A Fúria, de Silvina Ocampo



Tenho lido muitos livros de contos nos últimos dias. Depois do livro dos Melhores Contos da Lygia Fagundes Telles (resenha aqui), peguei para ler A Fúria, da argentina Silvina Ocampo, lançado no Brasil pela Companhia das Letras e traduzido por Livia Deorsola. Uma das autoras que podemos colocar dentro do guarda-chuva de ficção estranha escrita por mulheres, que já citei algumas vezes aqui. 

insólito
adjetivo
1. que não é habitual; infrequente, raro, incomum, anormal.
"enfermidade i."
2. que se opõe aos usos e costumes; que é contrário às regras, à tradição.
"um estilo i."

Insólito é uma das palavras que Laura Janina Hosiasson usa em seu posfácio presente nesta edição para descrever o trabalho de Ocampo: "O poder das imagens, o magnetismo do insólito, o extravagante que brota dentro do centro do espaço burguês, somados ao lado perverso dos 'anjos' da infância, atingem o leitor desde as primeiras frases". Insólito porque Ocampo trabalha de uma forma bastante incomum e fora do convencional. 

Sobre o livro

Seus contos contém um sendo de humor estranho, por vezes sentimental e triste, que brinca com o sobrenatural e com o horror, por outras engraçada e cruel. Principalmente cruel. Não há uma boa delimitação de bondade e maldade em muitos dos seus contos, não dá para se saber em que ponto aquelas pessoas agem de forma errada ou correta ou se é que isso existe nesse universo criado por ela — que, afinal, acaba sendo um retrato muito fiel da nossa própria realidade, com algumas estranhezas ali e outras aqui, mas nada que não possamos observar em nossos próprios cotidianos. 

Seus contos são curtos, bastante objetivos e, mesmo assim, como se estivessem envoltos em uma névoa. Lendo os contos eu me perguntava para onde aquilo levaria, o que estava acontecendo, se eu tinha mesmo entendido todas as camadas que haviam ali ou se eu tinha pego somente uma das partes. Porque, ao mesmo tempo que ela te conta uma história, parece que tem alguma coisa escondida nas paredes do contos, esperando para te surpreender.

Gostei de muitos dos contos do livro, então foi bem difícil escolher os destaques, como tenho feito com as resenhas de livros de contos. Todos eles tem algum detalhe interessante, por mais controversos que sejam os sentimentos que você tenha com seus personagens ou com os acontecimentos. Mas, decidi destacar alguns deles, em um grande esforço, dos que mais me impactaram. 


Contos destacados

A casa de açúcar: um casal resolve se mudar para uma casinha que encontraram, toda doce, branca, que parece feita de açúcar. A esposa, que tinha muitas dificuldades para encontrar a casa perfeita, era cheia de superstições, mas não as comuns: ela achava que se morasse em uma casa já ocupada por outra pessoa, ela começaria a adquirir os hábitos dos moradores anteriores. A história se desenrola com essa ideia e acaba demonstrando de que forma isso seria possível. Narrada pelo marido, acompanhamos as transformações da esposa e seus motivos, além da tristeza crescente do narrador.

A casa dos relógios: escrito em forma de carta, um garotinho conta sobre uma festa que teve em sua vila para uma professora. O problema é que, com uma narrativa inocente, um crime terrível aconteceu ali e o garoto não sabe o que está contando enquanto escreve. No livro, muitas vezes os contos são narrados com uma inocência enorme sem que o narrador se dê conta de que algo terrível esteja acontecendo, ou mesmo se dando conta, uma mistura de inocência e crueldade que dá um ar estranho para os contos.

Mimoso: uma moça acaba perdendo seu cachorro de estimação e pede que ele seja embalsamado, para continuar fazendo companhia para ela em casa. Quando um bilhete chegou, insinuando coisas horríveis, seu marido quebrou o cachorro em pedaços. Mas a mulher sabia quem havia feito a maldade e resolveu se vingar. O conto mostra um amor demasiado por um cachorrinho e as consequências desses julgamentos para sua dona. O final é bastante chocante. 

Nós: além de compartilhar o título com o excelente filme de Jordan Peele, esse conto também tem um tema em comum: a duplicidade. Dois irmãos gêmeos idênticos confundem suas vidas para quebrar o tédio de existir, mas se esquecem que existem pessoas que convivem com eles e podem não achar a situação tão interessante assim. 

Azeviche: a história é narrada por um homem que pediu uma declaração de que estava louco para o médico de uma embarcação. Conforme conta sua história, sabemos que ele era um homem de boa situação financeira e se casou com uma moça de situação pior. A mulher era apaixonada por cavalos, apesar da pouca instrução, e desenhava cavalos com facilidade. Seu preferido era Azeviche. Os dois tiveram um final trágico e, conforme o homem conta a história de sua vida até ali e como quer fugir de seu passado sem acreditar no que aconteceu, acabamos tendo detalhes bastante estranhos de tudo.

A última tarde: conta a história de um homem que se apaixonou pela filha do capataz da fazenda ao lado e não tomava coragem de convidá-la para sair, um homem bastante ingênuo que deixava todos os seus lucros para seu irmão e que, em um golpe de azar do destino, acaba sendo traído pela única pessoa que confiava. Mas algo dele sobreviveu. Apesar de tão curta eu me senti muito próxima do personagem principal, e achei uma das histórias mais tristes do livro.

O sonho de Leopoldina: uma senhora tem sonhos e, aquilo que ela sonha, aparece por perto dela. Outras mulheres da família, esperando riquezas, tentam forçá-la a escrever sobre jóias. Seu cachorrinho companheiro é quem escreve sua crônica. Eu achei um conto extremamente sensível sobre humildade e ambição, incrível mesmo, me deixou muito tocada quando li. 

Recomendo imensamente a leitura, principalmente se assim como eu você também goste de ficções estranhas, que pegam as convenções e as subvertem e, porque não, insólitas.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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