Território Lovecraft, de Matt Ruff



Um dos primeiros autores de que me falaram e que tive grande interesse em conhecer a obra foi H.P. Lovecraft. Quando adolescente, era um nome que sempre aparecia entre as indicações dos meus amigos. Mais velha, quando comecei a me preparar para trabalhar com horror, era um dos primeiros nomes que citavam. Por pouco não foi sobre ele que escrevi minha monografia. Tenho um apreço especial pelo Ciclo dos Sonhos, e Horror Sobrenatural em Literatura foi um livro importante na minha formação — ainda hoje algumas de suas passagens são importantes para os meus textos e a forma como penso a literatura de horror.


Mas hoje sei quem foi Lovecraft, conhecemos sua pessoa, sabemos suas crenças. Ainda leio suas obras e ainda gosto de saber dessas histórias, mas hoje já tenho discernimento para criticar algumas atitudes que não faziam diferença para mim antes.

Então, hoje, gosto bastante quando se utilizam de temas de Lovecraft e o subvertem. Acho louvável o trabalho que Victor LaValle fez em A Balada de Black Tom, uma obra fantástica que transforma Horror em Red Hook em uma história sobre um homem negro. Escrevi sobre seu livro aqui. O livro Território Lovecraft, lançado em português recentemente pela Intrínseca com tradução de Thais Paiva é outro desses exemplos.

Sobre o livro

No livro, acompanhamos Atticus, um rapaz negro que parte para Chicago para visitar sua família depois de um estranho recado deixado por seu pai. Chegando lá, entretanto, Atticus descobre que seu pai foi levado para uma vila chamada Ardham, que fica no que é chamado de "Território Lovecraft", conjunto de locais que Lovecraft utilizou para basear suas histórias, em Massachusetts. Junto de seu tio George e sua amiga de infância Letitia, Atticus resolve ir procurar seu pai, cruzando o país e indo até a região de Lovecraft descobrir o que está havendo.

Mas não é só isso. O livro é como uma antologia, que reúne esses quatro personagens e alguns outros em histórias de horror e ficção científica, com elementos tipicamente lovecraftianos: magia antiga, deuses mais antigos ainda, feiticeiros e outros mundos, dominados por seres estranhos. Além, é claro, de casas assombradas e todos os tipos de terrores que já estamos acostumados e fazem parte do cânone das histórias de horror.

A narrativa de Matt Ruff é encantadora e fascinante. Não consegui parar de ler até chegar no último conto, quando dei uma desacelerada porque não queria que terminasse. Os personagens são carismáticos, mesmo os mais rabugentos, e são pessoas que você gostaria de tomar um café e conversar sobre livros.



Falando sobre livros, George, tio de Atticus, é um leitor voraz e agente de viagens. Novamente mencionando Victor LaValle, o tio de Atticus me remete muito ao personagem principal de Changeling, em que também temos um leitor voz e colecionador de livros raros. No livro, ele que foi o editor do Guia de Viagem do Negro Precavido, uma versão do livro real chamado The Negro Motorist Green Book, publicado pela primeira vez em 1938 por ‎Victor Hugo Green, que publicava anualmente uma lista de segura de viagens para negros do país.

Nas páginas finais do livro, já nos agradecimentos, Ruff cita o ensaio de Pam Noles, chamado Shame, publicado em 2006, que fala sobre as dificuldades de ser uma mulher negra, fã de cultura pop, em um mundo cercado por pessoas brancas. É um tema amplamente debatido nas primeiras páginas do livro, em que Atticus menciona as dificuldades que teve para seu pai aceitar os autores que ele gostava de ler quando criança.

O livro inteiro, por mais que traga sua ficção científica e seu horror de outro mundo, trabalha uma questão bastante simples, e ainda muito atual: a dificuldade para os negros de locomoção, cultura e sociabilidade.

O racismo de Lovecraft, o horror da realidade

Ruff faz algo importante para a literatura atual: ele contextualiza sua história sem medir palavras e com uma pesquisa muito bem feita. Trabalha o racismo de forma séria e com temas de um autor tipicamente racista, que todos sabemos como foi Lovecraft. Ruff centraliza sua história em duas famílias de pessoas negras, que passam apuros e terríveis momentos nas mãos de pessoas brancas em um período que era (e ainda é, não podemos nos enganar aqui) para pessoas não-brancas.

Mais assustador que qualquer deus antigo de Lovecraft, foi o racismo que ele ajudou a perpetuar.

Precisamos estar dispostos a discutir obras que foram nocivas, que ajudaram a fazer com que pessoas não-brancas fossem transformadas em monstros aos olhos da sociedade, por mais que sejam de autores que foram admirados. O medo de apontar esses defeitos não pode se fazer presente. Muitas barreiras foram cruzadas e muito feito, mas ainda é necessário mais.

E, um último ponto: Ruff é um homem branco que utilizou de pesquisa e auxílio para escrever uma obra interessante sobre racismo nos anos 1950, mas não nos esqueçamos também das obras de pessoas negras que vem discutindo a situação há tanto tempo.

Adaptação para a TV

O livro de Ruff irá virar série com produção executiva de Misha Green, J.J. Abrams e Jordan Peele, que tem feito um trabalho excelente em tudo que é mencionado. Escrevi sobre o revival de Twilight Zone aqui, se vocês quiserem conferir.

Não sabemos ainda como será a divisão de episódios, se a série irá abordar o livro inteiro e como será feita, mas o trailer revela que existe essa possibilidade.

A série tem data de estreia prevista para agosto deste ano, pela HBO. Abaixo o trailer:


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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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