Iluminadas, de Lauren Beukes


Estive com o livro de Beukes no meu kindle durante uns bons meses antes de, finalmente, resolver lê-lo. Atrasei ainda um pouco mais pois o confundi com o livro de Riley Sager, As Sobreviventes, já que ambos tratam de mulheres que sobreviveram a serial killers. Mas, os livros diferem em muitos detalhes, e essa confusão surgiu somente pelo nome da obra. Posso fazer uma resenha sobre As Sobreviventes depois, mas hoje falarei mais sobre o livro de Beukes e farei alguns apontamentos sobre a história, evitando spoilers.


O livro:

Iluminadas saiu aqui no Brasil pela Intrínseca, com tradução de Mauro Pinheiro. O livro acompanha um assassino chamado Harper Curtis, que acabou descobrindo por acidente como viajar no tempo. Uma de suas vítimas, Kirby, entretanto, sobreviveu, e acaba investindo em uma busca pelo homem que tentou matá-la, e bem por pouco não conseguiu.
Os capítulos do livro são um apanhado de flashbacks e vai e voltas temporais. Se em um momento você está em 1931, no seguinte você pode estar em 1940, e Beukes fez isso muito bem. Sua maneira de conectar todos os pontos é atenciosa, deixando mais um sentimento de curiosidade e intriga do que deixando um leitor perdido e confuso. As datas mais utilizadas são 1931-32 e 1992-93, que são os anos "normais" de Curtis e de Kirby, respectivamente. Graças a um narrador bastante preciso, as linhas temporais são tranquilas de compreender após um ou dois capítulos, e compreedemos as mudanças temporais conforme o próprio Curtis a descobre.

Curtis é um homem perigoso desde o início, e sabemos que não podemos confiar nele. Com atitudes de psicopatia ao longo da narrativa, e conforme avança em suas descobertas de como essa viagem funciona, Curtis se torna mais cruel ainda. Descobrimos sobre seu passado, descobrimos sobre sua infância, e não há um pingo de simpatia pelo assassino, o que, por sua vez, é um mérito. Compreedemos que Curtis é um assassino e sabemos que nada de bom pode vir dali. Curtis, ao descobrir a Casa, que é de onde vem essa possibilidade de viajar no tempo, passa a usá-la frequentemente, perseguindo mulheres através do século XX, das quais ele afirma sentir uma iluminação.
Kirby, por outro lado, por mais rebelde que seja, é uma personagem engraçada e envolvente, lembrando até certo ponto a personagem Lisbeth, da série Millennium, de Stieg Larsson. Assim como Lisbeth, Kirby tem uma aparência punk, sempre utilizando camisetas de banda e um pesado coturno. Sua vida não foi das mais fáceis mesmo antes da tentativa de assassinato, sua relação com a sua mãe não é das melhores, apesar de ficar visível o carinho e preocupação que uma nutre com a outra. Mas Kirby tem ímpeto, e força, e quer descobrir o que aconteceu a ela.

Kirby então entra em uma caçada e se torna estagiária de um jornal, sabendo como a polícia não ajudaria, achou que estar envolvida com a mídia talvez pudesse trazer algum retorno. Ao lado de Dan, o jornalista que cobriu seu quase assassinato, Kirby parte a procura de Curtis.
O desenrolar da investigação é lenta, muitas coisas estão fora do lugar, e Curtis pode não ser o homem mais cuidadoso do mundo, mas ficar mudando de temporalidade não ajuda em nada nas tentativas de conectá-lo a qualquer coisa.



A parte positiva e negativa do livro:

Talvez o maior erro da autora tenha sido conseguir inserir um tipo de interesse romântico na história. Kirby é bastante interessante, é fato, mas a forma como é feito parece mais uma imposição do que algo que aconteceu naturalmente. Uma relação entre Kirby e o outro personagem seria muito mais proveitosa se fosse somente amigável, evitando contato romântico. Digo isso pois é comum vermos um tipo de necessidade de inserir romance em locais desnecessários quando a autora é uma mulher, ou quando a protagonista é uma mulher. Não havia essa necessidade, e novamente evoca um pouco a Lisbeth e as escolhas de Larsson, mas de forma ruim.

Alguns pontos podem ficar sem muito sentido, também, e não são esclarecidos ao longo da história. Algo que não me incomoda, mas que pode incomodar quem gosta de narrativas mais redondas. Apesar de Beukes conseguir encaixar muito bem todos os elementos importantes, o leitor pode querer outras explicações. Por quê Curtis seguia essas mulheres? O que era esse luz que ele imagina iluminar suas vítimas? Como a Casa existe? Nesse ponto, há algo de Hotel Overlook na Casa, mas ao contrário do local assustador que King construiu, a Casa não tem uma explicação.
O ponto alto da narrativa, sem dúvida, é a forma como a história é contada, toda repartida, com detalhes em cada um dos capítulos e momentos interessantes da investigação, como Kirby começa a descobrir as coisas e percebe que nada faz sentido.

Se você gosta de um bom mistério, bem despretensioso e nos moldes de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, recomendo bastante Iluminadas. Apesar dos pequenos problemas citados, é um livro interessante.

Outras informações:
Em 2013 saiu a notícia de que o livro de Beukes seria adaptado como filme, e seria uma adaptação produzida pela empresa Appian Way de Leonardo DiCaprio. No site IMDb, o projeto se encontra em desenvolvimento, sem muitas informações. Temos poucas notícias sobre a adaptação desde então, mas em 2016 foi noticiado pela Variety que Morten Tyldum assumiria a direção.

Compre os livros:

Iluminadas: Físico | Kindle
Os Homens que Não Amavam as Mulheres: Físico | Kindle

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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