Drácula, da BBC, e o personagem secular de Bram Stoker

Em parceria com a BBC, a Netflix lançou neste dia 04 de janeiro uma miniassérie criada por Steven Moffat e Mark Gatiss, adaptação do livro de Bram Stoker, de 1897, Drácula. A série, bem como foi Sherlock, que também é de criação de ambos, é uma adaptação bastante livre, que tem uma série de liberdades em relação à obra.

Drácula é um dos meus assuntos favoritos da vida. Foi o tema da minha monografia (O vampiro fin-di-siècle: História, Literatura e Imperialismo em Drácula, de Bram Stoker (1897), que pode ser acessada aqui), e devo a ele grande parte do que sou hoje. Toda minha aspiração para estudar terror veio a partir disso.

Drácula da BBC, e o personagem secular de Bram Stoker

Então, achei que seria divertido escrever minhas impressões sobre a série e o uso que ela faz da obra. As informações a seguir foram retiradas das pesquisas que fiz durante a minha pesquisa, sendo as impressões da série somente minhas mesmo.

Antes de tudo, existem algumas ideias sobre Drácula, tanto personagem quanto obra, que queria colocar aqui:

O personagem Drácula não foi inspirado somente por Vlad Tepes, grande voivoda da Valáquia. Vlad teve sua porcentagem de culpa, mas que foi, de fato, pequena em comparação a todo resto. Cabe também porcentagens aos contos daquele século, que foram vários, e cabe principalmente o caso de Mercy Brown, que aconteceu em Rhode Island em 1892. Durante o século XVIII, principalmente, o Leste Europeu se viu assolado por uma praga que eram as histórias de vampiros. Muitos, muitos mesmo, surgiam em diversos locais. Até o Papa teve que intervir, pedindo que as pessoas tivessem mais bom senso. Uma série de artigos foram encomendados pedindo que esses camponeses lidassem com esses casos estranhos com racionalidade. Mas, estamos falando do Leste Europeu e de vilas camponesas, a maioria sem acesso a esses artigos, e com uma forte base na religião.

O caso é que, esses vampiros podem até ter ficado mais escassos, mas isso já tinha atingido de forma muito forte o imaginário europeu "esclarecido", que fez uma série de ficções sobre o tema. Não, não foi aí que a figura do vampiro surgiu, mas é daí que vem grande parte de seus personagens. Mas mesmo com essa ideia de vampiros controlada, velhos hábitos nunca morrem. Mercy Brown sofria de tuberculose quando foi dada como vampira, teve seu corpo exumado e seu coração queimado para criar um tônico para "curar" outros com a mesma doença. Esse caso, em particular, chamou muita atenção de Stoker, assim como tantos contos daquele período.

Outro ponto a se levar em consideração com a obra original é que Drácula nunca fez nada por amor. Essa é uma ideia difundida tanto quanto a Criatura de Frankenstein ter medo de fogo porque botaram fogo na casa de seu mestre. Em grande parte, essa ideia de que Drácula era apaixonado por Mina é culpa do filme de 1992, de Francis Ford Coppola. O filme é belíssimo, mas cria uma ideia completamente equivocada desse que é um vilão do mundo antigo. Ele não amava nada, exceto poder.

E é aí que entra uma terceira questão para se falar do personagem: Drácula vai até a Inglaterra em busca de dominação. Apesar do que possa parecer com suas personagens mulheres e as questões levantadas pelo livro, Stoker era um cara conservador. Ele era contra os direitos das mulheres, discutia sempre com elas sobre essa questão, menciona diversas vezes em seu livro que Mina "tinha cérebro de homem", demonstrando claramente que ela era uma exceção a todas as outras mulheres, e só era boa mesmo por ter um "cérebro de homem". Stoker, além disso, usa de estudos racistas para descrever a imagem do Conde, estudos que foram muito populares na criminologia do século XIX, que se observa o formato da cabeça para se estipular se a pessoa é criminosa ou não.

