Black Christmas (2019), é um filme que quase chega lá



Noite do Terror, de 1974, é um slasher bastante amado por seus fãs. Dirigido por Bob Clark, o filme nos mostra uma série de mortes de garotas em sua casa de fraternidade, antes de saírem para suas férias de Natal. Dentre todos os motivos para o filme ser tão querido, estão suas reviravoltas, a dificuldade em descobrir quem é, de fato, o assassino, pela quantidade de suspeitos e a falta de qualquer pista, e, pelo público feminino, está a variedade de personalidade de suas personagens, como afirma Sophia Takal em entrevista para o Movie Maker, diretora do novo remake de Black Christmas.


O filme já havia recebido um remake em 2006, que chegou ao Brasil com o nome de Natal Negro. Dirigido por Glen Morgan, diretor de A Vingança de Willard (2003), o filme segue um maníaco que escapou da instituição onde estava e retornou para a casa onde vivia, que se transformou em uma casa de fraternidade. Mas não é sobre ele que pretendo falar hoje. Quero esses minutos para comentar o filme de 2019, de Takal. O texto a seguir contém spoilers.

Em Natal Sangrento (não confundir com o título brasileiro do filme Silent Night, Deadly Night, de 1984), também temos uma fraternidade. O filme começa com o grupo de garotas se preparando para o Natal e para uma apresentação que farão para as outras fraternidades do campus. O primeiro assassinato acontece e é cometido por alguém com um manto preto com capuz.

Ao decorrer da história descobrimos algumas coisas. Riley, interpretada por Imogen Poots, é a protagonista da história. Há uma aula, descobrimos que o professor está para ser demitido por suas opiniões misógenas e seu comportamento pouco adequado, após isso acontece a apresentação e descobrimos que Riley sofreu um abuso por um estudante veterano de outra fraternidade.

Todos esses acontecimentos são importantes para o desdobramento do filme, e deixa clara desde o início a mensagem de Takal: acontecem perigos na universidade e homens podem ser perigosos. Há uma discussão entre uma das personagens, suas amigas e seu namorado, que deixa ainda mais claro a intenção do filme caso ainda não tenha sido entendida: no mundo atual, é comum que mulheres tenham medo de homens.

Logo ao final do filme descobrimos quem está assassinando as garotas: o professor Gelson (Cary Elwes) está por trás de um pacto meio mágico, meio demoníaco, que transforma os rapazes da fraternidade em bestas assassinas, e que estão a mando de um busto assustador do fundador da universidade. O professor acredita firmemente que mulheres são seres inferiores e tem que aceitar seu lugar diante da presença masculina.

Enfim, toda a mensagem que o filme pretende passar é interessante. Em uma boa parte dos sites que o filme foi comentado, a chamada era "um filme slasher na era #MeToo". A intenção de Takal é boa, mas o filme ficou mal amarrado e não funcionou da forma que esperávamos.



Sophia Takal foi diretora de outros longas antes. Green (2011), um drama sobre uma garota que se muda com o namorado e ambos conhecem uma nova pessoa; e Always Shine (2016), sobre duas amigas que viajam tentando se reconectar uma com a outra, mas que acabam tendo problemas e confrontos. Antes de Natal Sangrento, Takal fez o elogiado episódio de Into the Dark, "New Year, New You", que acompanha a história de quatro amigas em um jantar de ano novo e várias inimizades entre elas.

Na entrevista já mencionada ao site  Movie Maker, Takal afirma que teve 9 meses para realizar o filme, desde seu roteiro até sua gravação e montagem completa, pois a Blumhouse queria que fosse lançado em dezembro, e ela recebeu o convite em fevereiro. Alguns meses antes desse convite, inclusive, Jason Blum, da Blumhouse, havia feito a afirmação que era muito difícil encontrar diretoras mulheres para filmes de terror, o que gerou um burburinho enorme. Então, é fácil compreender e imaginar a pressão que Takal estava. Eu não sou a pessoa mais fechada em relação a remakes, adoro quando ideias novas aparecem e são trabalhadas em filmes que conhecemos. O problema é que no caso de Natal Sangrento o menos seria mais.



O filme tem momentos bem legais. Quando uma das personagens está fugindo de um possível perseguidor e utiliza suas chaves como objeto de defesa, algumas das discussões, a intenção de Takal de demonstrar como o mundo pode ser hostil, são coisas boas em um filme que não se sustenta. Até a mensagem final, de que homens só agem dessa forma pois são controlados por algo mais antigo, algo social e cultural, é bastante interessante se formos parar para analisar. Mas Takal se perdeu ao adicionar tantos elementos "mágicos", o pacto, esse mal maior, além de faltar, talvez, um pouco mais de profundidade em seus debates, talvez até uma atualizada, repensar outras relações além do feminino e masculino, e um pouco mais de proximidade com as personagens. Gostaria de ter visto mais delas em cena, assim como acontece com o filme de 1974. Ambos os filmes tem um tempo de duração semelhante, mas o remake parece muito mais corrido e pouco pensado que o original.

Novamente, o filme não é completamente dispensável. Pode até ser uma diversão bacana, mas ao pensarmos em tudo que poderia ter sido, talvez podemos ficar um pouco decepcionados.

O que nos leva ao próximo ponto da questão: por que esperamos tanto de diretoras mulheres? Por que não podemos deixar que mulheres errem e façam filmes medianos, como tantos filmes feitos por homens? Por que essa expectativa? São perguntas para serem pensadas e discutidas (talvez em um próximo texto).

Ao que tange o trabalho de Takal, esperamos que o sucesso ou não desse filme não a retire de outros projetos. Torcemos para que Takal ainda tenha muitos filmes para dirigir e possa nos presentear com novas narrativas.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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