Quatro Estações, de Stephen King



Lançado pela Editora Suma, com tradução de Andréa Costa, Quatro Estações é um livro com quatro contos de Stephen King, separados nas quatro estações do ano. A divisão é a seguinte: Primavera Eterna - "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank"; Verão da Corrupção - "Aluno Inteligente"; Outono da Inocência - "O Corpo"; e Inverno no Clube - "Método Respiratório".


Antes de realmente começar a ler King, uns anos atrás — e isso foi antes dele sequestrar minha atenção e dominá-la por completo, e depois acabou se transformando em um querido amigo para ter por perto nos meus piores momentos (que foram alguns) —, eu era fascinada pelos filmes que adaptaram suas obras. Desses contos citados, presentes em Quatro Estações, os três primeiros possuem adaptações para o cinema. Conta Comigo, filme de 1986, é um dos meus filmes preferidos da vida, e adapta o conto "O Corpo".

Então, quando comecei a, de fato, conhecer a sua obra, eu pensei "eu preciso ler esse livro, não é?". Não que seja uma grande dúvida, leria todos os livros do King, um atrás do outro, mas existem tantos peixes no oceano e tão pouco tempo, que escolhi minhas leituras com cuidado até aqui. Mas chegou o momento dele.

Antes de falar dos contos em si e das sensações que eles despertam, é preciso dizer que esse livro do King e seus contos contém muito mais drama do que o horror propriamente dito — apesar de seus elementos estarem ali, o drama é muito mais profundo, e essa era a intenção do autor.

No posfácio, escrito na publicação do livro original em 1982, King escreve:
"Embora a pergunta mais frequente tenha sido: 'De onde você tira suas ideias?', sem segundo lugar sempre vem sem dúvida esta: 'Você só escreve histórias de terror?' Quando digo que não, é difícil dizer se a pessoa fica aliviada ou decepcionada."
Para mim, de forma alguma esse livro viria com alguma decepção. Pelo contrário. O que me deixou bastante feliz, já que Tripulação de Esqueletos, o último inteiro dele que li, me deixou com um gosto ruim na boca.

Vou fazer uma rápida descrição do que achei de cada um dos contos e das sensações que eles me transmitiram.

Primavera Eterna - Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank


Já havia assistido o filme baseado no conto, então eu meio que sabia a direção que ele iria tomar, mas nem por isso a surpresa foi menor. King faz personagens carismáticos e que, muitas vezes, é difícil dizer adeus. Você quer saber o resto da história deles, como eles estão depois de alguns anos, se tudo deu certo. Um desses personagens é Andy Dufresne. Acusado de ter assassinado a esposa e o amante, Andy vai ate Shawshank, uma prisão criada por King e que aparece em outras de suas obras. Não foi Andy que cometeu o crime, mas ele acaba enfrentando a vida na prisão depois que o juri o condenou. Lá, Andy conhece Red, um outro prisioneiro, que é quem conta sua história.

Red é aquele prisioneiro que arranja tudo que outro prisioneiro quiser, com seu devido valor. Certo dia, Andy começa a pedir pôsteres para Red, depois de já ter "encomendado"  um cinzel e cobertores de rochas.
"Alguns pássaros não nasceram para ficar na gaiola, é isso. Suas penas são brilhantes demais, seu canto, doce e selvagem. Então, você os liberta, ou quando você abre a gaiola para alimentá-los, passam por você e vão embora."
É a partir desse momento que Andy começa um tipo de plano que duraria anos. E Red segue sendo seu amigo. Se você assistiu Um Sonho de Liberdade (dirigido por Frank Darabont, mesmo diretor de À Espera de um Milagre e O Nevoeiro, de 2007), título que o filme recebeu em português, você sabe até onde isso vai.


Lançado em 1994, o filme é uma adaptação bem fiel do conto, e ambos são surpreendentes. A construção das personalidades dos personagens até a forma como as coisas acontecem, é impressionante. Além, é claro, de ser um ótimo reflexo sobre o sistema carcerário. As discussões que Red ergue enquanto narra a história, sobre como alguns homens ficam presos tanto tempo e depois são jogados de volta à sociedade, mostra muito bem como o sistema funciona.

Verão da Corrupção - Aluno Inteligente


Eu conhecia a história por cima, mas ainda não tinha assistido a adaptação e nem lido o conto. E foi surpreendente, e assustador, na mesma medida. No conto, um jovem chamado Todd Bowden que descobre que um senhor que mora em sua vizinhança na verdade é um antigo nazista alemão que fugiu para os Estados Unidos.

Os dois começam uma relação parasitária. Todd ameaça contar a todos que Arthur Denker, na verdade, é Kurt Dussander, e o obriga a contar histórias do período para diverti-lo. A coisa chega em um ponto em que Todd acaba comprando uma fantasia de nazista e obriga o velho a vesti-la.