A frenologia, esse estudo craniano, foi muito popular no período, graças também aos estudos de Cesare Lombroso, dos quais Stoker lia frequentemente. Além disso, havia um medo imenso de forasteiros e imigrantes na Inglaterra naquele momento, e Stoker estava ciente disso ao colocar um forasteiro com uma vontade desumana de ir até a Inglaterra. Stoker era sobretudo um homem de seu tempo (que, talvez, se recusava um pouco a compreender os anseios do futuro).

E então, tendo essas questões em mente, a série. A seguir terão spoilers dos três episódios, então leiam com cuidado. A série foi dividida nesses três episódios e abusa de liberdades de adaptação. Muitos, mas muitos fãs do filme do Coppola e do próprio livro vão se sentir bastante incomodados, e eu entendo o porquê. Não é o meu caso, eu me diverti assistindo.

No primeiro episódio temos muito da obra original, com algumas modernizações interessantes. O relacionamento de Mina (Morfydd Clark) e Harker (John Heffernan) não é tão enrijecido quanto no livro, ambos parecem ter mais liberdades entre um e outro. Parece até realmente que há amor ali, um amor capaz de levar uma mulher inglesa do século XIX até um convento no interior da Hungria. Na única carta trocada pelos dois isso fica bastante evidente.

Esse primeiro episódio é contado em flashbacks, quando Harker já está no convento. Irmã Agatha (Dolly Wells), uma freira que está cuidando dele, realiza uma entrevista para saber exatamente o que aconteceu no castelo do Conde, e então temos adaptação já clássica da primeira parte do livro. Drácula é interpretado por Claes Bang, que fez um trabalho digno de nota em dar uma camada além de personalidade para Drácula, que geralmente é um cara bastante taciturno. Essa versão apresenta um Drácula cínico, disposto a entrar em pequenas disputas e jogos para se divertir. A eternidade deve ser entediante, e fica claro que Drácula ainda tem muito tempo pela frente.

Esse episódio entrega momentos ótimos sobre o Conde, além de revelar que Irmã Agatha na verdade é Agatha Van Helsing, e isso é bastante interessante. Van Helsing, na obra original, um personagem extremamente chato e presunçoso, foi transformado numa mulher, freira, com desejo pela ciência, que está em um convento somente porque seu casamento foi uma droga e ela queria um lugar onde dormir (palavras da própria). Nada ali soa como um anacronismo, soa somente como uma adaptação, e isso é um efeito interessante.


O segundo episódio inteiro é de Drácula no Deméter. Deméter é o navio onde Drácula realizou sua viagem até a Inglaterra, em Whitby. No livro, sabemos pouco o que aconteceu dentro do navio, mas as imagens de terror de se estar preso, em alto mar, com um monstro sanguinário e esfomeado são assustadoras.

No navio alguns nomes podem parecer conhecidos, e isso é uma brincadeira engraçada. Lord Ruthven, um dos aristocratas que entram no navio, é o nome do primeiro vampiro ficcional de um conto do século XIX. "O Vampiro", escrito por Polidori em 1818, foi um conto escrito diretamente para atingir Lord Byron, para quem Polidori trabalhava na época. Vale dizer que Polidori escreveu esse conto nas mesmas férias que levaram Mary Shelley a escrever Frankenstein, como dizem os bons boatos. Descobrimos, então, como Drácula escapou do convento, como levou Irmã Agatha de lá, e qual o plano dela para detê-lo. É exatamente nesse momento que a obra se distancia e muito da original.

No terceiro episódio estamos nos dias atuais. Drácula ficou preso em seu caixão por 123 anos, até que foi descoberto. Há um Instituto com o nome de Jonathan Harker, criado por Mina, para estudar esses assuntos e aguardar a volta do vampiro.


