Sadie, de Courtney Summers



Sempre gosto de descobrir novos formatos de livros. Livros que tem partes de entrevistas fictícias, conversas de telefone, mensagens e e-mails trocados, acho divertido e amplia o universo daquela história. Quando comecei a ler Sadie, isso me chamou atenção logo de cara.

Sadie, de Courtney Summers, foi lançado aqui no Brasil pela Plataforma21, com tradução de Regiane Winarski. Na história, após o terrível assassinato de sua irmã mais nova, Sadie decide encontrar o culpado sozinha e acabar de uma vez com um sofrimento que carrega dentro de si desde que era uma criança. 

Sobre o livro:

Intercalando capítulos de Sadie em primeira pessoa, onde conhecemos mais sobre ela e sobre o que ela esteve fazendo, com capítulos de transcrição de um podcast/programa de rádio, que acompanha a investigação do apresentador, o livro se desenrola nesses dois momentos: o passado, que é quando Sadie está narrando o que faz, e o presente, que seria a investigação de seu desaparecimento. 

O podcast é apresentado por West McCray, um cara que gosta bastante do seu trabalho e gosta de ouvir histórias. Quando seu editor, Danny Gilchrist, pede que ele conheça mais e descubra mais sobre a história de Sadie, West não acredita que possa fazer muito: a polícia não tem novidades sobre o caso, ele nem acha que aquilo possa ser mesmo uma história. "Garotas somem toda hora", é o que ele afirma quando Danny pede que ele investigue. O pedido parte da avó de consideração das duas garotas, Sadie e sua irmãzinha, Mattie, chamada May Beth. Sem nenhuma notícia que valha a pena da polícia ou avanço das investigações, May Beth quer que a história delas seja contada, que Sadie talvez escute e volte para casa. Conforme os capítulos transcritos passam, conhecemos um pouco mais sobre a vida desses personagens: May Beth, as relações entre Mattie e Sadie, a mãe das garotas que as abandonou, e logo os nós começam a ser desfeitos e vamos descobrindo a realidade.

Parte importante desse processo de verdade é a própria narrativa de Sadie. Afinal, antes da investigação, houve o desaparecimento, e acompanhar os passos de Sadie pela própria Sadie é uma sensação terrível porque não sabemos como será o final dessa história. Sabemos, enquanto Sadie nos conta, que coisas péssimas aconteceram com ela até ali e só desejamos que ela possa ter um pouco de paz. Mas, para a paz de Sadie, ela precisa se vingar de quem fez mal para sua irmã.


Ao longo do livro também conhecemos mais sobre a infância de Sadie, sobre sua relação com sua mãe, sobre como foi para ela viver com uma irmã que era mais amada que ela, sobre os relacionamentos de sua mãe e vamos entendendo toda a situação. E, quando finalmente entendemos tudo, é como um soco no estômago. Porque é uma história real, mesmo que com personagens fictícias, mas que acontece todos os dias e que conhecemos de noticiários e jornais. 

Sadie é um daqueles livros que a gente não consegue largar, até saber onde a história vai dar. Foi uma leitura rápida (claro, visto que eu não desgrudei do livro até terminar, e qualquer brecha eu lia um trechinho). Fiquei muito interessada em conhecer essa história, saber mais sobre Sadie, quem era essa garota. É uma história bastante cruel, que acontece com frequência, e que sabemos que acontece. 

Um ponto importante do livro que me chamou a atenção (e que não chega a ser um spoiler, mas talvez se você quiser evitar saber mais sobre o livro pode partir para o último parágrafo): há violência, os terrores das garotas estão ali, e sabemos que elas sofreram uma série de abusos – sabemos que eles aconteceram, e sabemos como eles acontecem todos os dias, por isso não precisam ser escritos com detalhes, e a autora não menciona nenhum dos detalhes terríveis. Não é necessário expor de forma insensível algo que é tão doloroso. Em vez disso, a autora, de forma muito inteligente, nos conduz a conhecer como ficou a personalidade de Sadie depois dos anos horrendos que ela passou: se tornou uma garota mais protetora ainda com a irmã, fechada em si mesma, preocupada em não deixar que nada de ruim acontecesse com Mattie. Ela menciona que a garota sofreu, mas as cenas não são detalhadas, e isso faz uma diferença enorme no produto final. 

Já disse e escrevi algumas vezes o quanto o terror (o thriller, o suspense e o policial também, não se enganem) tem uma coisa péssima de abusar do sofrimento feminino para ficar mais forte, mais terrível, e o quanto isso é desnecessário diversas vezes. Courtney Summers nos abre os olhos para um perigo real e aterrorizante: o do abuso contra menores, e faz isso sem precisar descrever para nós nenhuma dessas cenas. 

Se você procura um suspense instigante, na medida certa (sem que todas as atrocidades que aconteceram com a personagem sejam expostas, sem que cenas desnecessárias sejam escritas) esse pode ser o livro certo para você.
  

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Eu gostei de 90% desse livro, é uma escrita poderosa, que te prende, com personagens bem construídos, mas sinto que a Sadie merecia um final melhor.

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    1. Sim, a gente sente que falta alguma coisa, né? Fica um sentimento de falta muito grande no final.

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