Filme: Shirley, de Josephine Decker


Shirley Jackson foi uma escritora norte-americana, nascida em dezembro de 1916, falecida em agosto de 1965. Sua obra é extensa: escreveu seis livros e mais de 200 contos, além de dois livros de memórias. Sua influencia sobre outros autores de terror é inegável, sendo sempre citada, por exemplo, por Stephen King.



Já escrevi algumas vezes da Jackson aqui, fiz resenhas de seus dois livros lançados em português, Sempre Vivemos no Castelo e A Assombração da Casa da Colina, e fiz uma resenha de seu conto, "A Loteria", lançado em uma antologia. Também escrevi sobre o filme adaptado de Sempre Vivemos no Castelo, e nesse caso escrevi principalmente sobre o descaso que a autora sofreu ainda em vida e ainda hoje. No Brasil, seus dois livros foram publicados pela Editora Suma, e o conto saiu em uma coletânea da Companhia das Letras.

Diferente de muitos de seus colegas autores, Shirley não ascendeu após a morte a um patamar de destaque no gênero de terror. Mesmo em vida, não era reconhecida como deveria. Recentemente foi lançado o filme meio biográfico meio ficcional sobre sua vida.

Sobre o filme

O filme foi baseado no livro Shirley, de Susan Scarf Merrell. No filme, enquanto Shirley escrevia um de seus livros, Hangsaman, ela (Elisabeth Moss) e seu marido, o crítico literário e professor Stanley Edgar Hyman (Michael Stuhlbarg), hospedam um novo professor da faculdade e sua esposa grávida, Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young). Enquanto Fred passa mais tempo na universidade e Stanley passa mais tempo fazendo sabe-se Deus lá o que ele fazia, Rose e Shirley ficam cada vez mais próximas. O relacionamento das duas cresce conforme o interesse de Rose cresce por Shirley e Shirley avança na escrita de seu manuscrito, até que ambas acabam em um momento de intimidade em que olhares dizem mais coisa do que longos diálogos.



Rose e Fred são personagens ficcionais. Na história do livro de Merrell e no filme de Decker algumas coisas da vida de Jackson são alteradas: enquanto Fred e Rose nunca existiram, foi retirado também os filhos e gatos de Shirley, que já era mãe enquanto escrevia Hangsaman. Algumas coisas, entretanto, são bastante reais: "A Loteria", de Shirley, se tornou um conto extremamente comentado, e ela passou a ser vista como uma pessoa estranha e excêntrica depois do sucesso que sua escrita atingiu naquele momento. Os relacionamentos extraconjugais de Stanley também eram uma realidade, bem como o sentimento de não pertencimento e estranheza que Shirley sente e é tão bem interpretado por Moss.

Apesar de não ter lido o livro, penso que Rose e Fred acabam sendo um tipo de versão de Shirley e Stanley, não como um alter ego, mas como outras partes deles mesmos. Enquanto mãe, Shirley nunca quis que suas obrigações atrapalhassem sua escrita, e Stanley sempre insistia que ela fizesse ambos os trabalhos, pois ele se beneficiava de ambos. No filme, enquanto Rose é abrigada pelo casal, ela passa a fazer os trabalhos domésticos e se ocupar cada vez mais de uma casa que sequer era dela, conforme avança em um sentimento confuso que vaga entre o amor e o ódio pela própria Shirley.

Durante sua vida, Shirley sempre soube dos casos que seu esposo tinha fora do casamento. Com suas alunas, com pessoas da universidade, Shirley sabia. No filme, apesar de parecerem cúmplices, é notável a intenção da diretora de fazer notar que Shirley necessitava da aceitação de Stanley, que não queria que ele lesses suas coisas não terminadas, que queria guardar pelo menos um pouco do processo para si mesma.



O filme foi dirigido por Josephine Decker e não há nenhuma notícia de que irá ser trazido para o Brasil, assim como Sempre Vivemos no Castelo. Em entrevista com o Bloody Disgusting, Decker afirma que uma das partes que fez com que ela quisesse trabalhar nesse filme é que, por mais que Jackson seja conhecida ou famosa, ela não parece ser um "nome familiar" para o gênero, como tantos outros autores. E realmente.

O filme é excelente. As construções da narrativa, a forma como Moss atua como Shirley, os momentos de tensão entre as duas personagens, bem como os processos de escrita de Jackson, as situações em que ela se sente um peixe fora d'água. O filme serve muito bem para aqueles que admiram a escritora, como também para aqueles que querem conhecê-la ou estão a procura de um filme interessante. Mesmo que você conheça pouco da trajetória da escritora, você vai encontrar um bom filme sobre questões complicadas como carreira e maternidade e relacionamentos, amizade e insegurança.


O trabalho de Shirley Jackson foi e ainda é extremamente importante para o gênero do terror. É mesmo uma tristeza que seja tão pouco lembrado. Torcemos para que, cada vez mais, ela seja redescoberta e lembrada. Que com o filme, mesmo que não chegue aos streaming brasileiros, ela seja cada vez mais lida.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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