O Homem Invisível e a assombração do relacionamento abusivo

O Homem Invisível e a assombração do relacionamento abusivo

A "revitalização" e "reestruturação" dos filmes de monstros da Universal, e a péssima ideia de dark universe compartilhado que o estúdio tinha planejado quando fez A Múmia de 2017 passou por uma série de mudanças, até que caiu nas mãos da Blumhouse, que tem feito um trabalho excelente desde então.
Se antes tínhamos medo do que poderia vir a seguir, levando como exemplo o terrível filme já citado, agora aguardamos com ansiedade para descobrir quais as próximas obras possíveis a caírem nas mãos de algum bom diretor, que dedique sua atenção e seus talentos em filmes de monstros que já vimos muito por aí, mas que continuamos amando.

O primeiro a entrar nesse ciclo de remakes foi O Homem Invisível. Uma ideia extremamente ousada, levando em consideração que (e sinto muito magoar alguém aqui) é o "monstro" com menos fãs dos monstros tradicionais. O filme de 1933, dirigido pelo grande James Whale, inclusive, é bastante esquecido por aí quando mencionamos os outros grandes que surgiram com ele. Não surpreendendo, até O Monstro da Lagoa Negra, que é de 1954, quando o estúdio já não estava em seus dias de ouro, é mais lembrado dentre o panteão de monstros que nosso amigo e cientista louco Dr. Jack Griffin.

Então, quando houve a notícia de que este seria o primeiro filme a passar por esse processo, todos ficaram com uma grande interrogação se perguntando "ué?". Mas hoje defendo e compreendo essa ideia. Depois de ver o filme, percebo que foi a melhor ideia que a Blumhouse e Leigh Whannell poderiam ter.

O texto a seguir por ter spoilers, então recomendo assistir ao filme antes da leitura.

Sobre o livro de origem:

O Homem Invisível surgiu em 1897, em um livro escrito por H.G. Wells. A história narra a chegada de um estranho na cidadezinha de Iping, um homem coberto de bandagens e carregando um laboratório quase completo consigo, que afirma ter sofrido um acidente e que aluga um quartinho isolado, onde não quer ser incomodado, na estalagem da cidade. O problema é que esse homem é invisível. Wells criou uma narrativa fascinante e horrível sobre ciência e corrupção da moral.

O filme de 1933 é o mais próximo dessa narrativa. Todos os outros que se seguiram depois dele, tem elementos bastante distantes, incluindo o filme recentemente lançado com produção da Blumhouse ou o filme O Homem sem Sombra, de Kevin Bacon (que as pessoas assumem ser uma adaptação do livro de Wells, mas acaba sendo uma obra inspirada e distante).

Mas isso não é um problema, de forma nenhuma. Se quisermos que essas obras deem certo, elas precisam ser atualizadas e remodeladas. Ninguém aguenta mais a mesma narrativa de sempre (alo, Drácula, essa é pra você). Queremos que elas sejam atualizadas, e queremos que sejam tão boas quanto o novo O Homem Invisível.

O novo filme:

O filme conta com Elizabeth Moss no papel de Cecilia, uma mulher que está fugindo do marido que abusava psicologicamente dela, e isso fica bastante claro logo no começo do filme. A forma como Cecilia fala sobre ele (ou evita falar), a forma como tem medo de sair na porta, esperando que ele possa encontrá-la mesmo sem saber onde ela está. Quando, por fim, chega a notícia de que ele está morto, é que Cecilia se sente um pouco mais livre.

Mas isso não dura muito, pois Cecilia está assombrada, apavorada, ela crê que ele está vivo e está vigiando cada movimento dela. E o que, de início, parece uma paranoia, nos mostra que não, Cecilia está certa.


Os filmes já mostraram muito sobre isso, sobre mulheres desacreditadas, mulheres histéricas, mulheres que "se apavoram fácil". Mas Whannell e todos os que trabalharam no roteiro desse filme, como a própria Moss que o ajudou a estabelecer os limites, fizeram um excelente trabalho ao dar um contexto para a personagem. E é perceptível o nível de denúncia quando ninguém lhe dá ouvidos.

Não é somente mais uma mulher histérica que ninguém acredita, que defende o que é indefensável; o filme nos mostra como mulheres são pouco ouvidas depois de episódios traumáticos e tratadas com condescendência, detentoras da loucura e da pouca força para seguir em frente. Em um relacionamento abusivo não existe essa de só seguir em frente e não deixar que o abusador fique para trás. A personagem de Cecilia e todas as mulheres que passaram por isso precisam de meses para se erguer novamente.

Moss se entrega de forma incrível ao papel, e nos mostra uma interpretação perfeita. Os trejeitos, a forma que se move, o medo é tangível, e não um nem duas vezes me vi pregada na cadeira do cinema, com medo por mim e com medo por ela.


Como filme, e se quisermos deixar de lado pelo menos por um instante todo esse pano de fundo já comentado, O Homem Invisível também não decepciona. É um filme denso, um filme com seus sustos e com profundidade. Seu jumpscare é bem utilizado em momentos propícios, mas não se abusa do recurso. O filme equilibra bem seus elementos, com momentos realmente aterrorizantes e questões interessantes levantadas pela protagonista e por aqueles que estão por perto dela.

O terror tem algo fascinante de que atinge pessoas de formas diferentes, e sempre digo o quanto o gênero é enorme por isso. O Homem Invisível falou comigo de forma pessoal, e várias vezes me senti aterrorizada. É um exemplo perfeito, retirando o elemento científico de invisibilidade, de como uma mulher se sente após um término difícil, uma fuga dessa realidade da qual ela já não suporta. Whannell e Moss fizeram muito bem o trabalho, criando um filme tenso e decente sobre o tema, uma reinterpretação atual e interessante sobre a história de um cientista que ficou louco e encontrou uma forma de ficar invisível.

Posso somente falar por mim, mas é isso que quero ver nos próximos filmes da Blumhouse com a Universal e seus monstros clássicos. Quero ver essa paixão e essa vontade de criar algo novo com o que já foi feito. Ver essa atualização, e a utilização dessas criaturas que conhecemos tão bem em medos atualizados. O horror é composto diversas vezes por metáforas. Em momentos como os que estamos agora, todas as formas que encontrarmos de contar histórias poderosas e importantes como essa são necessárias.

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Trailer do filme:







Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Quando vi o trailer desse filme nos cinemas pela primeira vez, achei se tratar "apenas" de um filme de terror cheio de sustos, e como ainda não conheço muitos filmes do gênero (e tenho um tiquinho de medo também ^^'), acabei deixando pra lá. Mas depois, vendo o trailer novamente e analisando melhor, ele parece ser mesmo o tipo de filme com aquele algo a mais. E sua resenha me deixou ainda mais curiosa para assistir, o que pretendo fazer em breve *-*
    Beijinhos e parabéns pela excelente análise!
    Isabelle
    https://blogalgodotipo.wordpress.com/

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