Eu sei o que vocês fizeram no verão passado — livro e filme



Tão distantes um do outro quanto água e vinho, o livro e o filme de Eu sei o que vocês fizeram no verão passado apresentam situações completamente diferentes. São duas obras separadas que juntas não fazem muito sentido, e talvez isso seja um ponto positivo (para o filme, principalmente).


Muitos devem estar acostumados com Eu sei o que vocês fizeram no verão passado filme, então vou começar por ele.
O filme, de 1997, dirigido por Jim Gillespie, foi um daqueles slashers adolescentes dos anos 1990 que fizeram um baita sucesso na década seguinte. Vindo na esteira de Pânico, do ano anterior, o filme nos apresenta um grupo de quatro amigos, Julie (Jennifer Love Hewitt), Helen (Sarah Michelle Gellar), Barry (Ryan Phillippe) e Ray (Freddie Prinze Jr.), no último ano do colégio. Em uma noite de farra, eles acabam atropelando um homem que caminhava pela estrada. Mas, em vez de chamar a polícia, eles jogam o corpo na água. O pacto é feito: jamais falariam novamente sobre o acidente.
A vida aconteceu e cada um deles se separou, foi para um lado. Alguns sonhos nunca se concretizaram, alguns deles fugiram da situação daquela noite. Mas um bilhete escrito "eu sei o que vocês fizeram no verão passado" faz com que se reúnam novamente, pois alguém sabe o que houve, e eles precisam se preservar.
O que parecia ser uma ameaça barata se torna um pesadelo quando Barry é atropelado, Helen é perseguida e Julie encontra algo em seu porta-mala. Há um mascarado perseguindo-os. Um dos conhecidos do grupo, Max, acaba morto por um homem com um gancho no lugar da mão, lembrando a todos uma lenda urbana que contaram no dia do acidente, antes que ele acontecesse. Ray, que trabalhava agora como pescador, acaba sendo feito de suspeito por Barry. Mas Ray também recebeu uma ameaça. 



O filme tem tudo que um bom slasher adolescente dos anos 1990 tem: um mascarado alucinado querendo vingança, algumas mortes, um grupo de amigos que ninguém entende como eles são amigos e uma sequência não tão boa assim.

Agora, o filme é bastante diferente do livro. Muito mesmo.
Lois Duncan escreveu o livro em 1973. Em 2010 o livro passou por uma modernização, com a ideia de aproximar os novos leitores para a obra. Minha edição é recente, então o que será dito aqui é a partir de sua modernização, lançada no Brasil pela editora Benvirá, com tradução de Pedro Sette-Câmara.
As personalidades dos personagens permanecem bem semelhantes mas, ao contrário do filme, o livro deixa a questão da moral em evidência o tempo inteiro, e as coisas são um pouco mais exageradas.
As diferenças são enormes. Ao invés de um homem adulto, quem é morto é um garotinho que voltava para casa tarde da noite. A personagem de Helen, que sonha em ser uma atriz no filme, ganha a vida sendo modelo e participando da programação de um casal local. Seu amor por Barry é enorme, mas ele não a ama tanto assim. Ray e Julie são namorados durante o colégio, mas rompem quando o acidente acontece.
No livro, ao atropelarem o garotinho, Barry estava dirigindo e não para. Mas, em vez de jogarem o corpo no mar, eles acabam ligando para a emergência. Não voltaram, mas chamaram a polícia.
Ray parte para a costa da Califórnia, Barry entra para a faculdade como jogador de futebol, Helen é super conhecida e Julie consegue a carta para entrar na faculdade que sua mãe havia frequentado.
Se no filme pouco sabemos sobre a família de cada um deles, no livro isso é bastante mencionado. Até mesmo pela questão moral mencionada anteriormente.
Barry tem pais bastante protetores, que não queriam nem que ele se envolvesse "com uma garota do tipo de Helen", nem que ele saísse de casa para a faculdade, fazendo com que ele acabe se inscrevendo na faculdade local. Helen, por sua vez, é uma garota com menos dinheiro que o resto do grupo, e vários irmãos. Seus pais gostam dela, o que gera muitos ciúmes de sua irmã, Elsa. Julie vive com a mãe, uma senhora muito agradável. O marido morreu uns anos antes, quando Julie tinha oito anos, criando a filha sozinha e se apegando muito a ela. E Ray tem uma família carinhosa, um pai que era jogador de futebol e acaba se tornando um bom amigo de Barry, e do qual Ray conquista o respeito por ser um garoto esforçado.
Tudo isso, no livro, é para mostrar que, conforme os acontecimentos passam, a vida dos pais desses amigos também serão modificadas. Quando Barry é baleado ele precisa lidar diretamente com a mãe super protetora. Em diversos momentos ao longo do livro é demonstrado como Helen é uma garota egoísta, e como sua irmã é uma garota invejosa. Julie começa a se afeiçoar cada vez mais da mãe conforme recebe as ameaças. E Ray conquistou muito da liberdade enquanto esteve longe de casa, não precisando tanto da aprovação do pai como antes.
O livro de Eu sei o que vocês fizeram no verão passado acaba beirando uma fábula moral, um conto escrito pelos Irmãos Grimm no século XX para mostrar os perigos de seus atos, a necessidade de se conectarem com a família, a importância de serem humildes e sempre falarem a verdade, acima de tudo.



Apesar da modernização de 2010, é necessário dizer que algumas situações são bastante desconfortáveis. Elsa é sempre tida como uma garota preguiçosa e grande (a palavra gorda em português não chega a ser usada, mas existem menções que deixam claro que Elsa não é um tipo padrão); a forma como o corpo de Helen é descrito é completamente desnecessário, além de toda a menção à sua futilidade (da primeira vez escrita já deu pra entender), entre tantos outros pequenos pontos que, já que o livro passou por uma "modernização", deveriam ter sido cortados.

O livro apela muito mais para o infanto juvenil. Servindo como um conto moral, ele pode parecer bastante bobo para quem espera algo semelhante ao filme. Poucas mortes acontecem, o final abusa do romantismo, os personagens são bastante caricatos e tem momentos que você realmente se pergunta "por que?". O ponto positivo é que eu, pelo menos, gosto mais da resolução do caso no livro do que no filme.
Apesar de tudo isso, é uma leitura rápida e pode servir para matar a curiosidade de como o filme surgiu, conhecer um pouco da escrita de Lois Duncan e tirar umas horinhas para abstrair um pouco (serviu como entretenimento para mim, apesar dos defeitos pontuados).

O filme está disponível no catálogo da Prime Video. O livro pode ser comprado na Amazon. Comprando pelo link, você dá aquela forcinha para o blog.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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