Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem, de Maryse Condé


Existem personagens que foram ignorados e silenciados durante a história da humanidade. Personagens de histórias, que foram cercados de mitos e lendas devido sua importância para o imaginário, mas que foram relegados aos espaços últimos dos livros; àquelas notas de rodapé, quando muito. São personagens e personalidades abandonadas por aqueles que escrevem a história acharem que não seriam importantes no futuro.

Uma dessas personagens foi Tituba, uma das três primeiras acusadas de bruxaria pelo povo de Salem. Junto de Sarah Good e Sarah Osborne, Tituba foi acusada de praticar bruxaria contra algumas garotas do vilarejo, onde hoje se localiza Danvers, Massachusetts. 

Conta-se que Tituba era uma mulher negra e escravizada, provavelmente nascida na ilha de Barbados e levada até Salem como posse de Samuel Parris. Tituba foi a primeira acusada, pelas filhas de Parris, e foi a primeira a confessar, após ter sido coagida, de ter falado com o diabo. 

Mas, além desses fatos e do documento de confissão de Tituba, pouco se sabe sobre a vida da personagem. A questão é que Tituba ficou conhecida como uma personalidade distinta da época, vítima de perseguição muito provavelmente pela cor de sua pele. Então, é terrível que não saibamos nada mais sobre as circunstância de Tituba em Salem. 

Mas isso não deteve Maryse Condé, que em uma mistura de ficção e biografia, resolveu dar uma história para Tituba.

Sobre o livro

Em seu livro Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem, lançado no Brasil pela editora Rosa dos Tempos, com tradução de Natalia Borges Polesso, Condé nos conta como Tituba poderia ter nascido, crescido, se apaixonado, sido vendida e ido parar em Salem, ter sido acusada e ter sido obrigada a confessar um crime que não cometeu, ter sido vendida novamente e ter passado o resto de seus dias. 
"Dessa agressão eu nasci. Desse ato de agressão e desprezo."
Nada disso aconteceu de fato, até onde sabemos. Mas Condé dá voz para essa personagem esquecida e abandonada em uma das histórias mais cruéis de histeria coletiva da história, transforma ela em uma personagem ainda mais humana que documentos de confissão poderiam fazer. Cria uma história para contar alguns episódios sangrentos da humanidade, que mescla os julgamentos de 1692 e a escravidão na América do Norte.

Utilizando de muitas liberdades históricas e anacronismos, somos apresentados a uma visão terrível sobre os dias de Tituba. Condé, em uma dessas liberdades, insere Hester Prynne, protagonista de A Letra Escarlate de Nathaniel Hawthorne, como uma pessoa que possivelmente Tituba poderia ter conhecido (falei rapidamente sobre A Letra Escarlate no texto de melhores leituras do primeiro semestre de 2020).
"Desejo às gerações futuras que vivam tempos em que o Estado seja provedor e se preocupe com o bem-estar dos cidadãos."
O livro ainda conta com um prefácio de Conceição Evaristo muito esclarecedor e interessante, que comenta outra obra sobre o período, a peça teatral de Arthur Miller, de 1953, chamada As Bruxas de Salem (no Brasil, a peça se encontra no livro A Morte de um Caixeiro Viajante e Outras 4 Peças). A peça foi adaptada para o cinema como o filme homônimo, de 1996, dirigido por Nicholas Hytner e protagonizado por Daniel Day-Lewis e Winona Ryder. Como afirma Evaristo, a intenção de Condé é completamente diferente da de Miller. 
"A pesquisadora de literatura Ana Maria M. Roeber ressalta que o texto de Miller pretende consagrar um homem, John Proctor, um dos condenados, como herói. Nesse sentido, a obra do teatrólogo americano segue uma tradição consagrada pela literatura e pelo teatro, a de alçar sempre a figura masculina à condição de herói-protagonista."

Em Eu, Tituba, a intenção é dar voz principalmente a uma personagem real e ignorada. E apesar de, ao longo do romance, Tituba se envolver com diversos homens, é a sua personalidade a que fala mais alto, no final das contas.

Maryse Condé nasceu em Guadalupe, um departamento ultramarino da República Francesa no Caribe, o que a torna próxima em localidade do possível local de nascimento de Tituba. E, o que a torna próxima do local de nascimento de Jean Rhys. Assim como Condé, Rhys se aventurou a escrever a história de uma personagem silenciada, mas ficcional. Publicado em 1966, Vasto Mar de Sargaços conta a história de Bertha, também nascida nas ilhas caribenhas e uma das personagens do livro Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Bertha é tida como louca, e é um dos nomes mais lembrados quando pensamos no tropo "a louca do sótão" (escrevi um pouco sobre o tropo da louca do sótão e sobre Vasto Mar de Sargaços aqui). 

Assim como Vasto Mar de Sargaços, Eu, Tituba busca um tipo de reparação histórica: dar voz a algumas mulheres não-brancas com as vidas devastadas por culpa de um sistema colonial e cruel, que destruiu famílias e várias histórias que não puderam ser contadas. Apesar da ficção, as histórias dessas mulheres poderiam ser as histórias de quaisquer mulher não-branca que viveu naquele período (sendo aqui bastante esperançosa, mas sabendo que histórias assim podem acontecer ainda hoje).

Não é o suficiente para que o mal causado seja reparado, mas é uma iniciativa: conhecer essas histórias, saber desses terrores. 

Os dois livros são leituras interessantes, rápidas, emocionantes e, muitas vezes, terríveis. Duas personagens, ficcionais ou não, que deixaram um rastro de silêncio que tenta ser quebrado. 

* Li Eu, Tituba, para o clube de leitura Litterari@, com membros de alunos da Universidade Federal de Uberlândia, para o encontro de setembro. Se tornou uma das melhores leituras do ano. 

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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