seu irmão e o julgamento de uma protegida de sua família, inocente do crime mas julgada culpada. 


Quando Victor descobre o verdadeiro culpado, seus terrores se tornam reais e ele se encontra com sua criação, e temos a história contada pelo ponto de vista da Criatura: onde esteve, o que e como aprendeu, suas tentativas de socialização e de encontrar amor em algum lugar, de fazer o bem, e os fracassos que essas coisas trouxeram. 
"Meus vícios são frutos de uma solidão forçada que abomino e minhas virtudes necessariamente surgirão quando viver em comunhão com um par. Sentirei afeições de um ser sensível e me tornarei unido ao elo da existência e dos acontecimentos dos quais agora estou excluído."
O pedido da Criatura é simples: ele quer uma companheira, não aguenta mais viver sozinho. Afinal, seres vivos precisam de companhia, e ele gostaria de uma. Victor assente, vai ajudá-lo, mas desiste quando quase tudo estava pronto, e ambos acabam jurando vingança contra o outro. Mas a Criatura pode ser maligna, e o que restava de amor para Victor é tomado dele. Criador parte então em uma busca incessante por sua Criatura, e nos encaminhamos para um fim arrebatador: a morte de Victor, e a Criatura convivendo com seu arrependimento próximo ao corpo falecido daquele que lhe deu a vida.
"Você, que chama Frankenstein de amigo, parece ter conhecimento de meus crimes e dos infortúnios dele. Os detalhes, porém, que ele ofereceu de tais feitos não resumem as horas e os meses de desdita que suportei, perdido em paixões impotentes. Enquanto destruía suas esperanças, não satisfiz meus desejos. Eram eternamente impetuosos e potentes; ainda desejava amor e companhia, que me eram recusados com desprezo. Não havia nisso injustiça?"
A grande questão de Frankenstein é sobre como o orgulho e a busca ensandecida de Victor Frankenstein pelo conhecimento o transformou em responsável pelo próprio destino destrutivo que encontrou. Ao abandonar sua criação, Victor o deixou vagar e conhecer sozinho a vida, o terror e o medo, o assombro e a falta de compaixão daqueles que, até então, achava serem seus semelhantes. Não o ajudou a compreender sua vida e sua condição. Assim como afirma Percy ao escrever sua resenha sobre o livro: "É assim que, muitas vezes, na sociedade, os que são qualificados da melhor maneira para se tornarem benfeitores e ornatos são marcados, por algum acidente, pelo desdém e apenados, por abandono e solidão do coração, como flagelo e maldição".


Ao longo dos anos, após o lançamento de Frankenstein, algumas obras tentaram mostrar outros pontos de vista e falar sobre como a Criatura não é exatamente o monstro dessa história. Em A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein (fiz uma resenha que pode ser lida aqui), a história é contada a partir do ponto de vista de Elizabeth Lavenza, prima e noiva de Victor; na série Penny Dreadful, a Criatura de Frankenstein é muito bem representada, já não mais murmurando palavras inaudíveis e incompreensíveis como acontece nas adaptações clássicas da Universal ou da Hammer. 


De todas as adaptações que utilizaram Frankenstein como base, uma de minhas preferidas é o filme de 1935, A Noiva de Frankenstein. Escrevi um texto sobre a obra e sua importância para mim que pode ser lido aqui. E, em homenagem aos 200 anos de criação de nossa Criatura preferida, um grupo de quadrinistas brasileiros se reuniu e fez o Frankenstein 200 (escrevi sobre ele aqui).

Frankenstein é uma obra atemporal. Conforme mais pessoas a leem, mais ela se torna eterna. A criação de Frankenstein é um marco da literatura, um marco da literatura de horror e ficção científica como conhecemos hoje. Muito foi feito após Mary Shelley compor sua história depois do desafio proposto por Lord Byron e Percy Shelley, mas a importância daquele momento e da escrita deste livro ainda pode ser sentida, mesmo depois de 202 anos. 

Em 1818 uma jovem escreveu um texto profundo sobre horror, sobre condições e sentimentos humanos, questionador sobre a verdadeira crueldade na história,  de criador ou de criatura. Mary Shelley possui seu espaço entre as maiores e melhores obras de horror da história, e só podemos continuar a agradecê-la por isso. 

Se você nunca leu Frankenstein, não é tarde para fazê-lo. E, se você já leu, sempre recomendo que seja relido. 

Outras obras de Mary Shelley

Como mencionado, na edição deluxe da DarkSide Books constam outros quatro contos da autora: "Valério: o romano reanimado"; "Roger Dodsworth: o inglês reanimado"; "Transformação" e "O Imortal Mortal". Dos quatro contos, três deles são sobre um certo tipo de imortalidade, sobre viver além da conta, além do normal. Em "Valério: o romano reanimado", Valério é nosso personagem central, um homem que viveu durante a Roma antiga e desperta na Itália do século XIX. Em "Roger Dodsworth: o inglês reanimado", Mary se utiliza de uma notícia da época para pensar como seria se este homem, supostamente encontrado ainda vivo depois de ter sido congelado durante anos, pudesse ser perguntado sobre sua história. Em "O Imortal Mortal", um jovem estudante e ajudante de Cornelio Agrippa bebe, sem querer, uma poção da imortalidade, e já está cansado de viver por aí, tendo perdido todos a quem amava. 

O conto talvez que mais se aproxime de Frankenstein é "Transformação". Forçado (por escolha) a viver no corpo de uma criatura deformada, um jovem que gastava sua fortuna de forma irresponsável, que era orgulhoso e que era mimado por todos a sua volta, acaba percebendo que sua vida estava tomando rumos pouco agradáveis: havia perdido a amizade de seu segundo pai, sua noiva fora tirada dele e ele estava prestes a vê-la se casar com aquele que roubou seu corpo. O conto em questão também trabalha os temas de moral e monstruosidade, apesar de recorrer a outras formas de se debater essas questões.

Minha próxima viagem com Mary Shelley é o livro O Último Homem, uma história apocalíptica contada por um sobrevivente após uma praga destruir homens e mulheres da face da terra.

Próximos lançamentos DarkSide Books

Recentemente a DarkSide Books anunciou o lançamento de duas obras com a temática Frankenstein e Mary Shelley. Uma delas é o livro voltado ao público infantil Ela e o Monstro, escrito por Linda Bailey e ilustrado por Julia Sardà. As ilustrações são impressionantes e a história é perfeita para apresentar Shelley aos pequenos leitores. Tenho o livro em inglês e recomendo muitíssimo. 


A outra obra se chama Mulheres Extraordinárias: as criadoras e a criatura, escrito por Charlotte Gordon, uma biografia de Mary Shelley e sua mãe, Mary Wollstonecraft. Esse livro estava na minha wishlist e vai ser um prazer por lê-lo em português.


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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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