O que começou com uma brincadeira, acaba levando Todd a quase repetir de ano. Ele, que era um aluno exemplar na escola, acaba perdendo o interesse pelos estudos aos poucos para ouvir histórias sobre as atrocidades acontecidas no período do nazismo. E, pouco a pouco, conforme a história avança, características são apresentadas no garoto que beiram à psicopatia, como maus tratos em animais. E isso só cresce, conforme o livro avança.
"Mas talvez alguma coisa que os alemães fizeram exerça uma fascinação enorme sobre nós... alguma coisa que abre as catacumbas da imaginação. Talvez parte da aversão e do horror venha da consciência secreta de que sob as circunstâncias certas, ou erradas, nós mesmos estaríamos dispostos a construir lugares assim."
No inglês, o título do conto é Apt Pupil, e que pode ser traduzido também como "pupilo competente". Conferindo os rumos que a vida de Todd tomam, ele realmente foi um pupilo competente e aprendeu até bem demais sobre as histórias que Dussander contou a ele.

O filme foi lançado em 1998 e dirigido por Bryan Singer, e recebeu o título em português de O Aprendiz.
Todd foi criado por uma família boa e "de bem". Seu pai era um marido exemplar dentro de casa, mas traía a mãe com a secretária. Sua mãe era uma mulher bastante comum. Todd era fascinado pela guerra e ganhou uma arma em um de seus aniversários. Foi para a faculdade. Era um rapaz com futuro brilhante. Tão atual e tão palpável, não é? 


Outono da Inocência - O Corpo


Uma das minhas adaptações preferidas do King e um dos meus filmes preferidos da vida também se tornou um dos meus contos preferidos. "O Corpo" conta a história de quatro garotos que são amigos e, certo dia, descobrem que um garoto da idade deles, que estava desaparecido, está morto e não muito longe de onde estão. Eles entram então em uma busca para ver o corpo do garoto.

Todos eles sentem que precisam passar por isso, como se fosse um ritual. O conto é narrado por Gordie, um dos meninos. Ele foi o único que sobreviveu por mais tempo, chegando aos 34 anos e se tornando um escritor de romances de suspense, vendendo alguns de seus livros para serem transformados em filmes. Ele conta a história com um tom melancólico, de nostalgia, mas que compreende que o processo da vida é esse mesmo: siga em frente, deixe as coisas acontecerem.
"É difícil fazer estranhos se importarem com as coisas boas de suas vidas."
O livro é uma grande ode ao amadurecimento e amizade desses quatro amigos. Eles não serão amigos para sempre, mas naquele momento, naquele verão, eles são tudo o que eles tem, e encontrar aquele garoto é uma forma de estarem ligados para sempre, mesmo que não juntos.



O livro recebeu o nome de Conta Comigo, foi lançado em 1986 e dirigido por Rob Reiner. Os garotos são interpretados por Corey Feldman, River Phoenix, Wil Wheaton e Jerry O'Connell, e um dos valentões da cidade é Kiefer Sutherland.

Inverno no Clube - Método Respiratório



O único conto realmente de terror do livro e o único conto que não ganhou uma adaptação. Comecei a ler sem saber nada do que viria pela frente, e muitos amigos que disseram que era o conto preferido deles. Pois, assim como os outros, eu achei incrível.

Em um clube que não é exatamente um clube, onde membros que não são exatamente membros se reúnem para contar histórias e ter um momento de paz, a reunião que antecede o Natal é sempre reservada para uma história de suspense, terror ou fantasmas.
"O importante é a história, e não o narrador."
Em frente à lareira nosso personagem narra o conto que o deixou assustado e fascinado por tanto tempo, sobre o método respiratório. Um dos membros (que não são exatamente membros) contou ao grupo a história de uma paciente que atendeu nos anos 1930, uma mulher grávida e muito determinada e prática. Ela era mãe solo, não era casada, e isso na época era um grande insulto à sociedade. O médico que narra a história fez de tudo para ajudá-la, mas algo trágico acontece.

É uma história aterrorizante, de fato. O clima também é assustador, e lembra algumas histórias de fantasma do século XIX, com a história narrada por alguém dentro da história narrada por outra pessoa. King dedicou o conto a Peter Straub, autor de Ghost Story, e ambas as histórias se passam em um clube de cavalheiros que contam histórias assustadoras. É uma homenagem divertida.

O conto talvez seja menos conhecido por não ter uma versão cinematográfica, mas é um conto excelente. Como eu não sabia o que esperar, esperava qualquer coisa, mas qualquer coisa com a narrativa do King não é "qualquer coisa". É Qualquer Coisa muito bem escrita, então foi uma grata surpresa, assustadora a sua maneira.

***

Quatro Estações é um livro que traz diversas emoções ao leitor. Suas histórias são dramáticas e terríveis e engraçadas, em determinados pontos, e trazem reflexões sobre a vida e sobre viver. É uma excelente leitura, um dos livros de King para guardar no coração.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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