Esse é o episódio de maior liberdade de adaptação e que mais se aproxima do estilo dos criadores da série. Drácula nadou até a praia e encontrou uma descendente de Irmã Agatha, Zoe Helsing. Como me lembrou Karl, essa não é a primeira vez que isso acontece, tendo acontecido também durante os filmes da Hammer, em que o Cushing fazia o descendente de Van Helsing no último filme do Drácula do estúdio, tendo feito também o próprio Van Helsing no primeiro filme do Conde no estúdio.

A questão aqui é que, pior que seja, Mark Gatiss, criador da série, tem enorme noção de pequenas referências (como mostra A History of Horror with Mark Gatiss, documentário de 2010). São detalhes, como o próprio visual de Drácula, que remete ao Bela Lugosi e ao Christopher Lee, em seu cabelo e seus olhos injetados de sangue, que demonstram uma preocupação da criação. Nesse episódio encontramos outros personagens da narrativa original, como Jack (Matthew Beard), Lucy Westenra (Lydia West) e o sobrenome do personagem Frank (Gatiss), que é Renfield, descendente do antigo advogado de Drácula, que acaba internado na obra original.

É interessante trazer o personagem para os dias atuais mantendo sua motivação original e principal, pequenos detalhes como a rapidez com que Drácula poderia compreender as tecnologias novas, com sua personalidade debochada, a questão de manter seu advogado de mais de 100 anos atrás, mantido numa certa tradicionalidade, a ideia de que as coisas que fazem mal ao grande guerreiro são concepções de sua própria cabeça, são adaptações divertidas, livres, e até corajosas, que trazem um ar novo á obra.


Muita coisa já foi feita com Drácula. Drácula já foi aprisionado em um castelo de gelo utilizando a Criatura de Frankenstein para criar seus filhos (Van Helsing, 2004); já foi mandado ao espaço e despertado em uma nave por piratas espaciais (Dracula 3000, 2004); já foi um pobre guerreiro apaixonado, coitadinho (Dracula Untold, 2014); já esteve antes em nossos dias contemporâneos (Dracula 2000, 2000).

A diversão de uma história tão antiga dessas é poder ser recontada de forma moderna, de poder utilizar esses personagens que a gente conhece tão bem de formas que não esperaríamos utilizar. Demonstrar suas vidas hoje, ou o que teria acontecido caso o Drácula tivesse vencido Van Helsing (Anno Dracula, 1992, escrito por Kim Newman), são adaptações que não ficam na mesma que o livro, não são adaptações diretas, são versões que contam a mesma história de uma forma diferente.

Está em pré-produção outra adaptação de uma parte de Drácula, The Last Voyage of Deméter, com a possível direção de André Øvredal, que foca nos últimos momentos do navio e todo o terror que já mencionei. E ainda há muito a ser explorado dessa obra que é um cânone nas histórias de vampiros. Não é uma fonte que esgota histórias ou estudos, é uma obra complexa, com vontades e ideais, que ainda tem muito a ser feito.

E tudo bem se não gostar de algumas delas. Eu não sou a maior fã de Bram Stoker's Dracula, filme de 1992 do Coppola. Não gosto da ideia de Drácula ser um pobre cara apaixonado. Mas é um filme visualmente lindo e eu o assisto as vezes. Acho que dá pra subverter a ideia de que Drácula é um vilão, e ir contra os preconceitos de seu criador, mas não o mantendo um vilão e apaixonado.

Não gostar das coisas é normal. Mas, nessas obras que se baseiam em outras grandes obras, uma das coisas que mais me interessa é perceber de onde tiraram determinadas escolhas, se essas escolhas foram ou não corajosas, se elas mantém o que se espera delas ou se elas resolvem ser completamente malucas (como, talvez, o terceiro e já maldito episódio da série em questão).

No mais, você só vai descobrir se gosta se assistir. Então assista. A série tem momentos divertidos. Não posso dizer que ela é totalmente boa, mas é um entretenimento bacana se você for com sua cabeça e coração abertos.




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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